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lei maria da penha 07.08.2019 | 15h33

Ameaçadas de morte, mulheres vivem trancadas em Casa de Amparo na Capital

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Ana Flávia Corrêa

anaflavia@gazetadigital.com.br

Em um sobrado improvisado próximo a uma das principais avenidas de Cuiabá, vivem mulheres vítimas de violência doméstica que temem serem mortas por seus agressores e, por isso, são protegidas em tempo integral. O movimento dos carros e a correria da cidade não impacta na vivência dessas mulheres. Lá dentro, o tempo caminha em outra frequência.

 

Leia também - Mulher é mantida em cárcere privado por 8h pelo ex-marido

 

"Não precisa ficar assustada não, são apenas os funcionários chegando", advertiu a coordenadora da Casa de Amparo, Fabiana Soares, sobre a reportagem quando o portão de correr foi aberto e fez um barulho metálico. O clima de medo é constante. 

 

A casa de amparo é uma das medidas protetivas de urgência previstas pela Lei Maria da Penha, que completa 13 anos nesta quarta-feira (7). A lei tem o objetivo de criar mecanismos para coibir e prevenir as agressões contra mulheres. 

 

Atualmente, 3 mulheres e 6 crianças vivem na casa. Enclausuradas, elas tentam vivenciar no local a mesma rotina que levavam fora. Para ocupar o tempo ocioso, fazem faxina, lavam roupas e ajudam na cozinha com o preparo do café da manhã, almoço e jantar. 

 

Chico Ferreira

Mulher agredida

 

Na terça-feira (6), quando o entrou na sala que elas utilizam para fazer suas refeições, por volta das 11h, Elizabete* estava sentada sozinha com os olhos parados no chão. Mais tarde, ela confessou: "não tem um dia em que eu não passe sem lembrar do quanto eu fui judiada". 

 

A senhora de 67 anos está no local há pelo menos uma semana. Decidiu que precisava procurar ajuda depois de passar quase 50 anos sendo vítima de violência física, psicológica e patrimonial de seu ex-companheiro. Mesmo sem o apoio dos filhos, ela percebeu que ou denunciava o agressor, ou seria morta. 

 

"Eu estou aqui porque ele estava me ameaçando. Eu dei parte na Maria da Penha, mas ele não me deixava em paz. Ele falou que eu estava louca. Eu falei que eu não estava louca não, que eu sabia muito bem do que eu estou falando. Meus filhos ficaram zangados porque eu dei parte", explicou. 

 

Chico Ferreira

Violência mulher

 

Aos 17 anos, foi obrigada a se casar com o ex-marido para não perder a sua "honra". Em uma cidade do interior, ela saiu de bicicleta para comprar um medicamento para os pais quando foi carregada à força, levada para um matagal e estuprada por um desconhecido. Ao contar para os familiares, eles sentenciaram que só existia uma alternativa: o casamento.

 

O homem, que já havia dado indícios suficientes de que era agressivo, transformou a vida de Elizabete em um martírio. Extremamente religiosa, a mulher colocava a sua fé no pensamento de que um dia o homem mudaria. Ao longo do casamento, eles tiveram 3 filhos. Até que o companheiro pediu para que ela abandonasse emprego e família na Capital e o acompanhasse na mudança de casa para uma fazenda no interior. 

 

"Lá tinha turismo, iam pessoas para visitar. Ele tinha uma pousada e eu que cozinhava, lavava, fazia tudo. Só que eu nunca ganhei um centavo para trabalhar. Acordava todo dia cedo para fazer café da manhã para os turistas, mas se eu pegava R$ 5 para comprar uma mistura ele dizia que eu estava roubando", contou. 

 

Apesar do trabalho árduo, o homem fazia questão de afirmar que Elizabete não se esforçava o suficiente. As ameaças de morte e expulsão de casa eram constantes. Os xingamentos e ofensas começaram a fazer parte da rotina da mulher, que se viu presa em uma cidade em que a única pessoa que conhecia era o marido. Distante dos familiares, era quase impossível fugir das agressões. 

 

João Vieira

Mulher agredida

 

Em uma das ocasiões que se recorda, ele a jogou no chão e quebrou sua costela. No médico, o ex-companheiro obrigou que ela contasse ao profissional que caiu e se machucou sozinha. O cotidiano abusivo e austero fez com que ela desenvolvesse depressão. 

 

"Eu ficava muito chateada, porque tinha vez que a gente deitava na cama ele com a cabeça pra lá e eu com a cabeça pra cá. Ele não conversava comigo o dia inteiro, ficava só emburrado. Eu não sabia o que fazer. Sem pai, sem mãe eu não tinha com quem me abrir. Não tinha nada, não tinha um ombro amigo para chorar, para falar alguma coisa que eu estava sentindo. Eu sofri muito", relembra a mulher. 

 

Em 2017, aproveitou um descuido do ex-marido parar fugir. Enquanto ele cuidava dos animais no pasto, entrou no carro de uma amiga e voltou para Cuiabá. Não demorou para receber uma mensagem do homem: "se eu soubesse que você fugiria, teria te matado antes". 

 

Na Capital, tentou seguir sua vida e desenvolver sua autonomia. Morou sozinha em uma casa e contava com a ajuda dos poucos amigos e familiares que ainda restavam depois de ter sido obrigada a viver afastada. Denunciou o homem, mas não foi o suficiente para que as agressões cessassem. Ele ainda a perseguia.

 

Otmar de Oliveira

Agressão

 

"Aí a delegada achou que seria melhor eu vir pra cá. Eu pretendo ficar até sair o divórcio. Eu quero viver em paz, tranquila. Eu não devo nada pra ninguém, nunca fiz mal para ninguém. Eu tenho medo porque ele é muito ruim, mas tenho fé em Deus que vou sair dessa, porque o poder dele é grande. Tudo o que eu quero é a vida que eu tinha antes de casar". 

 

Em sua nova moradia, Elizabete ajuda no preparo das refeições, no cuidado com os filhos das outras mulheres e na limpeza do local. Durante a entrevista, uma das crianças machucou o dedo e foi a mulher quem consolou o pequeno: "o que foi, meu filho? Já vai passar, fique tranquilo." As mulheres encontram um conforto resignado no sofrimento da outra e os laços são estabelecidos por meio das vivências semelhantes.

 

 

Assistência 

 

Conforme explicou a coordenadora Fabiana Soares, a casa tem a capacidade de abrigar até 20 pessoas, entre mulheres agredidas e crianças. É possível que elas fiquem no local por até 180 dias, mas é a mulher que decide a hora de ir embora. Apenas em 2019, 35 mulheres já passaram pelo local, além de 64 crianças. 

 

Otmar de Oliveira

Agressão

 

Para ser acolhida no local, é necessário que a vítima registre um boletim de ocorrência e deixe claro que precisa da assistência. Lá, encontra o amparo jurídico, psicológico e social que precisa para sobreviver ao trauma.

 

"A unidade tem suas portas fechadas. A mulher não pode bater aqui na porta e dizer que precisa entrar. Até porque é um serviço sigiloso, os homens não podem saber onde essas mulheres ficam. Elas são ameaçadas de morte, se souberem onde elas ficam elas se tornam vulneráveis", esclarece a coordenadora.

 

Algumas mulheres recebem a autorização para continuar trabalhando fora da casa, caso seja constatado que o ambiente de trabalho é seguro. As crianças também costumam ser remanejadas para creches próximas à Casa. Todo o serviço é acompanhado por servidores da Secretaria Municipal de Assistência Social e, algumas vezes, pela Polícia Militar (PM).

 

Caso o ambiente de trabalho seja hostil, a lei prevê que a vítima fique afastada de seu serviço por até 6 meses. As atividades domésticas são consideradas uma forma de ocupar o tempo das vítimas, para que continuem tendo responsabilidades mesmo depois de acolhidas. 

 

"É difícil você sair da sua casa e encontrar um ambiente ruim. Você vai querer um lugar que te traz alegria, que não remete a sua tristeza e a sua vida de sofrimento. Muitas mulheres chegam aqui e demoram semanas para começar a conversar, porque precisa passar por um processo de confiança. Depois ela é quem diz se tem condições de enfrentar o mundo lá fora", finalizou Fabiana.

 

*Os nomes foram alterados para proteger a identidade das vítimas. 

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Comentários

Adalia - 08/08/2019

Muito importante as Medidas Protetivas, Contudo o que ocorre com as crianças vitimas de violencia ocorre com as mulheres. Elas são retiradas do convivio familiar a comunitário ficam instituicionalizadas, enquanto os agressores ficam livres para fazer novas vitimas. Isso pode ser considerado violaçao de direitos das vitimas.

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