VIDA DE SUPERAÇÃO 28.11.2021 | 07h29

jessica@gazetadigital.com.br
Reprodução
Um vídeo viral uniu mãe e filha que não se viam há 30 anos. Na segunda-feira (22), Luana Frigo conversou pela primeira vez com a mãe biológica, Carmen, por vídeo-chamada. A emoção deu o tom do encontro virtual, no qual a jovem descobriu que tem mais duas irmãs e a mãe ganhou dois netos. Adotada, a influencer é monocular e mantém rede social para informação, incentivo e representatividade de quem também perdeu o globo ocular.
Superação e resiliência são as palavras que definem as 3 décadas de vida da Luana. Nascida em Cuiabá, ela passou a primeira infância em Várzea Grande, com os avós paternos. Depois se mudou para o interior de São Paulo, onde passou muitos anos.
Em entrevista ao
, Luana contou que tudo o que sabia até agora sobre a mãe biológica era o que os avós paternos contavam. Ela nunca teve contato com ela e também não foi procurá-la. A mágoa e o sentimento de rejeição ainda estavam em seu coração impediam o interesse por qualquer possível encontro.
“Todo filho adotivo pensa que foi rejeitado. Se culpa e se questiona por não ter sido amado pelos pais. É um sentimento que fica, um luto diário de enterrar a pessoa que te deu a vida. É um misto de sentimentos que uma criança não sabe lidar”, argumenta.
Porém, há algum tempo sentiu a vontade de buscar sua origem, pensamento sobre se a mãe pensava nela, se lembrava o dia que nasceu e se tinha herdado algum traço físico enchiam sua cabeça, até que criou coragem e fez um vídeo falando sua história e o pouco que sabia da família.
A filmagem rapidamente se espalhou pela internet, seguidoras compartilharam no instagram, facebook e também em centenas de grupos de whasapp. Por felicidade do destino, um dos grupos era da família paterna que ainda mora em Várzea Grande e um dos membros tinha informação sobre o paradeiro da mãe da influencer.
“Eu tenho contato com algumas pessoas da família paterna e muita gente compartilhou o vídeo na cidade. Foram muitos compartilhamentos e uma irmã entrou em contato comigo. A gente conversou por vídeo e descobri que sou muito parecida com ela”, contou a jovem.
Luana relata que a conversa foi muito esclarecedora e conseguiu entender a condição que levou a mãe a entregá-la para os avós ainda bebê e também o receio do contato após anos.
A influencer conta que a mãe deu à luz ainda muito jovem, com 16 anos. Somada à pouca idade, a adolescente não teve qualquer apoio. O pai biológico de Luana não se interessou pela paternidade e abandonou as duas. Logo Luana contraiu uma infecção no olho que a fez perder o globo ocular esquerdo ainda bebê. Sem amparo e com uma filha que precisava de cuidados especiais, Carmen aceitou o pedido dos pais do ex-companheiro para ficar com a menina.
Na época, Mato Grosso não tinha tratamento adequado para o glaucoma que a menina tinha. Em viagem a São Paulo, os avós encontraram com parentes e eles se ofereceram para cuidar da bebê, pois lá havia profissionais especializados para o caso.
“Foi muito importante falar com ela. Entendi um pouco o lado dela. Eu também fui mãe aos 16 anos, ela foi abandonada pelo meu genitor, não tinha família para ajudar e ainda estava com uma filha deficiente. Ela fez o que foi necessário. Se ela não tivesse me doado, eu não estaria viva hoje, porque era uma infecção muito grande”, conta a jovem que é mãe de dois meninos, um de 13 anos e outro de um ano e 7 meses.
O passar do tempo e anos de terapia ajudaram a apaziguar os sentimentos negativos e entender que não se tratava de abandono ou que a mãe não a amava. Quando foi mãe, o interesse de encontrar quem a trouxe ao mundo foi mais latente.
“Entendi que a maternidade não é fácil como os filmes e novelas colocam. Pude reconhecer meu rosto, me ver em outra pessoa que nunca conheci. Eu sou igual a minha mãe, não tem nem como dizer que não sou filha dela. Meu filho mais velho traz muitos traços dela. O perdão veio antes dessa conversa com ela. Foi preciso tirar essa armadura e ir de coração aberto”, declara.
Antes da chamada de vídeo, mãe e filha conversaram via mensagens e amor aconteceu de forma que não parecia que 30 anos tinham se passado.
“Ela me falou que sempre teve esperança de me encontrar, mas não procurou por medo da minha reação, porque ela achada que eu estava ainda magoada por ter sido abandonada. Ela disse ‘eu preferi esperar você me procurar, do que ir atrás de você e ser rejeitada’”, lembra.
Segundo Luana, a mãe biológica nunca escondeu que havia doado a filha e que sentia sua falta.
Hoje Luana mora em Recife (PE) e segue tratamentos em São Paulo. A mãe mora em Mato Grosso do Sul e boa parte da família ainda está em Mato Grosso.
Vida monocular
Por conta da perde do olho esquerdo, Luana usa prótese e a troca a cada 5 anos. Anualmente é preciso fazer avaliação para identificar se está tudo certo com o aparelho.
No caso de Luana, a prótese é muito discreta, mas há situação de pessoas que tiveram algum trauma ou outra complicação em que o material é mais nítido.
Luana conta que nunca deu atenção para discriminação e as piadas existiam, mas sempre levou tudo de forma leve. Não há trauma ou qualquer problema de imagem e autoestima por usar o olho artificial.
“Estou na internet há 11 anos falando de vida monocular. Antes era muito tabu. Luto para quebrar isso e ajudar outras pessoas”, relata.
Luana relata que com 10 meses precisou fazer a extração total do globo ocular esquerdo e com pouco mais de 1 ano colocou a primeira prótese. A mãe adotiva fez todo tipo de campanha para conseguir comprar a peça e foi amplamente criticada e desmotivada por pedir ajuda para a menina com problema de saúde.
“Minha mãe foi para o semáforo pedir ajuda, fez vaquinha, foi pra igreja, fez jantar, bingo. Tudo para conseguir dinheiro. Uma fato que minha mãe conta que marcou muito foi uma pessoa que a questionou por fazer tudo aquilo ‘sabendo que essa menina vai morrer’. Foi muito difícil”, lembra.
Nas redes sociais, Luana faz conteúdos direcionados a mães de monoculares e passa adiante todo ensinamento de afeto, combate ao preconceito e coragem aprendido com a mulher que a criou.
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