IDENTIDADE REGIONAL 11.10.2026 | 15h00

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Montagem GD
A cultura mato-grossense ganhou uma versão que cabe na palma da mão e também pode ser usada como acessório. Viola de Cocho, Igreja do Rosário e São Benedito, pássaros do Pantanal, onça-pintada e flores estão entre as referências transformadas em pequenas peças artesanais pela jornalista e artesã Maricelle Lima Vieira, de 48 anos.
Cuiabana e filha de pantaneiros, Maricelle encontrou na produção artesanal uma forma de preservar elementos ligados à própria história. A aproximação com a cerâmica começou há cerca de dois anos e meio, depois de um curso de cerâmica tradicional com o ceramista Roney Ferraz.
“Desde o início, meu interesse maior foi criar peças pequenas, principalmente acessórios, mas logo percebi que poderia ir além e transformar referências da cultura e da identidade de Mato Grosso em objetos de uso cotidiano”, conta.
A primeira experiência foi com argila. O tamanho reduzido das peças, no entanto, tornava o processo de queima da cerâmica tradicional pouco viável financeiramente. A alternativa apareceu nas redes sociais: a cerâmica plástica, material moldável que pode ser curado em forno doméstico, em temperatura em torno de 130°C.
A mudança permitiu que Maricelle avançasse na produção e desenvolvesse uma linguagem própria.
“Hoje, meu trabalho está muito ligado ao artesanato contemporâneo e à identidade cuiabana e pantaneira. Sou filha de pantaneiros, cuiabana e mato-grossense, então essas referências fazem parte da minha história”.
A intenção é fazer com que os pequenos objetos funcionem também como lembranças do território.
“A ideia é criar miniaturas que carreguem um pouco da nossa identidade e que possam ser levadas pelas pessoas para além de Mato Grosso”, explica.
Artesanato e bijuterias ganham espaço no consumo
A aposta de Maricelle em pequenos acessórios acompanha um mercado no qual joias e bijuterias artesanais ocupam posição relevante. Pesquisa do Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), divulgada em 2026 e realizada com 2,4 mil consumidores de todas as regiões do país, aponta que joias e bijuterias representam 30% dos produtos artesanais adquiridos, ficando atrás apenas dos objetos de decoração, com 40%.
O levantamento mostra ainda que 66% dos consumidores de artesanato são mulheres e que o público tem idade média de 37 anos. Além do aspecto estético, há espaço para produtos associados à identidade regional: 24% dos entrevistados enxergam o artesanato como uma maneira de valorizar tradições e expressões culturais locais.
A força da cerâmica também aparece nos resultados das grandes feiras do setor. No 22º Salão do Artesanato, realizado em São Paulo em 2026, argila e cerâmica responderam por 13,8% das principais tipologias comercializadas. O evento movimentou R$ 5,68 milhões com a venda de mais de 71 mil peças.
Os números mostram que tanto as joias e bijuterias quanto a produção artesanal em cerâmica têm construído uma presença expressiva no mercado brasileiro.
Do molde à pintura, trabalho é feito à mão
O tamanho das peças exige precisão. Maricelle trabalha com pequenas quantidades de massa e combina diferentes cores conforme o objeto que pretende produzir. A criação segue dois caminhos: peças inteiramente autorais, modeladas de maneira intuitiva, e reproduções de referências culturais específicas.
“Algumas peças são totalmente autorais e orgânicas. Nesse caso, começo a modelar sem um desenho totalmente definido e vou construindo a forma de maneira intuitiva. Quando chego a um resultado que gosto, procuro reproduzir aquela ideia”, relata.
Para elementos que precisam preservar características reconhecíveis, como a Viola de Cocho e a fachada da Igreja do Rosário e São Benedito, são utilizados moldes e cortadores. Alguns foram desenvolvidos especialmente para o trabalho por uma profissional que atua com impressão 3D.
O uso da tecnologia, entretanto, é apenas o ponto de partida.
“Mesmo utilizando o molde para chegar à forma inicial, existe muito trabalho manual depois. Eu faço a montagem, os detalhes e a pintura à mão. Na fachada da igreja, por exemplo, cada janela, porta e detalhe precisa ser trabalhado individualmente.”
Para Maricelle, é justamente o encontro entre ferramentas atuais e o fazer artesanal que define seu trabalho. “É justamente essa combinação entre uma técnica contemporânea, o trabalho manual e as referências da nossa cultura que dá identidade às peças.”
Produção pequena, memória que viaja
A produção ainda ocorre em pequena escala. Uma das formas de encontrar as peças é na Feira do Museu de História Natural, na Avenida Beira Rio, em Cuiabá, realizada aos domingos, das 9h às 15h. A artesã também participa de feiras e eventos quando convidada e recebe encomendas pelas redes sociais, no perfil @marilima.arteseformas.
Maricelle pretende ampliar gradualmente a produção, sem abandonar a característica manual das criações. Para ela, mais do que acessórios, as miniaturas funcionam como fragmentos de uma história coletiva.
“Mais do que produzir acessórios, meu objetivo é criar pequenas peças de memória e identidade, feitas à mão e inspiradas no lugar onde nasci e nas histórias que fazem parte da minha origem”.
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