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“Vacilante” 21.10.2020 | 11h18

Cuiabano retrata Festa de São Benedito e cotidiano da cidade em novo fotolivro

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Fred Gustavos

Fred Gustavos

Cuiabá, a tradicional procissão da festa de São Benedito, seu percurso e toda a verdade de um cotidiano que habita os outros 364 dias dos mesmos locais. Esse é fio condutor do fotolivro “Vacilante”, que o artista e arquiteto cuiabano, Pedro Thame, está lançando, este mês, em Cuiabá, pelo site www.vacilante.com.br.

 

Pedro começou a fotografar o ensaio que deu origem ao fotolivro Vacilante “meio que sem saber”, em 2013, quando investigava eventos e festas de caráter democrático na capital, onde qualquer pessoa pudesse estar, frequentar e vivenciar a cidade, de forma que a observação ocorreria pela perspectiva do pedestre, tendo o caminhar como uma linha condutora.

 

Na ocasião, Cuiabá estava tomada por obras enormes por conta da Copa do Mundo e, o artista conta que observava tudo que ocorria como quem visitava uma outra cidade, adormecida atrás dos tapumes, no trânsito engarrafado, nos desvios.

 

“Encontrei a procissão retornando por aquelas ruas que já tinha me acostumado a ver ocupadas pela festa, com barracas, famílias sentadas nas mesas, palco e shows de música. Me deixei ser levado um pouco por aquilo que a Procissão criava e que parecia suprimir tudo ao redor. Não fotografei de imediato, mas aquela experiência ficou guardada em algum lugar em mim. No ano seguinte, 2014, resolvi acompanhar e fotografar a procissão por inteiro. Pude, então, juntar alguns pedaços do que tinha presenciado e me aprofundar naquela experiência: o caminhar por aquelas ruas, com o grupo grande caminhando lentamente, com a melodia ouvida de dentro do próprio coro, pontuada por silêncios profundos, num fim de tarde que já vira noite perfumada por mirra. Tive a certeza que era outro lugar. Não era o centro de Cuiabá que conhecia, a Av. do CPA que transitava no dia-a-dia. A procissão criava algo só dela, um lugar próprio – estar na procissão é estar nela onde quer que esteja. Depois disso, voltei todos os anos. É claro que muita coisa passou a fazer sentido tempos depois”, relata.

 

Depois de alguns anos fotografando a procissão, Pedro decidiu utilizar a pesquisa feita para falar de questões da cidade através da fotografia, de forma acadêmica, utilizando o tema para o trabalho final da faculdade de arquitetura e urbanismo.

 

“Diversas impressões antes apenas sentidas passaram a ser ideias de nomes claros. Como o conceito de lugar, tema central do ensaio, e outras ferramentas de análise do espaço que são muito caras ao ofício de arquiteto. Naquele momento, o foco era o lugar criado pela procissão, a capacidade de alterar drasticamente a paisagem da cidade de maneira temporária e intensa. Refiz diversas vezes o mesmo percurso da procissão em dias comuns, variando horários e sempre caminhando. Assim, o lugar do cotidiano surgiu no ensaio para reforçar o lugar da procissão, explorando essa justaposição”.

 

Como resultado, o arquiteto realizou uma exposição com o ensaio, que ocorreu no MACP/UFMT durante o 25º SemiEdu, em 2017, com apoio da PROCEV/UFMT.

 

“Entendo hoje a exposição como um momento desse longo processo que hoje se encerra com a publicação do fotolivro. Depois da exposição, achei que o ensaio poderia caminhar mais, tomar outros rumos. Fui mudando o destaque à procissão e passei a olhar mais para os limites entre a procissão e o cotidiano. Mas afinal, quando acaba um e começa o outro? Essa era a pergunta de fundo. Por mais que a procissão dure algumas horas, ela está presente no cotidiano, pois pertence a um imaginário de um grupo. Um imaginário forte o suficiente a ponto de o evento ocorrer exatamente o mesmo dia há mais de cem anos”.

 

O arquiteto explica que a publicação traz a proposta intimista, mostrando a diferença de estar em uma galeria, onde as obras estão dispostas e as pessoas percorrem o espaço contemplando, interagindo de formas diferentes. Ele descreve como uma relação de intimidade, de proximidade com o leitor.

 

A publicação brinca, explorando um certo jogo de significação e ressignificação das imagens. A maioria das fotos da sequência ocupa uma página toda, mas, em alguns momentos, surge uma página menor, que deixa ver só uma parte da imagem seguinte. Ao passar a página pequena, o leitor cria recortes e justaposições entre as fotos maiores e menores. Essa diferença cria um contexto que acaba ressignificando cada imagem e o conjunto como um todo.

 

“Para mim, uma questão importante é o fazer de livros no momento em que nos encontramos. Em especial, livros de fotografias.  Nossa sociedade está em um ritmo alucinante de produção e consumo de imagens. Produzimos, consumimos, descartamos e armazenamos em nuvens imagens a uma velocidade assombrosa. E salvo algumas poucas exceções, nos detemos diante delas apenas o tempo de dar o duplo clique do like da rede social. O fotolivro tem um tempo diferente, um tempo lento, que nos permite criar outros afetos com as imagens.”

 

O artista fotografa apenas com câmeras analógicas. Segundo ele, trabalhar com esse processo cria um distanciamento entre fazer a foto e vê-la, proporcionando aproximações diferentes ao material fotografado. “Controlar a revelação também é importante, revelando meus filmes manualmente em casa, controlo os detalhes para chegar às texturas que busco nas imagens. É um trabalho quase todo manual. O processo de concepção de uma publicação é manual ao máximo, só quando não tenho mais como, é que passo ao computador. Foi assim com essa e está sendo com a próxima em que estou trabalhando. Gosto de trabalhar com as mãos para pensar uma publicação, é assim que ela será sentida.”

 

Vacilante está sendo autopublicado com o financiamento pela Lei de Incentivo à Cultura, do Fundo Municipal de Apoio e Estímulo à Cultura de Cuiabá, edital de 2019. Parte da tiragem foi doada para bibliotecas e instituições de acesso público. O fotolivro pode ser adquirido por meio do site oficial da obra e também nas livrarias Janina e custa R$ 25 reais.  

 

O autor

Pedro Thame tem 27 anos e, como muitos fotógrafos, descobriu a fotografia ainda na infância. Fruto típico da Cuiabá da década de 1990, é filho de pais nascidos em outras cidades, que aqui se encontraram e construíram a família. Arquiteto e urbanista de formação, segue o encanto pelo urbano, pelos elementos que partem da dimensão física para outras áreas do imaginário.

 

Sempre que pode, caminha pelo Centro, sentindo o cheiro de pequi misturado com fumaça de óleo diesel. Em 2017 expôs Criação do lugar, no MACP/UFMT; e em 2018, autopublicou “O lugar, os lugares”.

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