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Cuiabá, Sexta-feira 06/12/2019

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Deu em A Gazeta 18.11.2019 | 08h10

Famílias retiradas de residencial voltam a viver em áreas de risco

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Natália Araújo

natalia@gazetadigital.com.br

Otmar de Oliveira

Otmar de Oliveira

Tábuas de madeira e telhas montadas como se fossem um quebra-cabeça à beira do córrego Ouro Fino, em Cuiabá, hoje servem de casa para 4 pessoas. Às margens do córrego do Barbado, a preocupação é que o imóvel seja levado caso venha uma chuva forte. Em outro ponto da cidade, uma quitinete abriga mãe e filho que foram acolhidos de favor. Essa é a realidade de famílias retiradas do residencial Jonas Pinheiro 3, após reintegração de posse com decisão judicial.

 

Edlaine Garcia Gonçalves, 40, e os 3 filhos dividem hoje um barraco à beira do córrego Ouro Fino, no bairro Serra Dourada. A peça foi cedida por um homem por intercessão de conhecidos. Porém, outras pessoas apareceram se dizendo proprietárias do terreno. “Agora vamos esperar para ver como resolve essa parte”.

 

Após se instalar no barraco, na primeira noite choveu e a cama ficou toda molhada. “Antes tinha só uma peça, conseguimos doações e catamos o material para montar essa outra parte, colocar o telhado mais alto e tentar proteger da chuva. Mas precisamos fazer um banheiro”. Por enquanto, conta com a bondade dos vizinhos.

 

Em um dos cômodos está a cama onde a mulher e os filhos Raiane, 11, Emanuelly, 8, e Enzo dormem. “Às vezes, pego um colchão ali de fora, forro com o lençol e durmo no chão. Mas vigio para as crianças não ficarem perto das paredes porque tenho medo de bichos, como cobras”.

 

Perto da cama, um pequeno armário está com algumas peças de roupas. Ao lado, em uma mesa, a televisão antiga ajuda a entreter as crianças. Próximo à entrada, os objetos da cozinha estão empilhados em prateleiras improvisadas com madeiras. O fogão, com apenas duas bocas funcionando, está com o gás prestes a acabar. A geladeira doada fica aos pés da cama. Antes vazia, agora tem ao menos um pouco de carne, leite e iogurte para alimentar a família. “Ganhamos isso. Antes da mudança já passávamos por dificuldades e agora ficou ainda mais complicado”.

 

Raiane acompanha a mãe de perto e complementa os relatos. No dia da mudança, segundo a mulher, os materiais escolares das crianças se perderam. “Eu estou no 4º ano, minha irmã no 2º e o meu irmão no pré”, diz a garota.

 

A família morava há um ano e 7 meses no residencial e, no último dia 6, teve que juntar parte das coisas que tinha e se mudar. “Eu ainda perguntei para onde eu iria, expliquei que não tinha onde ficar”.

 

Edlaine ainda tentou falar com a assistente social que direcionava as famílias para o aluguel social. Soube que houve uma desistência, portanto, tentariam incluí-la. Porém, no dia seguinte, precisou sair do imóvel porque não havia mais água e energia. “Vim para cá (no Serra Dourada). Recebi uma ligação e disseram que eu teria a assistência, mas por 3 meses. O que eu faria depois?”.

Otmar de Oliveira

Despejados Jonas Pinheiro 3

 

 

Desempregada há 3 anos, sustenta os filhos sozinha. A renda da família vem de um benefício do governo federal. Uma das despesas é o remédio do filho mais novo que, além de cardiopata, sofre com a lúpus bolhosa. O xarope de fosfato sódico de prednisolona foi comprado nos últimos meses depois de não ter sido encontrado na rede pública. “Ele toma uma vez ao dia e dura 20 dias. O valor varia de onde eu compro, de R$ 25 até R$ 40. Se não ficar medicado, em dois dias as bolhas começam a aparecer”, relata e mostra a foto de Enzo, de 3 anos, tomado pelas bolhas e feridas.

 

Edlaine pede ajuda com a doação de alimentos, roupas, sapatos. “Precisamos de qualquer tipo de ajuda. O que eu queria mesmo era um emprego. Posso trabalhar como auxiliar de serviços gerais, ajudante de cozinha, já fiz panfletagem”.

 

Área de risco

Na última sexta-feira (14), uma chuva ensaiava cair em Cuiabá. Para a dona de casa Nayara Cristina da Silva, 24, esse seria mais um pesadelo. O segundo, em menos de 10 dias. Primeiro a família precisou se mudar do residencial. Para não ficar na rua, a jovem, o marido e os dois filhos voltaram para a antiga casa no bairro Dom Bosco, com um quarto e cozinha, às margens do Córrego do Gambá. “Saímos daqui para fugirmos desse perigo. Acredito que essa árvore é que segura a casa. Se ela cair, o imóvel vai embora também, está tudo oco aqui embaixo. Quando começa a chover, não temos outra opção senão orar”.

 

A família viveu no residencial um ano e 7 meses. A retirada aconteceu no dia do aniversário de Hector Waldney Rodrigues da Silva, 3. “Em 2018 passamos essa mesma data lá, todos felizes. Este ano foi diferente. Minha filha chorou desde o dia anterior ao saber que teríamos que sair”, conta, citando a filha Laiz, de 7 anos, que não esconde o descontentamento.

Nayara reforça que as famílias do conjunto habitacional estavam dispostas a pagar pelas casas onde viviam, dentro de suas condições. “O que eu quero é só uma casa para ficarmos tranquilos”, destaca.

Favor
A reportagem reencontrou Maria Emília Pereira, 60, e o filho Enil Barcelos Muniz, 36, que no dia da reintegração de posse não tinham para onde ir. “Como as minhas coisas vieram para um galpão aqui perto, passei aqui em frente e vi essa quitinete. Depois soube que era de um conhecido”, conta a idosa sobre o imóvel no bairro Altos da Glória.

 

Apesar de terem um teto, outras dificuldades se agravaram na vida dos catadores de materiais recicláveis, como a falta de comida. “Os vizinhos me ajudaram e deram o que tinham”, lembra a idosa.

 

Enil é esquizofrênico e tem deficit cognitivo incapacitante. Alguns dos remédios que toma foram comprados com o benefício recebido por ele e com parte da venda de reciclados. Porém, o dinheiro não tem sido o suficiente. “Precisei comprar porque a Policlínica do Planalto não tem psiquiatra. Até mesmo a receita está difícil de encontrar”, diz a mãe.

 

Hoje (18), Maria Emília deve passar por uma cirurgia de catarata no olho direito. “Isso é, se tiver a lente. Caso contrário, terei que voltar para casa”, relata. Após o procedimento, a idosa acredita que precisará ficar sem trabalhar por uns dias. Isso diminuirá ainda mais os recursos.

 

Contatos para ajuda

 

Edlaine
Telefone - (65) 99257-6168
Endereço - Rua Girassóis, bairro Serra Dourada

 

Maria Emília
Telefone - (65) 99235-5292 (Paulo, vizinho)
Endereço - Avenida Principal com rua 15, bairro Altos da Glória

 

Outro lado
A desocupação do residencial Jonas Pinheiro foi realizada após ordem judicial de reintegração de posse em ação movida pela construtora. Aproximadamente 400 famílias foram retiradas do local.

 

A Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária destaca que o deficit habitacional atinge cerca de 50 mil pessoas em Cuiabá, sendo impossível resolvê-lo apenas no âmbito municipal.

 

A Secretaria Municipal de Assistência Social informou que as famílias têm que procurar auxílio nos Centros de Referência da Assistência Social (Cras).

 

A Secretaria Municipal de Saúde confirmou a falta de medicamento Fosfato Sódico de Prednisolona e informou que o pregão para a aquisição deste e outros remédios está em fase final de homologação.

 

Sobre o atendimento psiquiátrico, a Pasta afirma que há especialista na Policlínica do Planalto.

 

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