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COPA DO MUNDO 19.06.2026 | 08h28

Haitiano que escolheu Brasil como casa viverá jogo como 'quem vê dois filhos em campo'

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Helena Werneck - Especial para o GD

redacao@gazetadigital

ACERVO PESSOAL/MONTAGEM GD

ACERVO PESSOAL/MONTAGEM GD

Quando o árbitro apitar o início da partida entre Brasil e Haiti nesta sexta-feira (19), pela Copa do Mundo, Duckson Jacques terá diante da televisão uma sensação rara: a de ver dois lugares que moldaram sua vida dividindo o mesmo gramado.

De um lado estará o país onde nasceu, cresceu e construiu suas primeiras memórias. Do outro, o país que escolheu para recomeçar, criar raízes e chamar de casa.

 

Aos 43 anos, Duckson carrega uma história marcada por deslocamentos, adaptação e pertencimento. Natural do Haiti, ele chegou ao Brasil em janeiro de 2013 e, desde então, vive em Cuiabá. O que começou como uma travessia em busca de oportunidades se transformou em algo definitivo.

 

"Não é mais uma viagem, é uma vida. Nós trouxemos nossa bagagem cultural, nossa história e construímos tudo aqui. Hoje eu sou naturalizado brasileiro", resume.

 

Treze anos depois da chegada, ele fala do Brasil sem o tom de quem apenas passou pelo país. Fala como quem participou dele.

 

Além de músico e cantor, Duckson trabalha como azulejista, atua como intérprete de idiomas e é estudante de direito. Ao longo dos anos, também representou a comunidade haitiana em espaços de diálogo e acompanhamento social em Brasília.

 

Mas, nesta sexta-feira, nenhuma dessas funções estará em primeiro plano. Ele será apenas um torcedor dividido entre afetos. Para muita gente, um confronto entre o país de origem e o país onde se vive exigiria uma escolha. Para Duckson, não.

 

"Para mim é uma coisa tranquila. Se o Brasil ganhar, tudo bem. Se o Haiti ganhar, tudo bem também". A explicação vem carregada de significado. "É como se fossem dois filhos jogando uma competição. Quem ganhar, a gente aceita". 

 

A fala parece simples, mas carrega o peso de uma trajetória inteira.

 

Duckson conta que cresceu sem viver grandes momentos do futebol haitiano em Copas do Mundo. Durante décadas, a seleção do país ficou distante dos holofotes internacionais e, por isso, acompanhar o crescimento recente da equipe desperta orgulho.

 

"Na minha idade, eu nunca tive uma seleção do Haiti em Copa do Mundo. São muitos anos sem viver isso. Hoje a seleção evoluiu muito rápido e chega para enfrentar o Brasil". 

 

Ao mesmo tempo, ele lembra que existe um vínculo histórico entre haitianos e a Seleção Brasileira. Para ele, o Brasil sempre ocupou um espaço especial dentro da cultura esportiva do Haiti.

 

"Se existe um país no mundo em que muita gente torce pelo Brasil, o Haiti está entre eles. Talvez 70%, 80% do povo acompanhe a seleção brasileira".

 

Essa proximidade faz com que o duelo desta sexta tenha um sabor diferente. Não existe rivalidade acirrada, nem clima de revanche. Existe reconhecimento.

 

Enquanto muitos brasileiros enxergam o jogo apenas como mais um compromisso da Copa, para Duckson ele representa um encontro improvável entre passado e presente.

 

Ao olhar para trás, ele lembra do homem de 30 anos que desembarcou no Brasil tentando reorganizar a vida.

 

"Aqui eu construí uma história. Nunca me arrependi de ter vindo para o Brasil e também para Cuiabá. Fui muito bem acolhido". 

 

Ele fala da capital mato-grossense como quem fala de um lugar conquistado aos poucos, entre jornadas de trabalho, estudos, responsabilidades e novos vínculos: uma terra de oportunidades, porém sempre com esforço.

 

"O que a gente tem é correr atrás. Com saúde e boa vontade, você consegue em qualquer lugar. Estudar, fazer uma faculdade, realizar objetivos… Estamos aqui com esperança". 

 

Na sexta-feira, quando os hinos tocarem antes da bola rolar, Duckson provavelmente não vai cantar apenas um.

 

Porque há histórias que não terminam quando alguém muda de país. Algumas apenas aprendem a morar em dois lugares ao mesmo tempo. E por 90 minutos, Brasil e Haiti estarão exatamente onde ele aprendeu a viver: lado a lado.

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