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Cuiabá: 1876 e 2020 05.04.2020 | 09h20

Historiador traça paralelo entre epidemia de varíola e coronavírus

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Eduarda Fernandes

eduarda@gazetadigital.com.br

Em 1876, Cuiabá foi quase devastada por uma epidemia de varíola que matou mais da metade da população. A capital tinha em torno de 13 mil habitantes. Registros históricos estimam que, pelo menos, 6,5 mil pessoas morreram pela doença e outras 2 mil fugiram para o campo, numa tentativa desesperada de escapar da morte.

 

Hoje, o mundo enfrenta a pandemia de coronavírus e já contabiliza mais de 50 mil óbitos. No Brasil, na data em que esta matéria foi escrita (sexta, 3), o número de mortos chegava a 359 e crescia. Em Mato Grosso, 44 pessoas testaram positivo para a Covid-19 e a população foi informada da primeira morte no Estado.

 

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Na capital, assim como em todas as outras cidades onde há casos da doença, governantes anunciam diariamente - às vezes em frequência maior - quais regras de isolamento estão vigentes. A ordem é uníssona: quem puder, fique em casa.

 

Divulgação

Suelme Fernandes

 

Para Suelme Fernandes, Assessor Pedagógico da Secretaria de Estado de Educação (Seduc) e Historiador do Arquivo Público de Mato Grosso, esses dois períodos, o de 1876 e o atual, guardam muitas semelhanças. Suelme possui graduação em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (1999), especialização em Antropologia (2000) e Mestrado em História pela UFMT (2004).

 

Um dos exemplos da dita semelhança é a restrição com relação ao número de pessoas presentes em um velório, proibido na Cuiabá no auge da epidemia de varíola. “Quando vejo os caixões fechados na Itália, e até no próprio Brasil, isso me remete a essa época, às pessoas morrendo aos montes, sem ter nenhum controle absoluto dessas mortes”, compara. Outra analogia feita pelo historiador é acerca da enxurrada de decisões tomadas diariamente pelas autoridades, ora mais rígidas, ora mais flexíveis, transmitindo à população a impressão de que não sabem como agir.

 

“As estruturas de saúde também eram precárias, eram naquela época e são hoje. Só tinha a Santa Casa de Misericórdia praticamente, então a maioria das pessoas morreu por falta de assistência médica, o que acredito que possa não ocorrer e quero que não ocorra no Brasil, mas é um risco e que já está acontecendo nos principais países do mundo”, comenta Suelme. Neste sentido, ele avalia que a falta de infraestrutura hospitalar é o grande gargalo de qualquer epidemia. “Agora, poxa, nós estamos falando de 1876. Estamos em 2020 e continuamos com os mesmos problemas da rede pública hospitalar para atendimento de calamidades”.

 

O isolamento social, uma das medidas mais eficazes para combater o avanço da propagação do vírus vigente na Capital atualmente, também foi adotado em Cuiabá em meio à epidemia de varíola. Naquele tempo, a população cuiabana acreditava que a doença se propagava pelo ar pútrido, chamado de miasma, exalado pelos corpos que se acumulavam na cidade, por isso andar pelas ruas era algo considerado perigoso. “Tinha um fiscal sanitário que cuidava das casas, da higiene, da limpeza, e hoje vemos a prefeitura limpando a rodoviária, pontos de ônibus, bancos de praças. Esse processo aconteceu em Cuiabá também”, conta o historiador.

 

Hoje, mesmo com todo o acesso à informação, ainda há pessoas que não sabem que a contaminação ocorre através do contato com a saliva e secreções nasais de uma pessoa infectada, e não pelo ar.

 

Os teóricos da conspiração, claro, não tardaram a disseminar suas teses para “explicar” o motivo de tal pandemia ter acometido o mundo. Em meio às mensagens que circulam nos aplicativos de celular, nota-se que muitos buscam uma justificativa na religião. “O medo do invisível deixa fértil a imaginação humana e ele perde as respostas racionais e começa a buscar respostas espirituais para o desconhecido”, presume Suelme Fernandes.

 

Na visão de Suelme, o amplo acesso à informação potencializa o pânico entre as pessoas. “Porque o excesso de informação também traz as fakenews. Criam um monte de inverdades que alimenta esse imaginário. E naquela época o que tinha para avisar as pessoas eram os sinos da igreja, que noticiavam as mortes. Tanto que o padre mandou parar de bater o sino. Quem agora pode mandar parar o sino da mídia que está batendo em todos os lugares, nas redes sociais? Ninguém. Esse sino vai continuar badalando o tempo todo. Então essa percepção de pânico é infinitamente maior do que se tinha em 1876”, observa.

 

Suelme cita que o temor do miasma obrigou as autoridades a construir o cemitério do Cai Cai em região mais afastada do centro da cidade, como tentativa de acalmar a população. “Ficou proibido enterrar pessoas com varíola no cemitério da Piedade e criaram um cemitério a quase 3 km da zona urbana, lá no Cai Cai, que era para evitar esse contato”.  

 

O historiador, com base em seus estudos, diz que a epidemia de varíola em Cuiabá matou mais da metade da população da época. “A notificação era impossível de ser feita. Escravos e pobres dificilmente eram contados e foram os que mais morreram. O estrago quase que exterminou uma cidade, essa é a verdade. E as imagens estão aí até hoje. Muito do que pensamos tem a ver com essas imagens antigas. Essa pandemia está nos trazendo uma oportunidade histórica de viver o que foi isso e, infelizmente, chegar à conclusão de que essa tragédia pode ser muito parecida com o que podemos viver nos próximos dias”, lamenta.

 

Renascimento

Apesar da avalanche de mortos causadas pela epidemia de varíola, Cuiabá renasceu. “Depois disso a igreja registrou um número absurdo de casamentos, muito acima da média do que se tinha. E o número de nascimentos absolutamente maior do que se tinha antes. Praticamente renasceu das suas cinzas e se tornou muito maior, muito mais forte depois de tudo isso. E é o que eu sinceramente desejo que ocorra com esse país e com o mundo depois dessa pandemia. Que possamos pensar mais em solidariedade, na saúde do outro, não só no plano o privado. Essa doença é democrática, ela não escolhe a sua vítima”, conclui.

 

Otmar de Oliveira

Alexandre Guedes 354236

 

40 lugares do Brasil com maior risco de disseminação

No dia 26 de março, o Ministério Público Estadual (MPMT), o Ministério Público Federal (MPF) e Ministério Público do Trabalho (MPT) encaminharam um ofício ao governador Mauro Mendes (DEM) pedindo a suspensão dos efeitos do Decreto 426/2020, que relaxou as medidas restritivas de prevenção ao coronavírus, liberando praticamente todo tipo de atividades comerciais e industriais.

 

Neste ofício, os Ministérios citaram um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que diz que a região de Cuiabá está entre os 40 lugares do Brasil com maior risco de disseminação grave do coronavírus.

 

De lá para cá, Estado e Município de Cuiabá travaram uma queda de braço sobre o nível de rigidez das restrições impostas ao comércio e à circulação de pessoas. Na Capital, o prefeito Emanuel Pinheiro conseguiu evitar a reabertura do comércio e manteve em 30% a circulação de transporte coletivo. Mais tarde, Mauro definiu uma série de regras para permitir o funcionamento de comércios como mercados, restaurantes, padarias e farmácias, entre outros.

 

Entre as novas exigências, a higiene frequente dos locais, fornecimento de álcool em gel e pias com água e sabão para clientes e a limitação de entrada de pessoas nos estabelecimentos. Diante deste cenário, o promotor de Justiça Alexandre Guedes, que também assinou o ofício, avalia que se forem mantidas essas medidas, e cumpridas pela sociedade, bem como o isolamento social, a perspectiva para Cuiabá tende a ser mais positiva.

 

“Nós estamos acompanhando pari passu. A cada medida governamental estamos atuando, estamos tendo reuniões, estamos conversando o tempo todo com o governo municipal e estadual. E em todos os municípios do Estado, os promotores estão conversando com os prefeitos para verificar, implementar as medidas de fiscalização. Então assim, estamos acompanhando de todas as formas possíveis”, comenta.

 

Ele analisa também que, à medida que o número de casos crescer, medidas mais rígidas devem ser impostas pelos governos municipal e estadual.

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Comentários

Arno lopes Moreira - 05/04/2020

Parabens Artigo importantíssimo é a história.

1 comentários

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