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voto questionado 24.10.2026 | 07h30

Mulheres são 52,8% do eleitorado, mas ocupam fatia mínima da política em MT e no Brasil

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Helena Werneck - Especial para o GD

redacao@gazetadigital

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As mulheres são maioria do eleitorado brasileiro, mas continuam ocupando uma parcela reduzida dos cargos políticos. Em 2026, elas representam 52,84% das pessoas aptas a votar no país, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apesar da força feminina nas urnas, a presença nos espaços de decisão ainda está distante da igualdade. A contradição revela que, 94 anos após a conquista do voto feminino no Brasil, o direito de escolher representantes avançou mais rapidamente do que as oportunidades de exercer o poder.

 

A história dessa conquista começou muito antes de 1932. Durante séculos, mulheres foram excluídas das decisões políticas. Em 1893, a Nova Zelândia tornou-se o primeiro país autônomo a garantir o voto feminino nas eleições parlamentares nacionais. Na Finlândia, em 1906, as mulheres conquistaram o direito de votar e disputar eleições. Já nos Estados Unidos, a 19ª Emenda à Constituição, ratificada em 1920, proibiu restrições eleitorais baseadas no sexo, embora barreiras discriminatórias continuassem impedindo muitas mulheres de votar.

 

No Brasil, a luta ganhou força nas primeiras décadas do século XX, impulsionada por movimentos sufragistas, com destaque para Bertha Lutz. Em 1927, Celina Guimarães Vianna, de Mossoró (RN), tornou-se a primeira mulher a obter registro eleitoral no país. No ano seguinte, foi uma nordestina, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes (RN), tornando-se a primeira mulher eleita para administrar um município brasileiro.

 

O reconhecimento nacional veio em 24 de fevereiro de 1932, com o Código Eleitoral instituído durante o governo de Getúlio Vargas. A legislação garantiu às mulheres o direito de votar e de serem votadas, embora ainda existissem restrições. A Constituição de 1934 consolidou a conquista, enquanto a equiparação dos deveres eleitorais avançou nas décadas seguintes. Mas apenas em 1946, todas as mulheres acima de 16 anos tiveram o direito ao voto assegurado.

 

Para a socióloga e professora do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), Christiany Fonseca, a conquista representou uma transformação que ultrapassou o universo eleitoral.

 

 “A conquista do voto feminino representou muito mais do que a ampliação do eleitorado brasileiro. Significou uma ruptura histórica com uma estrutura de poder que, durante séculos, reconheceu os homens como sujeitos políticos e relegou as mulheres à condição de espectadoras das decisões que determinavam suas próprias vidas.”

 

Segundo a professora, o direito não foi uma concessão espontânea do Estado, mas resultado de mobilização e resistência. “O voto feminino não concluiu a democratização brasileira. Ele expôs o quanto ainda faltava democratizar”, afirma.

 

Pioneirismo feminino em Mato Grosso

Em Mato Grosso, a participação feminina também foi construída por mulheres que romperam barreiras históricas. Em 1947, Lígia Borges Muller Figueiredo foi eleita prefeita de Rosário Oeste, tornando-se, conforme registros do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), a primeira prefeita brasileira a cumprir integralmente seu mandato.

 

Na Assembleia Legislativa, a primeira mulher eleita foi a professora Oliva Enciso, em 1958, quando Mato Grosso ainda abrangia o território que posteriormente formaria Mato Grosso do Sul. Ela exerceu o mandato de 1959 a 1963.

 

Décadas depois, a desigualdade permanece. Nas eleições de 2026, Samantha do Abilio (PL) e Alessandra Ferreira (Podemos) foram eleitas deputadas estaduais. A partir de 2027, representarão apenas 8,3% das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, o que ainda está longe de ser uma porcentagem que se equipara à de homens.

 

Além disso, muitas das mulheres que ocupam espaço político não reconhecem a importância dos direitos conquistados. Uma onda conservadora que atravessa o mundo trouxe à tona a discussão "mulheres devem votar?". Esse questionamento é o retrato de uma sociedade que não enxerga a luta de direitos como responsável por essa conquista e não entende que a cadeira que ocupa faz parte de uma série de vitórias femininas: cargos, voz, aumento de salário e até mesmo o direito de se divorciar, ou de denunciar uma violência, o que não era possível antigamente.

 

Esse discurso, que antes circulava principalmente em grupos restritos da internet, começou a ganhar espaço no debate político brasileiro e entre setores conservadores dos Estados Unidos. O movimento chama atenção por reunir também mulheres que defendem o fim do sufrágio feminino e afirmam estar dispostas a abrir mão desse direito. Entre elas está Fernanda Guardian, sócia de uma consultoria de investimentos, residente em Miami e com cerca de 300 mil seguidores no Instagram. Em uma publicação, declarou que “o voto feminino foi um erro” e que “abriria mão facilmente do meu voto”.

 

Outra influenciadora que manifestou posicionamento semelhante é Pietra Bertolazzi, que reúne 1,3 milhão de seguidores e defende a submissão feminina ao homem. Em entrevista ao jornalista Shin Suzuki, ela afirmou: “Se a pessoa me perguntar 'ah, você é contra o voto feminino?'. Bom, o que eu defendo é uma monarquia, termo muito distante. Sou contra o Estado moderno. Eu acho a democracia zoada”

 

Maioria do eleitorado, mas longe da igualdade

De acordo com o TSE, o Brasil contabiliza 83.877.126 eleitoras em 2026, o equivalente a 52,84% do eleitorado nacional. Entretanto, essa maioria não se reflete proporcionalmente no Congresso Nacional.


Nas eleições deste ano, foram eleitas 109 deputadas federais, que ocuparão aproximadamente 21,2% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados a partir de 2027. No Senado, 12 mulheres conquistaram mandatos, enquanto as assembleias legislativas estaduais contarão com 213 deputadas eleitas no pleito.

 

Para Christiany, os números revelam uma das contradições mais persistentes da democracia brasileira.

 

 “A sub-representação feminina revela uma das contradições mais persistentes da democracia brasileira: as mulheres constituem a maioria do eleitorado, mas permanecem minoritárias nos espaços institucionais de poder.”

 

A socióloga explica que votar permite escolher representantes, mas ocupar cargos políticos possibilita participar diretamente da elaboração de leis, da distribuição de recursos e da definição de prioridades.

 

“Uma democracia na qual as mulheres podem escolher seus representantes, mas encontram obstáculos estruturais para se tornar representantes, ainda distribui o poder de maneira profundamente desigual”, destaca.

 

Leis buscam ampliar a participação feminina

A legislação brasileira passou a estabelecer mecanismos para ampliar a presença feminina nas eleições. Entre eles está a cota de gênero, prevista na Lei nº 9.504, de 1997, e fortalecida posteriormente.

 

Atualmente, partidos e federações devem respeitar o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais, como as disputas para deputado federal, estadual e vereador. Também existem regras para destinação de recursos públicos às campanhas femininas.

 

Apesar dos avanços, Christiany considera que os obstáculos continuam relacionados à estrutura dos partidos, à concentração de recursos em lideranças masculinas, à sobrecarga das responsabilidades domésticas e à violência política de gênero.

 

 “O problema não é a falta de capacidade política das mulheres. É a persistência de uma estrutura que ainda transforma o exercício do poder em privilégio, predominantemente masculino.”

 

Representatividade e consciência política

A participação feminina nas instituições também está relacionada à conquista e à proteção de direitos. Questões como violência doméstica, desigualdade salarial, maternidade e discriminação profissional ganharam espaço no debate público por meio de mobilizações sociais e disputas políticas.

 

“Os direitos das mulheres não avançaram por uma evolução espontânea da sociedade. Foram conquistados mediante disputas políticas, mobilizações coletivas e enfrentamentos institucionais”, explica Christiany.

 

A professora ressalta, entretanto, que a presença de mulheres nos cargos políticos não garante automaticamente a defesa dos direitos femininos, já que existem diferentes orientações ideológicas e projetos de sociedade.

 

Para ela, o conhecimento sobre o funcionamento das instituições e a consciência eleitoral são fundamentais para compreender como as decisões políticas interferem na vida da população.

 

 “O voto consciente é fundamental porque as eleições não representam apenas uma disputa entre candidatos, partidos ou orientações ideológicas. Elas definem quais projetos de sociedade terão condições de se transformar em políticas públicas, legislação e decisões institucionais”, afirma.

 

Christiany também destaca que não existe um voto feminino homogêneo. As eleitoras possuem diferentes realidades sociais, econômicas e convicções políticas, e a autonomia eleitoral está justamente na liberdade de decidir sem coerção.

 

Da conquista do sufrágio na Nova Zelândia, em 1893, ao reconhecimento do voto feminino no Brasil, em 1932, até a regularização em 1946, a participação das mulheres transformou a história democrática. Hoje, com mais de 83 milhões de eleitoras brasileiras, o desafio vai além das urnas: envolve ampliar as condições para que essa maioria também esteja presente nos espaços onde as decisões são tomadas. 

 

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