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25.04.2010 | 03h00

Rio Cuiabá perdeu relevância quando estradas chegaram

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Há 50 anos, o Rio Cuiabá perdeu a sua relevância como principal via de importação e escoamento de mercadorias. Mato Grosso começou a ser cortado por estradas, o Brasil desenvolvia a produção em escala e, de certa forma, ficou menos dependente da importação de bens básicos.

O rio seria a "salvação" do Estado, um meio competitivo de transporte, se tivesse uma estrutura compatível com a demanda. Para essa liberdade, o cais flutuante construído na região do Porto na década de 1960 deveria ter funcionado.

Hoje assoreado, o Rio Cuiabá nasce em Rosário Oeste (128 km ao norte da Capital) e desemboca no rio São Lourenço, no Pantanal.

Até a década de 1960, a comunicação era por portos, seja o de Corumbá (MS), Porto Murtinho (MS), Cáceres e Cuiabá. "As embarcações que faziam a linha Corumbá-Cuiabá e vice-versa eram da Companhia Lloyde Brasileiro. Eles faziam a navegação do baixo (rio) Paraguai que era mantida pelos navios "Uruguai", "Paraguai" e "Argentina"", contou Hid Alfredo Scaff, em uma longa conversa com a neta Cláudia Scaff. Ela transcreveu em texto a história que a reportagem teve acesso.

O filho de Hid, Ivo Cuiabano Scaff, 72, que atualmente é coordenador administrativo e financeiro da Central Analítica de Combustível (Ceanc), conviveu com esse período forte da navegação pelo Cuiabá. Ele lembra que a produção era feita à margem do rio, onde se tinha açúcar, álcool, aguardente, rapadura e charque (carne salgada).

Para o transporte da produção e também na encomenda de produtos manufaturados, existiam empresas que faziam os fretes. Uma delas era a de Hid Scaff, a "Scaff e Gatass", assim como a "Migueis e Cia." e a "Kassar e Cia".

Como o leito do rio Cuiabá é raso, o navio saia do litoral até Porto Esperança (em Corumbá) e, para chegar em Cuiabá, os produtos trafegavam por pequenas embarcações, as lanchas. Foram essas embarcações que substituíram a Lloyde Brasileiro, segundo Hid.

Na período de baixa no nível do rio, a produção era transportada com a contratação dos serviços de Auriste Salie"s, proprietário da embarcação "Independência". Com uma técnica chamada de "estaqueada", funcionários da Independência colocavam madeiras (estacas) no rio e afunilavam a água. As embarcações passavam entre as madeiras, onde o fluxo d"água aumentava.

"Os nossos rios Cuiabá e Paraguai tinham grande quantidade de embarcações particulares. Uns faziam o transporte de mercadorias de firmas individuais, outros faziam serviço de mascate, outros faziam o serviço de exclusividade em passageiros", lembra Hid.

A viagem Cuiabá-Corumbá-Cuiabá durava, em média, 14 dias.

A bordo das lanchas havia uma espécie de salão comercial onde eram vendidos desde alfinetes, agulhas e lençóis de seda até medicamentos e outros bens manufaturados. Os moradores ribeirinhos e da cidade faziam encomendas, que os proprietários das lanchas traziam. Até o querosene adquirido pela prefeitura para iluminar Cuiabá vinha pelas águas.

Mas esse período teve fim. "Uma empresa estatal adquiriu as embarcações e deixou de pagar o proprietário da Independência, que não fez mais o serviço. Isso acabou com essa forma de transporte", conta Ivo Cuiabano.

Independência - Folheando o Álbum Gráfico de "Cuyabá", o historiador e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, Aníbal Alencastro, conta que a importância do rio foi comprovada no século 19, no período da Guerra do Paraguai (1865-1970), quando as tropas paraguaias impediram a navegação e deixou Cuiabá isolada do restante do país.

"O primeiro automóvel que chegou em Cuiabá, em 1919, foi trazido pelo rio. Ele foi encomendado por Dom Aquino (Dom Francisco de Aquino Corrêa, arcebispo de Cuiabá). Ele chegou com as peças separadas e foi montado na margem do rio", explica o historiador.

Alencastro disse que tanto as hidrovias quanto a ferrovia seriam "as nossas independências". Mas afirma que não era do interesse dos governos internacionais financiar a infraestrutura nos rios (principalmente na época da ditadura militar, erguida com o financiamento dos Estados Unidos).

O investimento sempre aconteceu nas estradas. "Investem nas rodovias porque (a população) paga a vida toda por elas. O que inclui consumo de combustível, comercialização de automóveis, etc".

Cais flutuante - O historiador Aníbal Alencastro conta que o primeiro cais em Cuiabá foi construído no século 19, por ordem do almirante Augusto João Manoel Leverger (o "Barão de Melgaço"). A estrutura ficava no fim da avenida 15 de novembro, próximo a uma instalação da Marinha, onde atualmente é a Praça Luis de Albuquerque.

Um segundo cais foi construído no século seguinte, no governo de Pedro Pedrossian, em 1965. O cais flutuante (com um sistema em que a plataforma sobe ou desce de acordo com o nível d"água) surgiu de um acordo entre o governador e o ministro dos Transportes, Mário Andreazza.

A proposta era que, se o governo federal fizesse a dragagem do Rio Cuiabá, o cais seria construído. Alencastro afirma que Pedrossian iniciou o projeto já que tinha o recurso para a construção, no entanto, Andreazza não cumpriu com a parte dele. O cais nunca chegou a ser usado.

Em abril de 2008, a Prefeitura de Cuiabá anunciou a verba de R$ 1,1 milhão para iniciar a primeira parte da construção do Complexo Turístico do Cais do Porto. Nessa etapa, seria criado o Teatro do Rio, uma estrutura com 100 lugares climatizados, em vidro, com visão em 360 graus, passarela com cobertura, deque para contemplação, lanchonete e restaurante. O projeto total está estimado em R$ 2,7 milhões e também serviria para revitalizar a orla do rio.

Exatos 2 anos após o anúncio, o cais está totalmente abandonado e a estrutura sucateada. De lá, a visão panorâmica anunciada no projeto da prefeitura atualmente engloba pescadores (alguns com artigos ilegais, como tarrafa) e muita cinza perto da mureta, mostrando que frequentemente fogueiras são acesas. No lado direito do cais, dezenas de pessoas ficam sentadas, próximos à outras fogueiras, alguns usando drogas. As embalagens de cachaça e o cheiro de urina completam a cena.

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