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número do 'veado' 30.01.2020 | 15h14

Menina que joga entre meninos teve de usar camisa 24, a mesma de Kobe

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Divulgação

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Dias atrás, Juju e eu passamos horas relembrando momentos dessa precoce trajetória dela no futebol. Sempre fazemos isso.

 

Entre as lembranças, apareceram as fotos de um torneio de futebol de campo em 2017, quando ela jogava pelo Grau 10, um tradicional clube formador de atletas do Rio de Janeiro.

 

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De cara, algo chamou a minha atenção. Juju usava um uniforme que tinha o número 24.

 

— Por que o 24, Juju? — perguntei.

 

— Porque foi o que restou pra mim, tio.

 

Lembrei na hora da minha adolescência, quando sonhava me tornar jogador profissional, assim como a Juju.

 

O 24, pro homem brasileiro, é sinônimo de rejeição, chacota, gozação... É quase uma aberração.

 

Eu já joguei num time de várzea que não confeccionava a camisa com o número 24. E somente o 24!

 

Na escola, coitado do menino contemplado com a vigésima quarta posição da lista de chamada!

 

Pra quem não sabe, esta onda existe no nosso país há, mais ou menos, um século. Ela se proliferou após o nascimento do ilegal ''jogo do bicho" no Rio de Janeiro, tradicional banco de apostas associado aos animais.

 

A jogatina envolve 25 grupos representados pela imagem de um animal. Dentro do 24, há um mamífero, o veado. Entendeu, né? Homem, veado... Veado, homem... É a munição do preconceituoso que pratica a homofobia, atitude criminosa segundo a Lei de Racismo (7716/89).

 

Esta semana, o esporte mundial ficou sem um gigante que usava a 24. Casado, pai de família, ídolo, Kobe Bryant fez história no Los Angeles Lakers. Cinco vezes campeão da NBA, em duas destas conquistas, ele estava com a camisa 24. Aliás, de 2006 a 2016, metade da carreira, Kobe vestiu a 24.

 

Para os fãs do Lakers, o 24 se tornou simbólico. Mereceu a aposentadoria no ''hall da fama'' do clube.

 

Juju usou a camisa 24 somente uma vez. Foi o suficiente para marcar a vida da jovem atleta.

 

Assim que ela se tornou a primeira menina federada com autorização para disputar competições de futsal no Rio de Janeiro, entre os meninos, conquista obtida pela Federação de Futsal do Rio, com aval da Fifa, pintou a chance de ela também jogar campeonatos no campo.

 

O professor Carlinhos, responsável pela base do Grau 10, conseguiu inscrevê-la como a única menina neste torneio masculino. Então, aos 7 anos de idade, lá foi ela jogar contra garotos da base de Vasco, Flamengo, Fluminense, Botafogo, entre outros.

 

Momentos antes de entrar em campo, rolou a distribuição dos uniformes. Como os meninos podiam escolher o número que queriam usar na camisa, os pais se meteram no assunto.

 

— Meu filho não vai usar a 24, não! — muitos falaram.

 

E, aí, a 24 foi pra quem? Pra Juju. Afinal, ela era a única menina do time.

 

— Tio Mauro, pra mim, era um número como tantos outros. Não tinha noção ainda do preconceito que existia. Só fui entender depois que o meu pai explicou.

 

Juju jogou. Mas o desempenho dela em campo é o que menos importa nesta lembrança.

 

— Tio Mauro, o número 24 passou a ter um grande significado pra mim, porque eu sei o quanto é importante e maravilhoso ter o meu pai me motivando e incentivando no futebol, assim como fazia o Kobe Bryant com a filha Gianna no basquete, que morreu com ele no acidente de helicóptero.

 

Kobe Bryant disse uma vez que sonhava ter um filho para seguir os passos dele no basquete. Mas nunca se sentiu obrigado a ter um menino. Se tivesse, com certeza, daria a 24 pra ele. Gianna era a menina que poderia ter se tornado ídolo como o pai.

 

Wellington, pai da Juju, se emociona ao relembrar desta história:

 

— Eu sempre desejei ter uma filha. É a minha maior alegria. Kobe Bryant tinha quatro meninas! Imagina a felicidade dele quando via a Gianna em quadra jogando basquete. É a mesma felicidade que sinto ao ver a Juju com uma bola nos pés.

Aqui no Brasil, se precisar, Juju também joga com a 24.

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