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1000 gols 14.11.2019 | 15h35

Pelé surpreende e revela: "Nunca me senti o Rei do Futebol"

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A antiga sensação de chegar a Santos se mantinha viva. Parece haver uma fronteira invisível, logo na entrada da cidade, na avenida Martins Fontes. É uma transição natural. A neblina da serra se transforma em um ar mais quente, em cheiro de mar. As montanhas vão se distanciando até surgir um horizonte de casas antigas e de guindastes atracados no porto.

 

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Estou indo ao encontro de Pelé, para uma entrevista que ele irá conceder a alguns jornalistas. Estou sem saber qual será o formato, mas, assim que chego, percebo que a descontração inspirada pela brisa marítima também irradia no Rei do Futebol. Neste dia 12 de novembro, falta uma semana para se completarem 50 anos que ele fez o milésimo gol.

 

Aos 79 anos, Pelé fala de sua trajetória dentro e fora de campo. De quanto foi difícil sair de Três Corações com apenas 8 anos. De como não sabia ainda que iria encantar o mundo. E lembra de sua formação familiar, falando muito de seu pai, Dondinho, que o ensinou muitas coisas do futebol e da vida.

 

"Me sentir o Rei do Futebol eu nunca me senti, porque achava que era um apelido e pegou. Uma coisa que meu pai sempre dizia, e até hoje brinco com meus amigos, com o pessoal do Santos sobre isso, era o seguinte: 'sabe quando você vai ser um grande jogador? Quando você não se achar o melhor. Quando você não se achar, vai ser um grande jogador. Não pensa que você é o bom, porque quando alguém pensa isso daqui a pouco complica'. Isso ele me dizia", revela.

 

 

Em uma época em que a fama vem rápido e alça a patamares estratosféricos craques milionários como Messi e Cristiano Ronaldo, Pelé diz que aprendeu a não se empolgar com a fama.

 

"Eu sempre procurei estar bem fisicamente, quando voltei da Copa (1958), falei pô e tal, e aí me lembrei que meu pai falava: '58, 59, fui campeão mas foi a equipe, você foi um jogador a mais'. Meu pai nunca me deixou levantar a cabeça neste sentido, acho que esse exemplo do meu pai é que permaneceu na minha mente", completa.

 

O apito do navio

E uma onda de descontração, mesclada à melancolia da condição humana, se apresenta, talvez levada pelo forte apito de um navio, que tanto incomoda o jovem e prestativo Joe Fraga, assessor americano de Pelé. Zeloso, ele teme que o ruído seja desgastante para o ex-craque.

 

O clima da cidade e da sala se misturam aos espelhos do Monte Serrat, trazem para mim em vários formatos as memórias da infância, a marca da praia, a imagem de favelas, o gosto de sal, os portões de alumínio, as sorveterias à noite, um toque carioca, o sotaque santista, a história do país, os barcos, a vida, a Vila, o Santos e Pelé.

 

O caráter provinciano de Santos ainda está presente, mas de forma saudável, inabalável pelo passar dos anos, nesta rotina frenética que nos impede de andar sempre de bermunda ou, no fim da tarde, ir bater um papinho no bar da esquina ao som de um sambinha.

 

Toda essa atmosfera dialoga entre si desde o bairro do Valongo, ao lado do centro. Formado por casarões centenários e estreitas ruas de paralelepípedo, era importante entreposto comercial da época do café.

 

Instantes atrás, antes da entrevista, eu observava da janela de um deles, onde hoje é o Museu Pelé, a baía repleta de navios que flutuam em brechas de mar, observados por ilhas e penínsulas que ainda representam a paisagem do século 16.

 

Seis da tarde. Em São Paulo, o congestionamento da Paulista é o de sempre. Em Santos, Joe Fraga se rende ao forte apito de uma das embarcações e sorri, por não poder, desta vez, pedir silêncio a ninguém. Como todos nós, ele está impotente diante de algo maior, secular, vinculado ao destino de um país.

 

Esperança no futebol brasileiro

Andando apressadamente pelos pisos de mármore da sala, ele vem para dizer que o tempo da entrevista está se esgotando.

Pelé, no entanto, não está com pressa. Sua fala discorre tranquila. Ele sente saudade de sua época, como representante máximo dela. Mas não perdeu a esperança no futebol brasileiro, que vive um momento difícil.

 

"Não falta muito para voltarmos a ser os melhores, não é isso. Temos bons jogadores, mas nossos melhores, infelizmente pela situação financeira do país e dos clubes, estão indo muito para a Europa. Garotos no começo da carreira são transferidos, temos esse problema da manutenção dos grandes jogadores aqui, mas vamos ter que pedir a Deus para passarmos por isso e ver se tocamos o barco", afirma.

 

Ao lado da sala, mantida a portas fechadas, grandes ídolos do Santos estão sentados à beira de uma mesa redonda, em uma outra sala, envidraçada, parecida com um aquário. Cumprimento a todos na saída, como se fossem uma corte de ministros.

O sol já se encostou por trás dos morros quando entrei no carro, evitando torcer o pé nos paralelepípedos. No fim da rua, um morro, uma favela e a noite contracenam. E durante todo o trajeto entre a mata escura, fui pensando em como viver é algo fugaz e surpreendente.

 

Como é bela a transição entre Santos e São Paulo, quando a neblina parece uma cortina ao abrir para as nossas vistas o emaranhado de prédios iluminados. E entrei nesse novo cenário de tapete vermelho. Acabara de encontrar o Rei do Futebol e com ele ter uma boa conversa de bar. A vida é mesmo simples assim.

 

Veja a entrevista 

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