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CASO SCHEIFER 17.06.2019 | 18h58

'A conduta deles foi absurda e não condiz com treinamento', diz comandante do Bope

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João Vieira

João Vieira

“A conduta deles foi absurda e não condiz com o que se vê em treinamento. Ter apenas um único tiro e não responder não está de acordo com o que é treinado”, afirma o comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Ronaldo Roque. O policial foi uma das testemunhas ouvidas nesta segunda-feira (17), na ação que apura a morte do tenente do Bope, Carlos Henrique Scheifer, em 2017.

Leia também - 16 militares são interrogados sobre more de policial do Bope

 

O oficial realizava operação em área de mata, contra uma quadrilha de assaltantes a banco que agiam na modalidade conhecida como “Novo Cangaço”. Ele era líder da equipe de 4 policiais que realizam buscas na mata e foi atingido por um tiro de fuzil, que, a principio, teria partido de um criminoso, mas depois se descobriu que saiu da arma do colega de farda Lucélio Gomes Jacinto. Os policiais Joailton Lopes de Amorim e Werney Cavalcante Jovino participavam da operação e sustentaram a versão de ataque apresentada por Jacinto.

 

Durante o depoimento, o comandante teceu duras críticas ao grupo, pela mentira contata para justificar a morte do companheiro. “Eles terem inventado tudo é muito grave. A mentira vai contra tudo o que o Bope prega”, declarou no interrogatório na 11° Vara Criminal e Justiça Militar de Cuiabá. “Naquele momento todos sabiam que o tiro tinha saído da arma do Jacinto”.

 

Conforme o comandante esclareceu ao juiz Marcos Faleiros e ao Conselho de Justiça, a versão apresentada pelo trio era de que eles estavam caminhando às margens da estrada, em área de mata fechada e a noite, quando Scheifer foi atingido na barriga, por um tiro de fuzil.

 

O tenente caiu próximo a Jovino, que seguia logo a sua frente, e o grupo o colocou na viatura para encaminhar até a cidade de Matupá para atendimento médico.

 

No depoimento, Roque pontuou que a conduta da equipe foi inadequada. Mesmo que o disparo tivesse partido do inimigo, eles deveriam ter atirado de volta, mesmo sem identificar o alvo, a fim de proteger o colega que iria resgatar a vítima até um lugar seguro. O que não foi feito. Pois houve apenas um disparo no local, que partiu da arma do policial do Bope.

 

Roque pontua que não acredita que, apesar na conduta inadequada, o trio tenha se articulado para matar o tenente. “Se me perguntarem se o Jacinto quis matar, eu não consigo dizer nem que sim, nem que não. Mas não consigo imaginar que eles mancomunaram para o homicídio. Agora mentira que inventaram depois é algo grave e eu não posso deixar de falar”, frisa.

 

Scheifer havia assumido o cargo no Bope poucos dias antes do crime e tinha recebido a denúncia de abuso de poder que Jacinto teria cometido contra uma advogada. A vítima repassou a queixa ao superior e logo o procedimento contra o réu foi arquivada. O fato é levantando como um possível motivo para que Jacinto atirasse contra a vítima.

 

Questionado, o comandante afirma que não acredita que esse seja o motivo e que queixas contra policiais são comuns, assim como repassar o termo ao superior é obrigação do oficial que a recebeu. “O militar deve saber que isso acontece e não levar para o campo. Pois é obrigação do oficial repassar a queixa”, descarta.

 

Indagado sobre a personalidade de Jacinto, se havia reclamação contra ele ou casos de outros militares que não queriam compor a mesma equipe que o réu, o comandante disse que isso nunca chegou ao seu conhecimento. “Já ouvi dizer que ele é impulsivo, acelerado, mas nunca que alguém não quisesse trabalhar com ele”.

 

Antes do comandante, o soldado Daniel Ortega Zanatta e sargento Maciel Alves da Conceição foram ouvidos e narraram operação realizada horas antes da morte de Scheifer. Policiais do Bope tinham auxiliado na prisão de dois acusados de integrar a quadrilha do novo cangaço na cidade de União do Norte e um terceiro suspeito foi morto no local, por um tiro do policial Jacinto.

 

O caso

A motivação do crime, segundo o Ministério Público do Estado (MPE), foi evitar que o tenente Scheifer adotasse medidas contra os denunciados que pudessem resultar em responsabilização e, até mesmo eventual perda da farda, por desvio de conduta em uma operação que culminou na morte de um dos suspeitos de roubo na modalidade “novo cangaço”.

 

Conforme os autos do MPE houve divergências no registro de uma ocorrência sobre a morte de um suspeito, em que a vítima e o cabo Jacinto se desintenderam por conta de declarações falsas inseridas no boletim.

 

No mesmo dia Sheiffer foi morto por tiro na região do abdomên, durante diligência realizada no local de um confronto ocorrido no dia anterior.

 

Os colegas de farda relataram que o tenente foi atingido por um suspeito que estava em meio à mata. Porém ficou comprovado que o projétil alojado no corpo do tenente partiu de um fuzil portado pelo Cabo PM Lucélio Gomes Jacinto.

Desde então os militares têm mudado as versões sobre o fato ocorrido no dia da morte de Carlos Henrique Paschiotto Scheifer.

 

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