EFEITO VIRAL 06.10.2026 | 08h52
Lara Abreu/Arte Metrópoles
As eleições de 2026 para deputados federais mostraram a força da internet e das redes sociais no pleito democrático.
Candidatos que se destacam nas plataformas digitais conseguiram transformar o número de seguidores em votações expressivas em diferentes campos políticos.
Minas Gerais
Um dos maiores exemplos da projeção que a internet pode gerar é o estado de Minas Gerais. O candidato Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos políticos bolsonaristas com maior alcance nas redes, recebeu mais de 3,1 milhões de votos em Minas, se tornando o deputado mais votado da história do Brasil. Ele mais que dobrou os 1,49 milhões de votos que recebeu nas eleições de 2022.
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Com mais de 22 milhões de seguidores no Instagram, o alcance de Nikolas não ficou restrito a sua própria candidatura — outros 21 candidatos apoiados publicamente pelo mineiro foram eleitos nesse domingo (4/10) para a Câmara dos Deputados.
A segunda deputada federal mais votada em Minas Gerais foi Ana Elisa (PT), de 21 anos. A jovem mineira obteve mais de 500 mil votos em sua primeira candidatura e destacou a importância da internet no debate contemporâneo.
“Olha, se a esquerda não dominar as redes sociais, nós vamos perder. Eu tenho dito isso desde o início”, disse a deputada eleita ao Metrópoles nesse domingo (4/10).
“Então este é o momento de vir, de trazer o povo para a rede. O PT, o Lula, o Partido dos Trabalhadores, o lado da esquerda já levou o povo para a rua. Agora é fazer a nossa mobilização nas redes sociais”, complementou Ana Elisa.
São Paulo
O candidato Lucas Pavanato (PL) passou de vereador por São Paulo para ser o deputado federal mais votado no maior colégio eleitoral do Brasil. Ele recebeu mais de 3 milhões de votos. Em 2022, Pavanato concorreu a deputado estadual e obteve pouco mais de 30 mil votos.
Pavanato é um dos políticos com maior engajamento nas redes sociais, entre posts no Instagram e debates contra figuras de esquerda em podcasts no YouTube. No Instagram, ele conta com mais de 5,5 milhões de seguidores.
Outras deputada eleitas com forte presença nas redes foram Erika Hilton (PSol) e Eduarda Campopiano (PL).
Erika, com mais de 6,2 milhões de seguidores entre Instagram e X, obteve 1,4 milhão de votos e se tornou a mulher mais votada na história do Brasil para a Câmara dos Deputados.
Já Campopiano, de 23 anos, teve 1,8 milhão de votos e foi a deputada estadual mais votada da história da capital paulista.
Em 2024, ela teve 3.583 votos para vereadora de Praia Grande (SP). Eduarda tem mais de 2 milhões de seguidores no Instagram e aposta no embate como estratégia de engajamento, se autodeclarando como “a maior inimiga das feministas de São Paulo”.
Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, o candidato Rick Azevedo, do PSol, foi outro que se destacou através das redes. Criador do projeto de lei pelo fim da escala 6×1, Rick foi o segundo deputado federal mais votado do Rio de Janeiro.
Em 2024, Rick Azevedo foi eleito vereador do Rio com 29.364 votos. Dois anos depois, venceu o pleito para deputado federal com 191.371 votos. Ele só ficou atrás de Dr. Luizinho (PP), que teve 213 mil votos.
Outro candidato fluminense que impulsionou a votação através da internet foi Elias Jabbour (PCdoB). Na sua primeira eleição, Elias obteve 103 mil votos e elegeu-se deputado federal. Ex-cônsultor sênior do banco dos BRICS, o candidato do PCdoB ganhou projeção através de debates contra figuras contrárias politicamente na internet, com vídeos passando de milhões de visualizações.
Ao Metrópoles, Elias comentou a importância da campanha na internet atualmente. “A diferença entre rede social e rua é cada vez menor, cada vez mais uma fusão entre rede e rua. A nossa campanha se beneficiou disso com uma pauta altamente politizada, propostas estratégicas, com uma visão de totalidade do país”, disse.
O candidato eleito avalia que as redes “se consolidam, principalmente na esquerda, pois na direita já é consolidado, como a principal arma eleitoral do processo político”.
Pernambuco
Em Pernambuco, Jones Manoel (PSol) se destacou pela presença na online. Com campanha marcada por forte atuação nas redes sociais e debates na internet, foi o segundo deputado federal mais votado no estado. No primeiro pleito a um cargo federal que concorreu, Jones obteve 249.077 votos, e só ficou atrás de Pedro Campos (PSB), irmão do candidato a governador derrotado João Campos (PSB).
Jones Manoel se destacou com uma candidatura abertamente comunista, publicando vídeos diariamente no seu canal de YouTube, e pela participação em diversos podcasts e debates na internet, além de presença em redes como Instagram e X.
Jones também se destacou no desempenho do financiamento coletivo para a campanha. O pernambucano foi o quarto candidato com o maior valor de doações individuais. O deputado eleito mobilizou mais de 12 mil doadores, que arrecadaram um total de R$ 639 mil à campanha.
Audiência convertida em votos
Para o especialista em relações governamentais e professor da Ibmec, Eduardo Galvão, o uso das redes sociais já está entre os meios mais importantes da campanha política, principalmente para candidaturas proporcionais, como as de deputado federal.
“A rede deixou de funcionar apenas como espaço de divulgação. Ela passou a ajudar na formação de identidade política, mobilização, arrecadação e organização de comunidades em torno de um candidato”, afirmou o professor em resposta ao Metrópoles.
O professor analisa que as redes mudam a lógica geográfica da eleição, permitindo aos candidatos que alcancem uma área maior de base de eleitorado.
Galvão avalia que a importância do alcance online fortaleceu os candidatos individuais, mas o sistema de votação continua dependendo de partidos para transformar votos em vagas efetivas.
“As redes fortaleceram muito o candidato individual. O sistema eleitoral, porém, continua dependendo dos partidos para transformar votos em cadeiras. É dessa tensão que pode surgir uma parte importante da política partidária dos próximos anos”.
Eduardo Galvão avalia que o caso de Nikolas e Pavinato “mostram a capacidade das redes de ampliar enormemente a escala de uma candidatura”.
Para o professor, Nikolas já tinha uma audiência nacional consolidada antes da campanha, e a votação recorde do mineiro mostrou que “a audiência consegue ser convertida em voto num volume muito alto”, inclusive ajudando a eleger nomes apoiados por ele.
No caso de Pavanato, o Galvão analisa que a combinação entre “presença digital forte e investimento elevado em comunicação online” alavancou a candidatura do deputado.
O professor ainda afirmou que os casos de Jones Manoel e Elias Jabbour mostram que “o instrumento não pertence a um campo ideológico específico”.
“Jones Manoel construiu durante anos uma comunidade em torno de conteúdo político, histórico e econômico. Quando chegou à eleição, essa comunidade já existia e conseguiu produzir atenção, financiamento e voto”, disse o professor.
Ele avalia que Elias Jabbour também chegou ao período de campanha com um reconhecimento construído, principalmente em debates econômicos e geopolíticos na internet, o que o ajudou a ter uma competitivade forte na primeira disputa eleitoral.
“Isso ajuda a explicar como alguém numa primeira disputa pode alcançar competitividade rapidamente”, disse o professor.
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