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Ossada não é de Jane Vanini

A retomada da procura por Jane Vanini foi revelada ontem com exclusividade pelo sobrinho dela Ricardo Vanini, de 45 anos, quatro anos depois da descoberta da ossada que se pensava ser da guerrilheira. Em entrevista ao jornal A Gazeta, ele explicou que um exame de DNA feito em 2005, no mesmo ano da descoberta dos restos mortais que seriam da militante, descartou qualquer possibilidade de parentesco.

"O problema é que a imprensa nacional e até de outros países divulgou com bastante ênfase a notícia de que foram encontrados os restos mortais dela e isso virou uma verdade. Depois disso, ninguém procurou saber que foram feitos exames e que o resultado descartou qualquer parentesco. Portanto, para nós ela ainda é uma desaparecida política", relata Ricardo, que reside em Cáceres e é um dos principais incentivadores da preservação da memória de Jane.

A descoberta da família se deu depois que o pai de Ricardo, Romano Vanini, irmão de Jane, fez um exame de DNA em Cuiabá. O resultado gerou a uma grande frustração entre os parentes, principalmente para a irmã que era mais próxima à guerrilheira, Dulce Ana. "Minha tia e toda a família passaram por um grande mal estar e até a saúde dela foi prejudicada", completa Ricardo.

Depois da descoberta, a família Vanini nem foi informada sobre o que foi feito com os restos mortais que se pensava ser da guerrilheira e foram encontrados no Chile. A confusão gerou grande frustração porque o governo federal havia disponibilizado até um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para transporte da ossada em 2005. A família também havia reservado um lugar para sepultar os restos mortais encontrados no Chile e que deveriam ser enterrados no Cemitério São João Batista, em Cáceres, ao lado do corpo do pai da guerrilheira, José Vanini.

Jane foi assassinada ao se exilar no Chile, já que ela buscou exílio depois de condenada no Brasil a 5 anos de prisão por combater à Ditadura Militar (1964/1985). Ela militou na Aliança Libertadora Nacional (ALN) e no Movimento de Libertação Popular (Molipo).

Jane foi exilada do Brasil quando o presidente era o general Emílio Garrastazu Médici, conhecido pelas atrocidades cometidas contra quem se rebelava com a forma de governo.

A guerrilheira mato-grossense mais conhecida fora do Estado e também em outros país foi morta por fuzilamento aos 29 anos de idade. Somente em 1993 o governo chileno reconheceu a responsabilidade pela morte. Ela foi assassinada em 6 de dezembro de 1974, na cidade chilena de Concepcion.

Quando foi morta, Jane usava o nome Gabriela Fernandez. Ela foi assassinada sozinha na casa onde morava depois de ficar quatro horas horas acuada pela polícia política do Chile conhecida como Dina. A família da guerrilheira foi informada da morte um ano depois do ocorrido, em 1975.

O companheiro da militante, Pepe Carrasco, foi assassinado em 1986 também pela ditadura de Augusto Pinochet. Jane deixou Cáceres em 1964 aos 19 anos de idade para trabalhar na Editora Abril em São Paulo e, clandestinamente, se dedicar ao combate à Ditadura Militar.

Homenagens - Apesar de não ter o reconhecimento merecido, Jane Vanini já foi tese de mestrado e emprestou o nome para o campus da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat) em Cáceres. A tese foi apresentada pela professora do Departamento de História Maria do Socorro de Souza Araújo e é uma das maiores fontes de informações sobre a guerrilheira mato-grossense. O campus passou a se chamar Jane Vanini em 2001 por uma homenagem do então governador Dante de Oliveira (PSDB).

Resgate - A família Vanini pretende fazer com que a casa onde nasceu e viveu a guerrilheira se torne um museu em homenagem à memória da jovem. Localizada na esquina da Rua Coronel Ponce com a Comandante Balduíno, em Cáceres, a residência foi reformada há dois meses com recursos do governo do Estado através da Lei de Incentivo à Cultura.

"Queremos fazer um museu onde as pessoas possam visitar, saber onde morou, quem foi e ver as coisas dela", explica Ricardo Vanini. O local conhecido como Casa do Leque vinha sendo corroído por cupins, mas já tem nova pintura externa, calçadas e fundação. Falta agora reformar a parte interna e o piso. Admiradores da história de Jane Vanini, pessoas comuns e o poder público poderão contribuir com o projeto para criação do museu.

O projeto tem Ricardo, que é estudante de Turismo na Unemat, como um dos principais defensores. Ele se engajou depois que recebeu uma carta da guerrilheira endereçada aos sobrinhos. No documento, ela tenta explicar aos parentes que eram apenas crianças e jovens à época o motivo pela qual deixou Cáceres para combater os regimes ditatoriais. De família tradicional de Cáceres, Jane tem cinco irmãos: Dulce, a quem chamava de madrinha e trocava correspondências semanalmente, Marize, Henry, Magali e Romano. Esse último ainda reside no município.

Assim como Jane, Mato Grosso conta com outros militantes que foram perseguidos por combater regimes ditatoriais, como o professor e ex-deputado estadual Gilney Viana (PT) e professores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). - Veja lista nesta página.


Fonte: Gazeta Digital

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