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Miss Plus Size Brasil desmitifica padrões do corpo feminino

João Vieira

João Vieira

A financeira de provedor de internet, Ana Clara Vilela Kowalewski, carrega consigo a representatividade de um corpo feminino real. Eleita Miss Plus Size Mato Grosso 2017 e Miss Brasil Plus Size 2019, a jovem desmitifica o corpo feminino gordo, que é tido como algo “feio e doente” pela sociedade.

 

Natural do município de Paranatinga – nascida e criada, como ela descreve -, a miss conta a trajetória em busca do reconhecimento do seu eu. Aos 13 anos, teve um problema no olho e precisou fazer uso de corticoides, o que a levou a ganhar peso. Não só o peso de massa em si, mas o peso de uma sociedade gordofóbica – preconceito contra o corpo gordo -, que cria padrões para prender corpos femininos em limites estabelecidos.

 

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Um relacionamento abusivo também comprometeu a visão que Ana Clara tinha dela mesma. “Foi um processo muito complicado, e dentro desse relacionamento eu me sentia a mulher mais feia do mundo. Depois que eu me livrei disso, fui começar a me olhar com outros olhos ao acompanhar essas pessoas (dos mesmos padrões). E a melhor coisa que tem, é você acompanhar pessoas com a mesma realidade que você. No mesmo padrão, no mesmo pensamento que você”, aconselha.
Outro conselho que Ana Clara dá, é que não basta só se aceitar. É preciso ter amor próprio. Atualmente, ela se prepara para participar de um concurso internacional.

 

Gazeta Digital - Como ficou sabendo do concurso?

Ana Clara -  Foi através de um blog, de uma influenciadora digital. E na verdade não me interessei muito, porque nunca pensei que pudesse ter o padrão de um evento de beleza, porque na época eu tinha certo preconceito comigo mesma. Eu comentei com amigos e família, minha mãe me apoiou demais e foi aí que tudo começou. Fiz a inscrição pra eles pararem de me incomodar (risos). 

Passei na seletiva e eles me mandaram uma mensagem dizendo que eu estava aprovada. Eles me explicaram que se não tivesse concurso presencial aqui, naquele ano, seria virtualmente. Fiz a inscrição despretensiosamente, quando me dei conta eles me ligaram falando que tinha sido eleita Miss Mato Grosso. Foi uma votação pela própria diretoria do concurso. O corpo técnico deles avaliaram fotos e informações que as candidatas mandaram, e concorri com mais 13 meninas e fui eleita Miss Mato Grosso 2017.

 

E como foi o Miss Brasil Plus Size?

Foi um sonho. Eu já estava muito realizada em ser a Miss Mato Grosso. Eu não imaginei em momento algum que eu pudesse ganhar o Miss Brasil, por conta da minha experiência e tudo. Não sabia nem andar de salto, não tinha conhecimento de passarela, de oratória, nada disso. Na verdade, até hoje ainda peno com algumas coisas (risos). Quando eu cheguei ao Miss, que me deparei com 20 mulheres lindas, super bem preparadas, passarela impecável, oratória, eu nunca imaginei. Quando eu fiquei no top 10, pra mim aquilo lá eu tinha ganhado o mundo. Foi uma surpresa inenarrável. Um prazer gigante e pra mim está sendo uma experiência única em representar milhares de mulheres plus no meu País.

 

Como foi o processo de empoderamento sobre seu corpo?

Com 13 anos eu tive um problema no olho e tive que tomar muito corticóide. Eu desenvolvi o corpo muito rápido, era pré-adolescente e do nada fiquei “corpudona”, comecei a engordar muito. E desde então sempre foi uma luta para tentar emagrecer. Sempre quis ser magra, porque a família fala “ah você está gordinha, não vai arrumar namorado”, sempre tem essas coisas. Na escola sempre tinha aquela coisa de "gordinha não pode brincar", como pega-pega, porque era "lenta" e tudo. Tive um relacionamento abusivo, onde aumentou muito também o meu auto preconceito. Porque você acaba acreditando nas palavras que outra pessoa fala e acaba não se vendo realmente em frente ao espelho.

Depois que eu fui começar a pesquisar blogs e foi quando eu me aceitei gorda. Eu falei “já que eu sou gorda, vou aprender a me vestir”. Comecei a pesquisar os blogs e além de mostrar sobre moda, elas mostravam um amor próprio, empoderamento e aquilo me deixou fascinada. Isso foi em 2015. Comecei a pesquisar a respeito sobre como me vestir, só que eu só me aceitava, eu não me amava ainda, só aceitava que era gorda. Se eu descobrisse um medicamento novo, mesmo sendo ilegal ou perigoso, mesmo sendo um procedimento novo, qualquer coisa eu ia lá e fazia. Eu acabei com a minha saúde, desenvolvi gordura no fígado por tomar medicamento pra emagrecer 30 kg em dois meses. Confesso que quando fui pro Miss Brasil, eu ainda tinha esse pensamento.

 

Qual a importância desse concurso?

Ele não é um concurso pra mostrar beleza, é um concurso pra mudar vidas. Na eleição da Miss Plus Size Mato Grosso deste ano, eu me emocionei no evento, porque uma candidata falou que antes do evento, ela estava depressiva, ela se olhava no espelho e não se sentia bem, não tinha vida social, não postava foto de corpo e eu me vi naquilo. E vi o tanto que a sociedade, até nós mesmos, nos enquadramos e nós deixamos de lado por não pertencer aquele padrão, que é praticamente inalcançável.


Fonte: Gazeta Digital

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