07.04.2010 | 03h00
Com características arquitetônicas peculiares, as tradicionais casas cuiabanas possuem uma linguagem própria que pode ser identificada. Em outras épocas, os casarões eram referência de sustentabilidade. Com janelas e portas grandes, paredes grossas, varandas, beirais e telhas e pisos de barro, as casas tradicionais souberam utilizar aparatos e materiais da época para construir edificações que se mantêm até hoje, mesmo com oscilações do tempo e com o avanço desfreado de construções e a necessidade de espaço.
As paredes grossas eram feitas com tijolos de adobe e possuíam cerca de 45 a 50 centímetros de espessura. Conforme o professor doutor e arquiteto José Afonso Portocarrero, as atuais construções possuem cerca de 15 cm de largura nas paredes e este é um dos fatores responsáveis pelo aumento do calor dentro dos imóveis e pouca resistência que têm. Se a estrutura antiga fosse mantida, não haveria a necessidade de aparatos tecnológicos para refrescar os ambientes, pois as paredes servem como isolante térmico. "As paredes grossas não permitem que todo o calor entre nos espaços. Há uma redução de 30% ou mais de raios ultravioletas que penetram nas casas", explica.
A altura dos casarões também é um marco na estrutura tradicional. Pé direito (a altura que vai do forro ao piso) com 4 metros de altura é comum nas construções antigas e uma característica perdida durante o processo histórico-arquitetônico de Cuiabá. Hoje, as casas devem ter, ao menos, 2,6m de pé direito, conforme estipulado pela prefeitura. Segundo as leis da física, o ar quente de um ambiente sobe enquanto o ar frio desce e é por isso que o pé direito das casas tradicionais eram tão altos. Mantinham um clima agradável no ambiente e tinham a função de fazer com que o ar quente saísse por entre as telhas que também possuíam suas peculiaridades. Por não haver forros, os telhados tinham frestas entre uma telha e outra permitindo que o ar quente se dissipasse. Em dias de chuva, essas telhas de barro propiciavam climas amenos nas casas, pois gotículas de chuvas entravam por entre as frestas e formavam uma espécie de borrifo, o que atualmente é bem comum e feito usando equipamentos. "As telhas de barro e esse antigo formato de telhado faziam com que as casas "respirassem", pois o ar circulava por entre os cômodos sem problemas. Por isso os casarões antigos são muito mais confortáveis", afirma.
Há, ainda, os pisos e janelas que, mesmo não acompanhando as tendências, são essenciais nas construções cuiabanas, pois também ajudam a dissipar o intenso calor da Capital e servem para clarear os ambientes. Pisos feitos em ladrilho hidráulico ou lajota e janelas largas e grandes em venezianas de madeira são componentes de uma casa que deveriam ser utilizados sempre.
Beiras e varandas impedem a atuação direta do sol e funcionam como um pára-choque para as casas, pois protegem as paredes. Estão presentes na maioria dos casarões tradicionais e seu uso é bastante recomendado pelo arquiteto por serem opções baratas e que dão características únicas à cidade. Na opinião de Portocarrero, as características tradicionais das casas cuiabanas se perderam. Além de casarões terem sido demolidos e em poucos casos restaurados, não há uma grande procura por projetos que remetam ao clássico da cuiabania ou que incluam algumas de suas peculiaridades.
Os atuais empreendimentos não investem neste resgate da cultura, porque são obras que se tornariam caras e pouco viáveis na visão administrativa. "O problema é que há uma aceitação afoita de tudo aquilo que é novo e moderno, mas não há uma preocupação com o meio ambiente e o patrimônio cultural. Existem possibilidades de junção da tecnológica e tradição, mantendo a verdadeira arquitetura sustentável que é a do passado. Este sim é o caminho correto", finaliza.
Na opinião do arquiteto e professor da Universidade Federal de Mato Grosso, José Roberto Andrade, o crescimento da cidade, o aumento do preço do metro quadrado e as condições de segurança influenciaram diretamente na mudança da arquitetura de Cuiabá. Ele recorda que até os anos 80, as casas cuiabanas ainda eram como um longo corredor com acesso a todos os cômodos. As janelas eram amplas e de madeira, a fachada tinha beirais e as paredes eram bem grossas para manter o ambiente interno mais fresco.
O que restou da arquitetura da Cuiabá antiga foram apenas algumas tendências que os arquitetos tentam, a todo custo, conciliar com a atual legislação e com as políticas social e ambiental da cidade. Segundo José Roberto, a ventilação cruzada, a proteção contra o sol forte nos setores noroeste e norte da casa e os beirais para sombrear a fachada ainda se mantém nos projetos atuais. Mas as casas amplas, com pé direito alto e as grandes janelas foram substituídas por ambientes mais compactos e funcionais. A área construída aumentou, mas o espaço dos terrenos continua o mesmo. Atualmente se constrói até 2 mil metros quadrados (m2) em um terreno de 500 m2.
A arquitetura da área urbana inicial de Cuiabá, como em outras cidades históricas brasileiras, é tipicamente colonial com modificações e adaptações a outros estilos como o neoclássico e o eclético. Ela foi bem preservada até meados do século 20, mas, depois dessa época, o crescimento demográfico e o desenvolvimento econômico afetaram o patrimônio arquitetônico e paisagístico.
Em função dos terrenos amplos cada pessoa construía a casa de acordo com suas necessidades e vontades. Do lado de fora geralmente haviam dois quintais. Um que cercava a casa e era cimentado e o outro ostentava grandes árvores frutíferas e muitas plantas.
Este foi um dos motivos que deu a Cuiabá o título de Cidade Verde. A sombra proporcionada pelas árvores também ajudava a amenizar o calor.
Com o crescimento da cidade tudo mudou. Os quintais se transformaram em minúsculas áreas de serviço e, em muitos casos, nem existem mais. Os condomínios verticais e horizontais viraram moda e isso limita a população às ilhas. Em função da segurança, os cuiabanos preferem os condomínios que estão bem estruturados. As áreas de lazer atendem todas as necessidades do ser humano incluindo pista de caminhadas, academias e parque aquático.
Com a modernidade, as pessoas têm que se adaptar à moradia. Os arquitetos nem sempre conseguem atender as necessidades básicas do morador. Outro ponto que está mudando são os telhados que sempre estiveram à vista e agora estão sendo embutidos. "Isso acontece em função da legislação que mede o espaço entre uma construção e outra a partir do telhado e não da parede. Assim muitos preferem embutir o telhado para aproveitar o espaço", enfatizou José Roberto.
As janelas também diminuíram de tamanho e passaram a ser de vidro ou outros materiais que vão surgindo no mercado. "A palavra sustentabilidade é o foco das construções modernas em Cuiabá". Como a madeira ficou muito cara e precisa ser certificada, os portais e o madeiramento do telhado foram substituídos por PVC e alumínio.
Da arquitetura antiga somente o Centro Histórico é preservado. De acordo com José Roberto, as construções que não estão protegidas pela legislação são descartadas. As pessoas preferem aproveitar mais o terreno e investir em construções modernas. "As políticas sociais também contribuem bastante para a mudança na arquitetura de uma cidade. Em Cuiabá houve a construção de vários condomínios sociais e isso mudou a cara da cidade".
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