Publicidade

Cuiabá, Quinta-feira 08/01/2026

Natureza - A | + A

24.05.2011 | 03h30

Relevância das expedições científicas

Facebook Print google plus

As expedições científicas pelo Brasil ao longo dos séculos 18 e 19 abriram ao mundo a riqueza da fauna e flora e foram responsáveis por grandes avanços nas ciências. Parte significativa deste avanço foi empregada nas grandes viagens realizadas por expedições científicas como as capitaneadas por Louis-Antoine de Bouganville (1766-69), James Cook (1768-77) e Jean-François de La Pérouse (1785-88), que ampliaram o conhecimento sobre a geografia dos continentes e trouxeram a público várias centenas de novas informações sobre os reinos mineral, vegetal e animal. Eram as grandes viagens marítimas que circunavegavam, tocando as faixas litorâneas das áreas ainda quase desconhecidas.

Estas expedições, entretanto, pouco conhecimento podiam oferecer sobre as terras interiores. Já a expedição franco-espanhola ao reino de Quito, entre 1735 e 1745, e as expedições demarcadoras de limites que, por força dos tratados assinados entre Portugal e Espanha, passaram a percorrer a raia fronteiriça destas coroas ibéricas na América descortinando alguns aspectos do interior sul-americano. A expedição que mais contribuiu para a criação dos primeiros inventários da flora e fauna brasileira foi chefiada por Alexander von Humboldt, que em uma carta publicada em Paris, em 1816, ressalta a importância das viagens para o interior dos continentes.

A professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Maria de Fátima Costa, coordenadora do grupo de pesquisa História, Arte, Ciência e Poder, desenvolve investigações sobre expedições científicas e de demarcação de limites, artistas-viajantes e história indígena, e é autora de artigos e livros sobre o tema. Há 20 anos, recolhe registros deixados pelos viajantes europeus e brasileiros que fizeram os primeiros levantamentos taxinômicos de plantas coletadas nas expedições que passaram por Mato Grosso. Com diversos livros publicados e muitos artigos cientìficos, Fátima buscou desvendar os objetivos dessas viagens e o trabalho dos tripulantes. As expedições traziam astrônomos (hoje cartógrafos), botânicos, zoólogos e artistas que estavam à serviço da ciência, apenas para documentar tudo o que encontravam. A finalidade destas viagens sempre teve um interesse científico, no entanto, eram mais do que isso. Tratava-se de registrar o caminho correto para as minas de ouro e para isso era necessário elaborar cartas geográficas (mapas) até então inexistentes. "A cartografia era um dos principais objetivos destas viagens, era preciso saber como retornar, onde estavam as minas de ouro e como estavam distribuídos os grandes rios que cortavam a região", conta.

Depois do interesse pela botânica e cartografia, os viajantes recolheram muito material sobre peixes, pássaros e borboletas. Outra curiosidade internacional era saber os costumes e conhecimentos dos indígenas, principalmente quanto às ervas usadas para a cura de doenças e também como alucinógenas. As canoas utilizadas pelos índios foram também objeto de estudos pelos viajantes que se preocupavam em saber quais as alternativas de transporte para adentrar no mundo verde da região.

Maria de Fátima retrata, em seu artigo publicado na Revista Siena, sobre a expedição do luso brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira em 1792: "foram quase dez os anos que este ilustrado naturalista passou entre águas e terras da Amazônia e do Pantanal brasileiros. Nesse tempo, atravessou territórios de diversos povos e nações indígenas e trouxe, impulsionado pelas luzes da ciência setecentista, um imensurável cabedal de conhecimentos para as diversas áreas do saber".

A expedição de Rodrigues Ferreira inscreve-se na modalidade das Viagens Filosóficas - um tipo de expedição científica, idealizada por Domingos Vandelli, inteiramente organizada, dirigida e financiada pelo Estado lusitano já no período pós-pombalino, com a finalidade de explorar as riquezas no interior do território colonial, principalmente do Brasil. Vandelli, o realizador das reformas na Universidade de Coimbra, propôs este tipo de expedição em 1779.

Logo depois, foram enviadas três Viagens Filosóficas aos territórios coloniais: uma a Moçambique (1783-93), chefiada por Manoel Galvão da Silva; outra a Angola (1783-1808), liderada por José da Silva; e a do Brasil, encabeçada por Alexandre Rodrigues Ferreira.

Nascido na cidade da Bahia e educado em Portugal, Ferreira assumiu a chefia da expedição científica que viajou pelo interior do Brasil entre 1783 e 1792, era um jovem de 27 anos, recém-egresso da Universidade de Coimbra, na qual havia se doutorado em filosofia natural, em 1779. Ele veio para a colônia com o objetivo de "proceder, nos vastos e quase de todo desconhecidos territórios dos estados do Pará, sertões do Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, ao estudo de etnografia das regiões percorridas, preparação dos produtos naturais destinados ao Real Museu de Lisboa".

Sua expedição foi composta por um jardineiro-botânico, Agostinho Joaquim do Cabo, que acabou falecendo em Vila Bela da Santíssima Trindade, e por dois riscadores, José Joaquim Freire e Joaquim José Codina. A expedição de Alexandre deveria atender aos interesses impostos pela política lusitana. "Claro está que, mais do que o abstrato progresso da ciência, tal iniciativa demonstra a grande visão estratégica portuguesa naquele final de século. O reconhecimento da natureza brasileira se enquadrava, pois, no projeto estatal que visava ao estudo dos três reinos, animal, vegetal e mineral, devidamente circunstanciado nas notícias pertencentes à história natural, ou seja, numa completa descrição geográfica de cada lugar, com vistas à exploração mais racional dos territórios coloniais", comenta a professora.

Mais tarde, outra importante expedição chega a Mato Grosso, entre 1822 e 1829. Durante oito longos anos, a lendária e dramática expedição científica comandada pelo Barão Langsdorff percorreu 15.000 km de selvas, torrentes, doenças e delírios, desbravando as terras do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais e explorando Mato Grosso e Amazônia. Os trabalhos dos artistas da expedição - Johann Moritz Rugendas, Hercule Florence e Nicolas-Antoine Taunay -dariam ao mundo a imagem de um Brasil virgem, paradisíaco e amedrontador.

Maria de Fátima vai lançar, ainda este ano, a segunda edição do livro Bastidores da Expedição Langsdorff, assinado por ela e Pablo Diener com produção da editora Entrelinhas.

Voltar Imprimir

Publicidade

Comentários

Enquete

Você costuma fazer meta de Ano Novo?

Parcial

Publicidade

Edição digital

Quarta-feira, 07/01/2026

imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
btn-4

Indicadores

Milho Disponível R$ 66,90 0,75%

Algodão R$ 164,95 1,41%

Boi à vista R$ 285,25 0,14%

Soja Disponível R$ 153,20 1,06%

Publicidade

Classi fácil
btn-loja-virtual

Publicidade

Mais lidas

O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.

Copyright© 2022 - Gazeta Digital - Todos os direitos reservados Logo Trinix Internet

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.