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Tevê - A | + A

21.09.2003 | 03h00

Quanto mais proibido, melhor

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Em vez de você ficar aí sentado, esperando que o governo crie mecanismos mais eficientes para controlar a qualidade da TV, ou culpando os programadores pelas barbáries que podem chocar seus filhos, mexa-se. Consciência crítica nunca fez mal a ninguém. Na melhor das hipóteses, explicar aos pequenos por que um programa é do mal ou por que os casais trocam tanto de parceiros na novela Kubanacan, por exemplo, pode ajudar os próprios adultos a esclarecerem questões que nem você havia levantado e que nem sempre as crianças têm oportunidade de discutir dentro de casa.

A primeira medida é: proibir, jamais. Esse é um consenso entre pais que conseguiram estabelecer uma boa convivência entre a família e a TV, educadores e psiquiatras ouvidos pela reportagem. "Fui fazer a besteira de falar para eles não assistirem Ratinho. Saí para jantar fora um dia e o que eles foram ver? Claro, o proibido é sempre mais gostoso", conta Fernanda Papa de Campos, enfermeira e mãe de Augusto, de 11, e Fernando, de 9 anos, que normalmente acompanha os filhos em tudo o que eles vêem.

Feito isso, o negócio é sentar com os garotos e tentar saber deles o que eles acharam do programa. "Explique, não implique", resume, num lema prioritário, o psiquiatra Rubens de Campos Filho, do Centro de Estudos e Pesquisa Karl Kleist. Marido de Fernanda, Campos argumenta que "o fator explicativo dá limites e não aguça a curiosidade, ao contrário da implicância".

E não vale recorrer às explicações mais cômodas. Seria muito simples anular a competência do autor Manoel Carlos para salvar a apreensão das crianças que se apavoraram com o anjo que avisava à pequena Salete (Bruna Marquezini) que sua mãe iria morrer, na novela Mulheres Apaixonadas. "O medo da perda da mãe ou do pai, do ser provedor de amor, é comum em qualquer criança. Agora, se você disser que o anjo fez uma premonição, você mata a imagem do anjo na cabeça dela. Você pode dizer que o anjo estava tentando prepará-la para que ela não sofresse tanto" defende Campos Filho.

É preciso que as dúvidas sejam respondidas de acordo com a cabeça lúdica da infância, não com a malícia dos adultos. Não é raro ficar constrangido com alguma pergunta feita por criança a respeito do que ela viu na TV. Psicóloga e mediadora familiar, Graziela Zlotnik Chehaibar sugere uma sabatina informal capaz de responder, a começar pelos pais, em que um programa pode lhe ser útil: "é uma babá eletrônica? É só um entretenimento? É educativo? Se você nem souber o que espera desse ou daquele programa, como criar um senso crítico e, pior, como ter a pretensão de incentivar isso nos filhos?".

O que pode haver de mais nocivo num Big Brother, por exemplo, não está nas cenas de sexo que a direção da Globo vetou. Ou nos programas onde a violência é cartão-de-visitas, tipo Cidade Alerta ou Brasil Urgente. Não que esse cardápio seja saudável, mas os programas ditos "neutros" acabam pegando pela frente um telespectador até mais passivo, desavisado e, portanto, capaz de absorver o que vê com mais facilidade. Assim, é certo que os valores humanos tão naturalmente expostos no Big Brother, programa que coleciona elencos de gente sarada e bastante desprovida de ambições intelectuais, estejam longe daqueles que você almeja para um filho seu.

Quando começou a identificar nos meninos de 4 anos um deslumbramento pelos super-heróis da série Power Rangers, a orientadora pedagógica Sueli A. Gonçalves deu início a um diálogo que fez os meninos pensarem nos superpoderes mágicos daqueles seres. "Hoje, eles já falam do ridículo que há naquilo. Caiu o mito, eles já sabem que aquilo não é de verdade".

A orientadora então tentou estimular nos pequenos a citação de super-heróis de verdade. Quem seria um humano, como eles, capaz de cometer um ato heróico? "Falamos no Sérgio Vieira de Mello". A febre agora estudada por Suely atende por Yu-Gi-Oh, um desenho japonês baseado em jogos do tipo RPG. "Não se pode falar que é ruim e ponto; o negócio é assistir junto e explicar. As crianças não têm ouvido para essas coisas prontas, definitivas, todo conhecimento é construído. Tem de perguntar por que gosta, contra-argumentar, construir outros argumentos".

Os pais mais flexíveis, conta a orientadora, acabam apresentando os melhores resultados nesse trabalho de saber lidar com o que a TV oferece de ruim e de bom. E como saber o que vale para cada idade? "O limite é uma coisa que vai se dando aos poucos. A criança vai crescendo e você vai mostrando o que é bom e o que é ruim, até porque você não está com ela o tempo todo, na escola, às vezes em casa, e ela começa a aprender a ter um certo discernimento do que é bom ou não para ela", diz Campos Filho.

O fato de a TV estar perdendo espaço para outros meios de entretenimento entre a classe mais abastada já prova que a atual geração é menos telebestificada que as anteriores. Melhor assim. Melhor consumir TV com moderação, o que é na verdade uma conseqüência, não a causa, de quem consegue adquirir a tão saudável consciência crítica.

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