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29.10.2006 | 03h00

O primeiro beijo

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Falar de puberdade sem falar de "ficar", de beijo e de amasso não é falar de puberdade. Muitos pais entendem que essas experiências são necessárias, mas ficam muito ansiosos para que seus filhos sejam bem sucedidos neste aspecto.

A maioria dos pais não sabe como se posicionar, não sabe se comenta o assunto ou mesmo se questiona os filhos sobre suas experiências correndo o risco dos mesmos se sentiram pressionados, arredios ou se deixam o jovem à vontade para comentar suas experiências ou não quando elas acontecerem.

Os pais sempre consideraram a tarefa de orientar seus filhos sexualmente uma ação muito difícil e delicada. Quando um filho entra na puberdade sabemos que a infância ficou para traz e, para todos os pais principalmente para os mais apegados aos seus "bebês" este momento é sentido como um luto. Apesar de dizerem que seus filhos estão crescendo, muitos deles não se sentem suficientemente preparados para administrar as mudanças que cada fase do desenvolvimento impõe.

A puberdade é uma fase de extrema importância, pois nela a criança se despede da infância rumo a adolescência que é o grande laboratório da maturidade e da vida adulta.

Este rito de passagem é caracterizado por muitas sensações novas, tanto físicas quanto emocionais que levam os jovens a uma dimensão de estranheza que irá provocar muitos sustos, medos, indecisões, conflitos e duvidas. As expectativas da natureza neste momento seriam que mente e corpo andassem juntos para o desenvolvimento do jovem, mas não é o que acontece normalmente.

Quando o corpo de uma criança é saudável todos os pré-requisitos fisiológicos para que este ser humano se desenvolva são seguidos a risca, pois o tempo de vida do indivíduo é o grande gatilho de seu crescimento e desenvolvimento. Da mesma maneira entende-se que cada etapa do desenvolvimento físico corresponde também a uma etapa do desenvolvimento emocional e que isso acontece ao mesmo tempo. Essa afirmação é quase verdadeira, pois cada ser humano tem seu tempo emocional para galgar as etapas de sua maturidade emocional e isso é muito particular.

De todas as experiências sexuais da puberdade, olhar o próprio corpo, descobri-lo e senti-lo, o primeiro beijo na boca é uma experiência única e coberta de muita fantasia e expectativa. Primeira troca sexual, é capaz de provocar muitas sensações a que o jovem não está acostumado e pode tanto selar a melhor de todas as impressões como decepcionar e, com isso, adiar por mais um tempo as experiências sexuais envolvendo o outro. Quando falamos de experiências sexuais estamos nos referindo aos beijos e amassos, pois relações sexuais não são desta fase do desenvolvimento e sim da adolescência.

Todos os jovens iniciantes têm muita curiosidade em experimentar o tal beijo e ter beijado ou saber beijar é um status a ser conquistado.

As meninas, até mais que os meninos, se sentem muito pressionadas pelas amigas a viver a experiência, muito porque para vive-la terão que testar seu prestigio entre os meninos e conquistá-los.

O "boca virgem", ou os que ainda não beijaram, são sempre vistos com desdém pelos colegas e podem se sentir excluídos do grupo ou mesmo inadequados. Neste sentido muitos mentem para os colegas para se livrarem das gozações e terem sossego para encontrar o melhor momento para suas experiências.

Para se beijar alguém pela primeira vez é preciso ter coragem e essa coragem é negociada com a auto-estima. O primeiro beijo necessita de um aparato de preparação e maturidade para que o jovem não se sinta muito constrangido com a vivência.

Os jovens precisam se sentir preparados para suas experiências e o tempo que isso vai levar depende muito da maturidade emocional deste jovem, de sua educação, além da influência cultural e social.

Seja como for, os jovens não deveriam ser pressionados a viver suas experiências para que elas pudessem ser bem vividas. Os pais, para ajudar, poderiam adotar uma conduta mais neutra e mencionar suas experiências correspondentes a cada fase e esperar que, com isso, o filho se encorajasse a mencionar seus medos, angústias, ansiedades e experiências naturalmente.

Afinal, o primeiro beijo a gente não esquece...

Silvana Martani é psicóloga da Clínica de Endocrinologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo

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