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13.08.2026 | 11h29

A inteligência artificial precisa resolver problemas reais

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João Metello

Divulgação

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A inteligência artificial está em todo lugar. Empresas anunciam novas ferramentas, plataformas incorporam recursos cada vez mais sofisticados e, quase diariamente, somos apresentados a alguma solução que promete transformar a maneira como trabalhamos, compramos ou nos relacionamos.

 

Diante de tantas novidades, acredito que precisamos fazer uma pergunta simples: qual problema estamos resolvendo?

Usar inteligência artificial, por si só, não significa inovar. A tecnologia começa a fazer sentido quando parte de uma necessidade real e consegue tornar uma experiência mais simples, eficiente ou acessível.

 

No varejo de moda, por exemplo, uma situação aparentemente comum ajuda a entender isso. O cliente vê uma peça, gosta, mas tem dúvida sobre como ela ficará nele. Se a compra acontece a distância, essa incerteza pode ser suficiente para fazê-lo desistir. Se acontece presencialmente, ainda existem deslocamento, tempo disponível e a própria experiência dentro de uma loja.

 

Foi olhando para situações como essas que começamos a pensar em como a inteligência artificial poderia ser usada não para tornar a compra mais complexa, mas para facilitar uma decisão que o consumidor já precisa tomar.

 

Em um provador digital, o lojista pode selecionar peças e enviá-las ao cliente pelo WhatsApp. A partir de uma foto, a inteligência artificial permite que essa pessoa se visualize com aquelas roupas sem precisar estar fisicamente na loja. A tecnologia está presente, mas o que realmente importa é o problema que ela ajuda a resolver.

 

Isso não significa substituir a loja física ou tornar o atendimento humano menos importante. Pelo contrário. A tecnologia pode facilitar etapas da jornada de compra e fazer com que o consumidor chegue à loja com uma ideia mais estruturada do que procura. Para o lojista e para o vendedor, isso representa a oportunidade de dedicar mais atenção ao atendimento, compreender melhor as necessidades daquele cliente e tornar a experiência de compra mais assertiva e humanizada.

 

Talvez esteja aí um ponto importante dessa discussão: boas soluções não deveriam exigir que as pessoas mudem completamente seus hábitos para utilizá-las. Quanto mais natural a tecnologia estiver inserida na rotina, maior tende a ser sua capacidade de gerar valor.

 

Isso também vale para quem está do outro lado da relação de consumo. Pequenos e médios varejistas precisam ter acesso a ferramentas capazes de melhorar a experiência de seus clientes e ajudá-los a competir em um mercado no qual grandes empresas já investem pesadamente em inovação.

 

Ampliar o acesso a essas soluções significa criar condições para que pequenos negócios também possam incorporar recursos que, até pouco tempo atrás, estavam mais presentes na realidade das grandes marcas.

 

Entretanto, existe outra dimensão importante: uma barreira pequena para determinada pessoa pode ser muito maior para outra.

 

Para parte do público neurodivergente, por exemplo, ambientes movimentados, excesso de estímulos, deslocamentos ou determinadas interações podem tornar uma ida à loja uma experiência desconfortável. Quando oferecemos outra forma de visualizar e escolher uma roupa, estamos falando de conveniência para muitos consumidores, mas também de autonomia e possibilidade de escolha para outros.

 

É por isso que acredito que precisamos superar o encantamento pela inteligência artificial apenas por aquilo que ela é capaz de fazer.

 

Mais do que acompanhar a velocidade com que novas ferramentas surgem, precisamos avaliar o impacto que elas produzem na vida das pessoas. É essa capacidade de simplificar processos, reduzir barreiras e responder a necessidades concretas que deve orientar o desenvolvimento de novas soluções.

 

A inovação que realmente transforma não começa pela tecnologia. Inicia pela capacidade de olhar para uma dificuldade que já existe e encontrar uma maneira melhor de enfrentá-la.

 

No fim, a inteligência artificial não precisa tornar nossas vidas mais tecnológicas, e sim mais simples.

 

João Metello é advogado, especialista em IA aplicada à produtividade pela Harvard Business School e CEO do Meu Vestir.

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