01.05.2026 | 08h52
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Vivemos um tempo curioso — e, em certa medida, inquietante — em que opinar deixou de ser uma escolha para se tornar quase uma obrigação social. A ausência de posicionamento, sobretudo diante dos temas em evidência, parece provocar um desconforto íntimo: o receio de sermos percebidos como desinformados, irrelevantes ou intelectualmente frágeis. Alimenta-se, assim, a perigosa ilusão de que quem mais fala, mais sabe — como se a eloquência substituísse a profundidade.
No teatro das interações contemporâneas, vozes rápidas, assertivas e muitas vezes agressivas ocupam o centro do palco. Tornam-se referências momentâneas aqueles que julgam tudo e todos com aparente segurança. Mas é preciso questionar: desde quando a pressa em opinar se tornou sinônimo de lucidez? E mais — o que se perde quando abrimos mão da reflexão em nome da exposição?
Admitir que não sabemos, que não estudamos o suficiente ou que simplesmente não desejamos opinar deveria ser compreendido como um gesto de maturidade intelectual. Não há ignorância em reconhecer limites; há, ao contrário, consciência. O problema surge quando a fala deixa de ser expressão de conhecimento e passa a ser instrumento de validação social. Nesse cenário, proliferam discursos rasos, sustentados mais pelo desejo de visibilidade do que pelo compromisso com a verdade.
A dinâmica das informações fragmentadas intensifica esse fenômeno. Opina-se com base em recortes, interpretações apressadas e versões incompletas dos fatos. Constrói-se uma narrativa conveniente, que rapidamente é lançada ao julgamento coletivo. No entanto, a realidade não se curva à urgência da opinião. Ela se revela com o tempo — e, frequentemente, desmente certezas precipitadas, expondo o custo da imprudência em retratações públicas, desgastes morais e conflitos evitáveis.
Nesse ponto, ecoa a reflexão de Carl Gustav Jung, ao sugerir que aquilo que não trazemos à consciência retorna sob a forma de destino. Poderíamos ampliar a ideia: aquilo que não filtramos no silêncio interior irrompe no mundo como palavra impensada. Entre o pensamento e a fala existe um intervalo precioso — um espaço de escolha. É nesse intervalo que reside a verdadeira inteligência.
A palavra, uma vez dita, ganha autonomia. Não nos pertence mais. Diferente do pensamento, que pode ser revisto, ajustado ou descartado no silêncio, a fala se projeta no outro, produz efeitos e, muitas vezes, consequências irreversíveis. Por isso, o domínio desse percurso — do impulso à expressão — é um dos sinais mais claros de discernimento.
Em um ambiente saturado por ruído, talvez o verdadeiro ato de coragem seja o silêncio consciente. Não o silêncio da omissão, mas o da responsabilidade. O silêncio que respeita o tempo, que recusa a superficialidade e que compreende que nem toda opinião precisa existir — e, certamente, nem toda opinião precisa ser dita.
Cuidar da palavra é, em última análise, cuidar das relações, da verdade e de si mesmo. Em vez de ecoarmos a desordem, podemos escolher ser fonte de lucidez. Em vez de alimentar conflitos, podemos favorecer o entendimento. E, sobretudo, podemos compreender que, em muitos casos, a sabedoria não está em ter algo a dizer — mas em saber quando não dizer nada.
*Soraya Medeiros é jornalista.
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