31.08.2026 | 17h14
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Tem coisa que a gente faz todos os dias sem pensar muito. Escolhe um livro para uma criança, indica um profissional, convida alguém para uma palestra, monta uma bibliografia, procura uma fonte para uma reportagem, contrata, promove, decide quem terá uma oportunidade. Pode não parecer, mas essas escolhas também têm relação com o enfrentamento ao racismo.
Quando se fala ecombatê-lolo, muita gente pensa logo em denunciar uma ofensa, registrar um boletim de denúncia ou apoiar alguém que sofreu violência racial. Tudo isso é necessário. Mas ser antirracista passa também por quem escutamos, em quem confiamos, quem consideramos competente, quem indicamos quando surge uma oportunidade e quem imaginamos, quase automaticamente, ocupando os lugares de prestígio e decisão.
É por isso que o Dia Internacional das Pessoas Afrodescendentes, celebrado em 31 de agosto, me interessa para além da data. Criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o dia chama atenção para as contribuições das populações afrodescendentes e para a necessidade de ampliar direitos, justiça e igualdade.
Mas o que fazemos com essas palavras na vida real? Comecemos por aquilo que aprendemos. Quando se fala em África, quais imagens aparecem primeiro? Fome? Guerra? Escravidão? Safári? Agora tente lembrar: quantos cientistas africanos você estudou? Quantas invenções e conhecimentos produzidos por povos africanos em matemática, astronomia, medicina, engenharia chegaram até você na escola?
Bárbara Carine, em História preta das coisas, apresenta 50 produções científico-tecnológicas de pessoas negras fundamentais para o desenvolvimento humano. Chimamanda Ngozi Adichie nos alerta para o perigo da história única: quando uma parte é repetida tantas vezes que passa a parecer o todo.
A África não começa na escravização. A história das pessoas negras também não. Sueli Carneiro nos ajuda a compreender o epistemicídio, esse processo de apagamento e desqualificação não apenas de conhecimentos, mas também de quem os produz. Cida Bento, ao discutir o pacto da branquitude, coloca outra questão na mesa: determinados lugares de poder continuam sendo ocupados pelas mesmas pessoas e isso acaba sendo tratado como se fosse natural.
Não é. Quer trazer essa conversa para bem perto? Olhe para uma escola. Na Educação Infantil, observe os livros e desenhos. Crianças negras aparecem só quando o tema é diferença, racismo ou escravidão? Ou também estão brincando, viajando, inventando, sendo amadas, vivendo aventuras e ocupando o centro da história? No Ensino Fundamental e Médio, a África aparece antes da escravização? Matemática, Ciências, Literatura e História apresentam contribuições africanas e afro-brasileiras? E na graduação e na pós-graduação? Quantos autores e autoras negras estão nas bibliografias? Quem a universidade continua reconhecendo como produtor de ciência? A pergunta também vale para a Educação Profissional e Tecnológica.
Para além dessas perguntas, temos que fazer valer a Lei nº 10.639 que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira. Em Mato Grosso, temos muita coisa diante dos nossos olhos e a educação antirracista é trabalho para o ano inteiro. Temos Tereza de Benguela e o Quilombo do Quariterê. Temos a Rota da Ancestralidade, a Casa das Pretas, o Prêmio Jejé de Oyá, a Lavagem das Escadarias da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, a exposição Coisa de Preta, filmes do Instituto Quariterê, ações de coletivos (Fórum das Mulheres Negras de MT, Daruê Malungo, Essência e outros), atividades de grupos de instituições públicas (Nepre, Oyá, Multimundos, Mulheres nas Ciências, dentre outros) e produções negras das mais variadas áreas.
Há também os saberes que vivem na Baixada Cuiabana e nos quilombos mato-grossenses: na dança, na comida, nos modos de falar, celebrar, cuidar e transmitir conhecimento. A cultura negra não está fora de Mato Grosso. Ela faz parte daquilo que o nosso estado é.
Na comunicação, também podemos mudar práticas. Nós, da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), ligada ao Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor), criamos a Lista Negra “Se a Coisa Tá Preta, a Coisa Tá Boa”, com profissionais de diferentes áreas. A proposta é simples: pessoas negras não precisam aparecer na imprensa somente quando o assunto é racismo, escravidão ou violência. Ao organizar uma mesa, uma entrevista, uma reportagem ou um evento, vale perguntar: quem estamos chamando para falar de ciência, economia, saúde, tecnologia, educação ou direito?
Há ainda um exercício conhecido nos debates sobre desigualdade racial como “teste do pescoço”. Sugiro que você experimente fazer. Ao entrar em um restaurante, hospital, universidade, empresa ou evento, olhe ao redor. Quantas pessoas negras estão ali? Depois observe onde elas estão. Quem dirige? Quem decide? Quem fala ao microfone? Quem aparece na fotografia principal? Quem atende? Quem serve? Quem limpa?
Esse olhar ganha outro peso diante de um dado do Censo 2022: pessoas pretas e pardas representam 56%% da população brasileira, ou seja, mais da metade do país. Isso ajuda a entender por que olhar não apenas para a presença, mas para os lugares ocupados, é tão importante.
Ninguém precisa dominar todos os conceitos sobre relações raciais para começar. Pode começar prestando atenção, lendo autores negros, revendo quem indica para uma oportunidade, interrompendo uma piada racista, mesmo quando nenhuma pessoa negra estiver presente, diversificando referências, conhecendo a história negra da própria cidade, ensinando às crianças negras que todos os lugares também podem ser delas e às crianças brancas que ser branco não é o padrão universal de humanidade.
É isso que eu gostaria que o 31 de agosto deixasse depois que o calendário virasse a página. Não culpa, mas sim reflexão, consciência, escolha e desejo de mudança. Porque todos nós ocupamos algum lugar onde decidimos alguma coisa, mesmo que pareça pequena. E aí a pergunta volta para cada um: No lugar que eu ocupo hoje, o que está ao meu alcance fazer diferente? As escolhas de todos os dias podem mudar o mundo.
Julianne Caju é cuiabana de “tchapa e cruz”, cria do CPA, jornalista, professora, mestra em Educação e doutora em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT.
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