16.01.2021 | 10h46
Divulgação
Dentre tantas desventuras, tristezas e perdas de entes queridos, 2020 levou um homem honrado, de convicções ideológicas que não se abalaram quando os ventos sopravam contra, o que não foi pouco em sua existência. No dia 21 de dezembro, aos 87 anos, depois de diversas complicações provocadas por AVCs, o coração do Dr. Herculano Muniz parou de bater em Primavera do Leste, tendo sido acompanhado clinicamente até os últimos momentos por sua filha médica, Isaura de Barros Muniz.
A seu tempo, soube se fazer nesta vida. Baiano do sul do estado, da pequena cidade de Mutuípe, viveu mesmo a maior parte do tempo, até o início da juventude, em Ipiaú, onde seu pai Herculano Muniz de Melo e sua mãe Maria Alvina Muniz adquiriram uma pequena propriedade agrícola na qual mantinham alguns animais e passaram a colher cacau. Era o caçula entre seus oito irmãos.
Como disse Caetano Veloso em sua magistral canção ‘No dia em que vim-me embora’: “nem chorando, nem sorrindo, sozinho para capital...”, ainda jovem, Herculano Muniz partiu para Salvador onde já morava e estudava seu irmão, Antônio dos Santos Muniz, para juntos se tornarem os primeiros a fazer curso superior na linhagem dos Muniz, no começo da década de 1960.
Em Salvador não tinham parentes, e por recomendação foram morar em uma pensão. Ao fim da jornada na capital baiana, Herculano Muniz se tornou engenheiro civil e o Dr. Muniz — como viria a ficar popularmente conhecido Antônio dos Santos Muniz — se tornou médico.
Otoamérico Muniz, sobrinho e engenheiro civil em Rondonópolis, que nasceu e cresceu em Ipiaú, com a família, e que anos depois do tio também foi cursar engenharia em Salvador, lembra que Isaura Muniz, irmã mais velha de Herculano e Antônio, trabalhava com costuras para ajudar nos estudos dos irmãos, quando estes faziam faculdade, pois o cacau naquela época não assegurava uma boa renda e a produção familiar era muito pequena.
Herculano contava que no dia de sua formatura na Universidade Federal da Bahia, ele e alguns colegas revezaram a beca para receber o canudo. Entrava um por vez e passava a beca para o outro. E que não participaram da festa. Ele dizia: “naquela época era uma pequena elite que podia concluir um curso superior, principalmente nos cursos de engenharia, direito e medicina. Então, não era honroso comemorar isso, principalmente no Nordeste, onde a maioria do povo vivia fortes privações”. Já era uma atitude decorrente de sua atuação política.
Formados, os dois irmãos escolheram a pequena Poxoréu para começar a atuação profissional. É bom lembrar que na década de 1960 Poxoréu ainda era iluminada pelo brilho de seus diamantes, em seu ciclo minerador que à época a tornou um dos centros econômicos de Mato Grosso.
Primeiro chegou Antônio, depois Herculano. Sem parentes e nem “padrinhos”, mas rodeados da baianada que povoava a cidade, ali trabalharam, fizeram amigos e se tornaram profissionais de referência, o que culminou com a eleição de ambos como prefeitos do município. Os irmãos mais velhos — Altamirando Muniz de Melo, Milton Muniz de Melo e Otaviano Muniz de Melo — já residiam em Mato Grosso — Barra do Garças/General Carneiro, Primavera do Leste (antes entroncamento de Paranatinga) e Guiratinga, respectivamente.
Foi preciso transcorrer 23 anos após a eleição de seu irmão como prefeito para Herculano Muniz aceitar a condição de candidato a prefeito. Esse tempo veio a coincidir com o período da redemocratização do Brasil — após o fim da ditadura militar — e com a elaboração da “Constituição Cidadã de 1988”. Constituição que entre os constituintes por Mato Grosso estava seu sobrinho deputado federal Percival Muniz, de quem foi incentivador tanto para o estudo como para a participação política.
Suas ideias destoavam um pouco das do irmão. Antônio dos Santos Muniz dizia que já na época da faculdade em Salvador "Herculano era incutido com política, vivia ouvindo a rádio de Moscou".
Nos anos 90, em uma das passagens por Poxoréu, numa conversa com ele e na qual também estava presente sua sobrinha Janice Muniz, procuradora federal, falávamos sobre projetos de vida, sobre o socialismo, ideologia, enfim, sobre a vida e política em geral. Ele ali se declarou um socialista cristão, disse que acreditava em um socialismo com essa feição. Não à toa, sua gestão como prefeito foi marcada por um forte apoio aos garimpeiros da região que já não encontravam no garimpo o mesmo brilho de outrora.
Gaudêncio Amorim, autor do livro “Prefeitos de Poxoréu, Biografias”, afirma que “Herculano Muniz de Melo inaugurou um modelo de administração focado nas políticas sociais para os menos favorecidos” e intitula o capítulo dedicado a ele como “Herculano Muniz, a breve história de um socialista”.
Na prefeitura ele atendia a todos em seu gabinete amplo. Não havia espera em antessala, todos entravam, sentavam a uma mesa maior e um a um se dirigia à mesa dele para o despacho. Não havia segredos. Era o jeito dele.
Por muitos anos também foi engenheiro da Rede Cemat, tendo trabalhado na construção da usina Rio da Casca e no linhão MT– Itumbiara/GO, dentre outras obras.
Ele adorava uma rodada de conversa com os sobrinhos; bem-humorado, era dono de boas tiradas: “lá vem o nego Cosme com suas pernadas linguísticas” — se referindo ao Cosme Heiner, sobrinho jornalista-documentarista, quando esse exagerava nos comentários; ou: “Sidney, passa a bola!” —cobrando do sobrinho Sidney Muniz, assessor parlamentar, que democratizasse o tempo de fala na roda de conversa da família, pois Sidney, já falecido, era do dono de uma intensa retórica. Isso tudo envolto em muita risada e zoação.
Ele gostava de dizer que “onde tem três baianos, um é líder”. Foi um tio de brilho intenso, um farol para a família, defendia ao mesmo tempo a necessidade de se estudar e de se formar a consciência política. Chegou a ajudar materialmente muitos sobrinhos para que estes fizessem seus estudos.
Em outra passagem por Poxoréu, ao final dos anos 90, vi em seu carro o livro ‘As veias abertas da América Latina’, de Eduardo Galeano, autor crítico à exploração colonialista aos países latino-americanos, e que narra nessa obra em detalhes os mais diversos saques de suas riquezas. Só depois vim a ter acesso e ler este livro, e, quando li lembrei dele, gostei de saber de sua preocupação com essa temática.
A guerreira Dulcelina de Barros Muniz (tia Dudu), graduada em Serviço Social, foi sua companheira de vida toda. Ela conta que quando o conheceu se encantou por suas ideias, pois também era um tanto contestadora. A família não colocava muito gosto, diziam que além de umas ideias diferentes ele ainda “gostava de uns goles” — conta ela sorrindo.
A filha Isaura de Barros Muniz hoje exerce a medicina em Primavera do Leste. E o filho, Franco Muniz, é engenheiro agrônomo e atua em Sinop, onde vive com sua família.
Em uma de nossas conversas, já nos últimos tempos, dentre outros assuntos falamos sobre bebida. Falei que estava pensando em tornar-me abstêmico. Ele me dizia que é bom beber um pouco de vez e quando, para desanuviar. Então me contou por que parou de beber. Disse que quando perdeu seu grande amigo Nicanor, em 1986, a quem considerava como irmão, ficou muito desgostoso e desse dia em diante nunca mais bebeu.
Herculano sempre foi um observador atento da política nacional, e sempre reclamou daqueles que retardam o desenvolvimento do país. Nos últimos anos, já muito doente, ainda reclamava da conjuntura política, achava Bolsonaro um boçal, para ficar nos xingamentos mais brandos.
Tio Herculano Muniz, figura cativante. Triste perda.
*Brás Rubson é sociólogo e cartunista.
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