20.06.2026 | 10h58
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Junho é o mês de conscientização sobre o lipedema, uma condição que vem ganhando visibilidade nos últimos anos, mas que ainda é cercada por desinformação, preconceitos e diagnósticos equivocados.
Talvez uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres com lipedema seja ouvir, repetidamente, que o problema seria apenas excesso de peso. Muitas passam anos tentando diferentes dietas, intensificando a prática de exercícios físicos e enfrentando sentimentos de culpa por não conseguirem alcançar os resultados esperados. O que poucas sabem é que, em muitos casos, a explicação pode estar além da balança.
O lipedema é uma doença crônica que afeta principalmente mulheres e se caracteriza pelo acúmulo desproporcional de gordura, especialmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços. Diferentemente da obesidade, essa gordura apresenta características próprias: costuma ser dolorosa, sensível ao toque, associada a hematomas frequentes e costuma reduzir de forma menos proporcional que outras regiões do corpo durante a perda de peso. Além disso, geralmente poupa pés e mãos, criando uma desproporção corporal bastante característica.
Nos últimos anos, a endocrinologia passou a olhar para essa condição com ainda mais atenção. Isso porque o tecido adiposo deixou de ser entendido apenas como um depósito de gordura. Hoje sabemos que ele funciona como um órgão metabolicamente ativo, capaz de produzir substâncias inflamatórias, influenciar hormônios e impactar diversos sistemas do organismo.
Nesse contexto, o lipedema mostra que nem toda gordura corporal se comporta da mesma forma. Alterações no tecido adiposo podem gerar repercussões que vão muito além da estética.
Estudos recentes apontam a participação de fatores hormonais, genéticos e alterações locais do tecido adiposo no desenvolvimento da doença, o que ajuda a explicar por que ela costuma surgir ou piorar em fases marcadas por grandes mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa.
É justamente aí que a endocrinologia exerce um papel fundamental. Embora não exista um exame laboratorial capaz de confirmar o diagnóstico, a avaliação endocrinológica contribui para identificar condições associadas, avaliar fatores metabólicos, investigar a presença de obesidade quando ela existe e construir estratégias individualizadas para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Outro ponto importante é compreender que obesidade e lipedema não são sinônimos. As duas condições podem coexistir e frequentemente se potencializam, mas possuem mecanismos distintos. Quando essa diferença não é reconhecida, muitas pacientes acabam recebendo orientações inadequadas e carregando uma culpa que não deveria existir.
Falar sobre lipedema é também falar sobre acolhimento. É reconhecer a dor física, mas também o impacto emocional de uma doença frequentemente invisível. É lembrar que muitas mulheres passaram anos sendo julgadas antes de serem diagnosticadas.
Neste mês de conscientização, o convite é para que olhemos para além da estética e compreendamos o lipedema como ele realmente é: uma condição médica que merece diagnóstico adequado, acompanhamento multiprofissional e, acima de tudo, respeito. O reconhecimento precoce da doença permite orientar medidas que podem ajudar no controle dos sintomas e na preservação da qualidade de vida.
Porque nem toda dificuldade para perder medidas está relacionada à falta de esforço. Às vezes, a resposta está em uma doença que precisa ser reconhecida.
Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.
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