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02.01.2026 | 09h50

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Ricardo Viveiros

Divulgação

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Após longo e responsável processo judicial, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro pelos crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. Nunca um ex-presidente brasileiro foi assim responsabilizado. Diante da pressão por uma anistia incabível, cabe a pergunta: seus outros crimes serão perdoados?

 

A trajetória de Bolsonaro revela que a tentativa de golpe não foi um raio em céu azul, mas o ápice de uma escalada de três décadas. Sua carreira parlamentar e presidencial traz práticas de corrupção, ataques à democracia e proximidade com grupos criminosos.

 

As “rachadinhas”, reveladas no caso Fabrício Queiroz, mostram a promiscuidade entre vida pública e privada. No gabinete de Flávio Bolsonaro, o desvio superou R$ 6 milhões. Funcionários fantasmas, como a “Wal do Açaí”, são parte do mecanismo: salários públicos usados como fonte de enriquecimento ilícito.

 

A ligação com o “Escritório do Crime”, chefiado por Adriano Nóbrega, mostra que a fronteira entre política e crime organizado foi cruzada. Os cheques de Queiroz à Michelle Bolsonaro, R$ 89 mil, seguem inexplicados. E quando Queiroz precisou se esconder, foi encontrado no sítio do advogado da família do ex-presidente.

 

Bolsonaro aprofundou a lógica do escândalo permanente. O ex-ministro Ricardo Salles é investigado por facilitar exportações ilegais de madeira; o Ministério da Saúde foi palco de suspeitas de propina na compra de vacinas, além do negacionismo que matou milhares de pessoas; no Ministério da Educação, estranhos negociavam verbas em troca de ouro. A interferência direta de Bolsonaro na Polícia Federal para blindar familiares revelou a tentativa de capturar o aparato estatal.

 

Os “tratoraços”, os ônibus escolares com preços inflados e o chamado “bolsolão do lixo” expuseram um esquema de superfaturamentos bilionários, sustentados pelo orçamento secreto — mecanismo que drenou recursos de áreas sensíveis para alimentar a base política do governo. Não por acaso, Flávio Bolsonaro adquiriu mansão de quase R$ 6 milhões, enquanto investigações apontam que a família comprou 51 imóveis, muitos pagos em cash.

 

A política de sigilos de 100 anos fecha o quadro: esconder informação foi estratégia de governo. Notícias falsas contra o sistema eleitoral e ataques a jornalistas criaram o caldo de cultura que desembocou no vandalismo de 8/1/2023. Golpe, como registra a História, não é um ato isolado, mas um processo. Bolsonaro o conduziu passo a passo.

 

O Brasil, historicamente, lidou com anistia para golpistas. O 31 de março de 1964 só foi possível porque anteriores tentativas fracassadas não foram punidas. Ao perdoar, em nome da “pacificação”, o país ensinou aos conspiradores que não haveria consequências.

 

Não se trata de revanche, mas de justiça. Aceitar a democracia implica em regras: alternância de poder, transparência, responsabilidade pública. Está em jogo não apenas o destino de um político, mas a chance de romper com um ciclo que abre espaço para novos ataques ao Estado de Direito.

 

O julgamento do STF inaugura oportunidade histórica: mostrar que golpes, tentativas ou preparativos não podem ser anistiados. Só assim construiremos a crença coletiva de que, no Brasil, a democracia não é um intervalo entre rupturas, mas um pacto sólido e definitivo.

 

Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Justiça seja feita e Memórias de um tempo obscuro.

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