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29.06.2026 | 11h56

Quantos centímetros?

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Quase todos os dias, vejo um moço que mora lá no bairro no caminho entre minha casa e o consultório. A gente encontra na padaria. Assim, não é exatamente que a gente se encontre, ele tá lá sentadinho no balcão de fora e eu passo fazendo de conta que estou olhando pra frente. Então está mais para eu o encontro, ele não deve nem ter notado minha passagem já que a gente cruza não sei quantas pessoas no meio da rua. É que esse um, é um tipo peculiar: tem os olhos muito afastados um do outro. A princípio, nada sério.

 

Negócio é que venho observando uma intensificação do afastamento. No começo era só um “uau! como são afastados esses olhos”. Aí foi para uma semi dúvida de que parece que vêm afastando mais, até que sexta agora tive a sensação de que estão a menos de um centímetro das orelhas. Seria maravilhoso medir, embora talvez um pouco indelicado. Chequei os meus assim que cheguei, 6 dedos ou mais precisamente 8cm. Isso do fim do olho para o começo da orelha.

 

Passei o dia todinho pensando nisso. Como fica se alcançarem? Pior ainda, se passarem até encontrar um com o outro atrás da cabeça?

 

Esse é um. Aí tem o segurança dois prédios antes de chegar na padaria. Visualiza: 1,55m no máximo, magrinho de tudo, de comprar roupa na sessão infantil provavelmente, nenhuma arma na cintura. É o segurança mais querido da paróquia. Bom dia pra cá e pra lá. Sendo que já percebi que não é só pra mim, certo? Chequei inclusive com outros vizinhos. Agora vê, é o trecho da rua em que me sinto mais segura. O cara mantém todo mundo sem medo na base do sorriso. Sorrisão, dentes perfeitos. A sensação que eu tenho é a de que ele segura o humor do bairro inteiro.

 

Eu achei que todo mundo adorava o cara. Até que cruzei um senhor passeando o cachorro vindo, eu indo, encontramos um pouquinho depois que ele passou pelo segurança. Respondeu ao bom dia, respondeu ao sorriso e depois que passou, um de costas para o outro, fez muchocho com uns 12cm de boca quase chegando atrás da cabeça e reclamou com o cachorro “insuportável esse alegria”. Agora, se o segurança fosse o do olho pra trás e se a boca do ranzinza encostasse mesmo, um teria visto a reação do outro, se o bichinho ficasse chateado, parasse de dar bom dia e de sorrir, levaria o humor de um bairro inteira pra lama. Já pensasse? Aproveita e se mede também. Meio na dúdida se a torta sou eu.

 

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

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