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24.10.2020 | 12h20

Síndrome da casa parecida

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Cirilo Tissot

Divulgação

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Os portadores de Alzheimer são vítimas colaterais das medidas sanitárias de enfrentamento à pandemia do coronavírus. Estados de demência progressiva em pacientes idosos – dentre série importante de enfermos de inúmeras doenças – ficaram à mercê do altruísmo. Do ponto de vista clínico de quem está num front diferente dos sanitaristas e infectologistas – a quem presto incomensurável respeito – a psiquiatria contabiliza baixas insanas entre portadores de compulsões, depressão e crises cujos gatilhos são acionados por isolamento social involuntário. 

 

A supressão forçada de rotinas de interação social causou o agravamento da saúde mental em muitos. Trouxe à tona quadros confusionais em tantos outros. Pacientes inseguros e com dependência por pessoas imploraram e, muitas vezes obtiveram, a benevolência do outro em troca de um estado de eremita em dupla. Aqui se evitou a prática do suicídio, pura e simplesmente.

 

Das reflexões anotadas neste longo período de “embolhamento” da convivência, chama atenção paciente de Alzheimer que, diariamente, na pandemia, deu início a um estado de delírio persecutório, com gritos por socorro e demonstração de pânico às pessoas próximas.

 

Afirma que aquela parece a sua casa, mas não é. Tudo dentro é semelhante às suas coisas, mas algo mudou. As pessoas também mudaram, apesar de serem as mesmas.

 

As manifestações acontecem sempre algum tempo depois do almoço, desaparecendo após par de horas. O aumento das demonstrações de carinho não alterou o quadro. Ajustes na medicação, tampouco.  

 

Análise do contexto social da paciente apurou que mudanças significativas ocorreram com a troca forçada na rotina de plantão das cuidadoras que a atendiam. O uso de máscaras, cancelamento dos prestadores domiciliares de serviço, dos rituais religiosos, ausência dos netos. Em suma, a perda de referências de uma rotina que não mais existe nos detalhes confunde, onde a razão não tem mais força e influência para interpretar ou elaborar a mudança.

 

A síndrome da casa parecida é o lar do novo normal, onde as pessoas amigas, quando visitam, são potenciais perseguidores, bandidos mascarados, sem identidade, mas reconhecíveis na aparência.

 

As pessoas amadas, neste contexto, tornaram-se potencialmente terroristas, com bombas invisíveis detonadas pelo espirro.

 

Sofrem com a impossibilidade do toque e do abraço que faz reconhecer emocionalmente o amigo.

 

A impossibilidade de sair turva a capacidade de diferenciar os dias.

 

A vida na mesma rotina de sempre, só que agora, muito mais igual, desencadeia transtornos de ansiedade que adquire nuances indistintas com o som ao redor.

 

Este caso exprime os efeitos sobre dezenas de milhares que não foram devidamente lembrados neste contexto sanitário. A reflexão sobre este quadro reforça conclusão de que não devemos combater a morte, por certa, mas as doenças que encurtam e limitam a vida. Com o sucesso em prolongarmos nossa existência começamos a sofrer de doenças degenerativas e crônicas produzidas pela idade avançada. Não temos como evita-las.

 

Basta saber se a sobrevida se parecerá com a vida no sentido que tínhamos anteriormente e o custo benefício disso.

 

Afinal, neste momento, precisamos ter coragem de responder a uma única questão:

 

- Qual é o sentido de sobreviver se o que nos dá sentido nos é retirado para viver mais?  

 

Cirilo Tissot é médico psiquiatra certificado pela ABEAD para tratamentos de Transtornos por Uso de Substâncias e Dependências Comportamentais no Brasil, Diretor Técnico da Clínica Greenwood e Terapeuta familiar.

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