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23.06.2026 | 16h09

O passado ainda pesa

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Ricardo Viveiros

Divulgação

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O tráfico transatlântico de africanos escravizados permanece como uma das maiores tragédias da história da humanidade. Milhões de pessoas foram sequestradas, arrancadas de suas terras, culturas e famílias para alimentar um sistema econômico construído sobre a violência e a desumanização. Séculos depois, os efeitos da barbárie escravocrata ainda estão presentes. O racismo é uma de suas heranças mais perversas e continua a desafiar sociedades que se consideram democráticas e igualitárias.

 

A colonização europeia na África aprofundou esse processo. No caso francês, a dominação foi marcada pela exploração econômica, pela imposição cultural e pela negação de direitos às populações locais. Sob o discurso da chamada “missão civilizatória”, a França promoveu a assimilação forçada, difundiu seu idioma, enfraqueceu identidades tradicionais e transformou territórios africanos em fontes de matérias-primas para abastecer a metrópole. Mesmo após as independências conquistadas a partir da década de 1960, muitos estudiosos apontam que mecanismos de influência política e econômica permaneceram ativos, fenômeno conhecido como Françafrique.

 

Foi impossível não pensar nesse passado ao assistir a partida entre as seleções da França e do Senegal, antiga colônia francesa. Durante a execução do hino francês, chamou minha atenção o fato de que muitos jogadores negros da seleção francesa não cantavam a letra. Alguns mantinham a cabeça baixa. Cada atleta, é natural, tem suas razões pessoais, não cabe presumir sentimentos. Ainda assim, a cena despertou uma reflexão sobre identidade, pertencimento e memória histórica.

 

A atual seleção francesa é formada na maioria por atletas negros, descendentes de povos oriundos de antigas colônias africanas. São franceses por nascimento, cidadania e direito. Contudo, a presença marcante de nomes e sobrenomes ligados a diferentes regiões da África revela uma história que atravessa gerações e conecta o presente a um passado colonial nem sempre plenamente reconhecido, e corrigido. Há sobrenomes que remetem ao Senegal: Konaté, Kanté e Dembélé. Outros a Camarões, Zaire, Congo, Costa do Marfim, Mali, Benim, Guiné.

 

O futebol, como expressão social, frequentemente expõe questões que vão muito além das quatro linhas. O elenco da equipe francesa demonstra a contribuição decisiva dos descendentes da imigração para a construção da identidade nacional contemporânea. Ao mesmo tempo, lembra que integração não significa apagamento de origens, memórias ou experiências coletivas.

 

O mundo avançou muito no combate às discriminações, mas ainda convive com diversas formas de intolerância. Racismo, sexismo, misoginia, LGBTfobia, sectarismo religioso, capacitismo, xenofobia e preconceito de classe continuam a ferir a dignidade humana. Combater essas práticas exige mais do que discursos: requer coragem, respeito, educação e empatia para enfrentar as marcas deixadas pela crueldade do passado colonizador.

 

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja transformar memória em aprendizado. Conhecer o passado não significa permanecer preso a ele, mas impedir que suas injustiças se repitam. Que chegue o dia em que ninguém precise sentir o peso da colonização sobre sua identidade. E que nenhum cidadão, em qualquer parte do mundo, abaixe a cabeça constrangido ao ouvir o hino do país que um dia sequestrou, escravizou e dominou seus ancestrais.

 

Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.

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