28.08.2021 | 09h32
Reprodução
Sim, vivemos tempos difíceis e a internet tem assumido um papel controverso em nossos dias. Assolados por uma pandemia que, dentre tantos impactos, fez do home office o trono mais seguro para a manutenção dos empregos e da videoconferência o canal mais adequado para a convivência social, a internet se efetivou como a protagonista da Era. Não que essa seja uma notícia surpreendente.
O que chama a atenção mesmo é o papel adoecedor atribuído à essa ferramenta. Da mesma forma que a mídia já foi coroada como vilã desse espetáculo social que vivemos, concentramos agora na internet a responsabilidade por todos os danos virtuais e físicos decorrentes do comportamento violento de seus usuários. O que não podemos esquecer é que, antes de usuários, somos pessoas. Antes do IP, temos um RG e é necessário que questões como "a toxicidade da internet" não deixem de abordar o fator humano.
O excesso de tempo em tela tem prejudicado não só a saúde física, mas sobretudo a mental. A horizontalidade das relações virtuais e o empoderamento dos usuários possibilita que as redes sociais ampliem o alcance de questões pautadas individualmente para repercussões coletivas. Cobranças de posicionamento público se transformam em boicotes e linchamentos virtuais na velocidade da luz. O ganho ou a perda de engajamento gera ataques e exposeds. Discordâncias de opinião resultam em ameaças de morte.
Pedimos empatia com a mesma força que culpamos a internet por tudo e, dessa forma, ignoramos nossa parcela de culpa na manutenção desse sistema como um todo. Nosso pedido não tem eco, não tem ouvinte. Afinal, não se trata da Internet personificada como imaginamos. É urgente observar os fatos e aceitar que as redes sociais não são tóxicas. O algoritmo não é um robô que faz a gente de marionete. A mídia não é uma caixa de pandora alienígena que veio destruir o planeta e precisa ser combatida. A responsabilidade pelas decisões e pelas consequências de qualquer canal de comunicação é humana.
Quem configurou o algoritmo que valoriza mais a bunda do que o rosto é humano. Quem decidiu entregar mais conteúdo de gente branca e magra foi um ser humano. Os conteúdos compartilhados nas redes que consideramos tóxicos não surgiram do nada, foi preciso alguém para postar e foi preciso mais gente ainda pra dar visibilidade e alcance. Foi preciso que alguém mantivesse esse conteúdo no ar, mesmo que com denúncias. Quem permite a veiculação de todas essas informações e desinformações, é claro, são seres humanos. Aliás, grandes grupos humanos. Grandes corporações e empresas.
Se a gente perpetua a ideia de que o problema está na internet, na mídia ou no algoritmo como se eles fossem soberanos ao contexto social, é fácil demais ver os responsáveis por tudo isso se eximir da carga que geraram. Se a gente acha que tudo isso se resume a conceitos subjetivos e irreais, não tem margem para mudança. A gente se coloca refém de algo inanimado, sem vontade própria, sem humanidade. Apesar de vivermos dias caóticos, essa não é a revolução das máquinas! Não há robô controlando nossas vidas, não há chips nos nossos braços e esse aqui não é O show de Truman.
Se transformamos a internet num tribunal, precisamos sair do confortável lugar de júri popular e assumir, sempre que necessário, a cadeira de réu. As decisões são humanas e a mudança também. Se permanecermos desumanizando questões absolutamente humanas, a chance de revertermos a situação a que estamos submetidos é mínima.
Seus comentários inconvenientes, maldosos e preconceituosos estão em completa sintonia com o aumento da depressão e de suicídio, principalmente nos mais jovens. Transformar tudo em piada e reproduzir memes opressivos podem acabar com a vida de alguém. Melhor perder a piada, né!?
Ainda que seja mais difícil e dê muito mais trabalho pra aceitar, essa é a realidade. Qual o sentido de lutar contra um vilão que está seguramente abrigado dentro de nós? No fim das contas, a maior batalha ainda é interna. Que sigamos conscientes e despertos sobre o peso das nossas ações, mesmo as mínimas.
Ariane Fortes Ribeiro é planner publicitária e redatora criativa.
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