11.04.2004 | 03h00
Por muitos anos, a simples pronúncia do nome de Jece Valadão indicava que o assunto da conversa era sacanagem. Homens com o mesmo comportamento "sem vergonha" dos personagens encarnados pelo ator, nascido em 1930 no Rio de Janeiro, eram comparados a Jece, e o ator não escondia que sua vida real era muito semelhante à dos personagens do cinema: muita mulher, festa e bebedeira.
Hoje, o "ex-cafajeste", nascido Gecy Valadão, é um senhor sossegado de 73 anos, depois de cinco casamentos, cinco filhos reconhecidos e uma famosa conversão ao Evangelho. "Foi através da Vera Gimenez, minha quarta mulher, que me converti. Brigávamos muito por causa do pagamento da pensão alimentícia e ela sugeriu que eu, até então um ateu por convicção intelectual, procurasse um pastor para me acalmar. O arrebatamento foi imediato e, dias depois, já havia sido batizado pelo Espírito Santo", lembra o ator.
Ao contrário das bonitonas evangélicas que se arrependem de posar nuas, ele não tem vergonha da época de farra. "A conversão foi sutil, maravilhosa, e aconteceu numa fase maravilhosa da minha vida: tinha dinheiro, companhia de mulheres maravilhosas e muito champanhe francês", conta divertido e aparentemente sem saudades.
Jece, que começou a carreira no rádio - na época em que nem existia televisão no Brasil - só tem uma coisa em comum com a imagem que o tornou famoso: o bom humor. Aquela pose toda de machão foi, ao mesmo tempo, um estigma e uma benção em sua carreira, já que seus melhores papéis no cinema foram todos de machões: Rio 40 Graus, Boca de Ouro, os dois dirigidos por Nelson Pereira dos Santos e
"O auge da minha carreira foi em Berlim, 1964, quando eu e Norma Bengell fomos aplaudidos de pé por Os Cafajestes, até então massacrado pela crítica brasileira", relembra.
Sem Saudades - Mesmo com 106 filmes, 35 prêmios (três deles internacionais) e meia dúzia de novelas ("não gosto de televisão massacra o ator"), em 54 anos de carreira, Jece jura não sentir saudades das telas.
Até porque agora, nove anos depois de ter deixado o cinema, produz e dirige um filme, cujo lançamento prevê para 2005. "O Dia do Juízo Final" (título provisório) conta a vida do apóstolo Paulo de Tarso. Com quem, aliás, Jece concluiu ter algumas semelhanças, "guardadas as devidas proporções".
Das duas paixões da vida de Jece, mulher e uísque ("nessa ordem"), apenas a primeira continua presente. O ator largou a bebida, o cigarro e diz que hoje prefere conquistar a mesma mulher, Vera Lúcia Valadão, todos os dias. "Diferente do passado em que eu tinha a oficial, a amante e mais uns casos."
Seu atual ganha-pão (não mais "ganha-uísque", como no passado) é como pastor evangélico consagrado da Assembléia de Deus do Bom Retiro."Também viajo pelo mundo pregando, dando testemunhos de vida e palestras", diz Jece, que jura não se arrepender do passado. "Arrisquei minha vida todos os dias, tripudiando as pessoas. Hoje conheço a verdade e me sinto mais livre e feliz do que nunca", assegura.
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