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Deu em A Gazeta 21.09.2019 | 08h01

800 toneladas de lixo vão poluir rios e provocar enchentes

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Dantielle Venturini

redacao@gazetadigital.com.br

Marcus Vaillant

Marcus Vaillant

Após o mais longo período de estiagem nas últimas décadas, as chuvas na Capital, esperadas para o início de outubro, vão levar cerca de 800 toneladas de lixo para os rios na Baixada Cuiabana. Todo esse lixo está acumulado em córregos, bocas de lobo e espalhados nas ruas da cidade e terão como destino final o Pantanal. Ao menos 13 municípios, que margeiam o Rio Cuiabá, contribuem com essa poluição, porém, Cuiabá e Várzea Grande são responsáveis por cerca de 80%. Além disso, os alagamentos vão voltar a ocorrer.

 

Na Capital, dados do Plano Municipal de Saneamento Básico dos municípios do Estado, revelam que o índice de residências ligadas à rede de esgoto é de 66,6%. Ou seja, 33,4% domicílios têm o esgoto despejado em córregos ou outros lugares impróprios. O lixo produzido diariamente gira em torno de 600 toneladas e a Secretaria de Serviços Urbanos conta apenas com 12 profissionais para realizar a limpeza nos córregos, que ocorre, em média, duas vezes ao ano em cada um deles.

Com essa realidade, é comum encontrar as margens dos córregos tomadas por garrafas plásticas, sacolas, utensílios domésticos, entulhos e até animais mortos. Todo esse cenário causa não apenas a poluição das águas, como ainda a mortandade de peixes e a destruição da fauna e da flora.

 

Mestre em Ambiente e Desenvolvimento Regional, professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Rubem Mauro Palma de Moura afirma que 50% do lixo despejados nas ruas da Capital e que deixam de ser recolhidos pelos órgãos públicos competentes, têm como destino final a região do Pantanal. Metade desse lixo é composto por matéria orgânica, 15% são materiais flutuantes e 35% materiais pesados, ou seja, podem ficar no fundo do rio.

 

Para o professor, além da falta de ação do poder público no que diz respeito ao saneamento das cidades, há também um problema muito sério de educação ambiental. Não há como eximir o poder público do seu papel, onde tem falhado, mas também é necessário reconhecer que a população não cumpre sua obrigação e não respeita o meio ambiente.

 

Rubem Mauro ressalta que todos que jogam lixo nas ruas, nos córregos, nos rios, estão cansados de saber que é errado, é um crime ambiental e que tem graves consequências para todos.

 

No córrego Gumitá, trecho que passa pela rua 8, no bairro Vila Rosa, em Cuiabá, a falta de responsabilidade e consciência ambiental da população é evidente. Os próprios moradores admitem jogar o lixo produzido em suas casas dentro do córrego. As margens do córrego estão destruídas e cheias de entulhos e lixo, que quando alcançados pelas primeiras chuvas vão se unir às diversas sacolas que já estão dentro.

 

A desculpa usada pelos moradores é a de que não há coleta de lixo na rua e eles não têm alternativa a não ser as águas do córrego.

 

O ictiólogo e professor Francisco de Arruda Machado também concorda que a realidade encontrada nos rios, especialmente após um longo período de estiagem, reflete a falta de investimentos da cidade em saneamento básico e a falta de consciência da sociedade em relação aos graves problemas que essa situação traz para o meio ambiente e ecossistema. Temos esses dois pontos. Existe a falta de avanços no saneamento, mas também existe a população que não faz a sua parte.

 

O professor lembra que com a grande quantidade de lixo levada pelas águas das chuvas para os rios, vão também produtos químicos e dejetos causando assim a perda de vegetação nas margens do rio e o assoreamento, refletindo na perda de um ambiente saudável para os peixes. Infelizmente é o que temos visto acontecer. Muitos peixes morrem devido a toda essa poluição, que causa ainda a diminuição do nível dos rios.

 

No bairro Alvorada o pintor Ângelo da Silva, 60, se recorda de como era o córrego Quarta-feira. Morando há 23 anos no mesmo local, conta que quando chegou ao bairro as águas do córrego eram cristalinas. Dava para a gente beber. Tinha peixe grande e até lambari.

 

Hoje, com o retrato da poluição, ele tem consciência de que grande parte da responsabilidade é de quem mora na região. Está dessa forma porque tem muito morador que não liga, não respeita e descarta lixo por aqui.

 

Para os especialistas talvez a solução seja a fiscalização e punição. De acordo com eles é preciso pensar formas de monitorar esses locais, conscientizar moradores, presidentes de bairros para denúncias e flagrantes. Outra forma é tentar identificar, às vezes até pelo próprio lixo, quem está jogando e punir. Não há que se falar em falta de informação. Todos sabem. Então, agora é necessário fazer com que respeitem, avalia Rubem Mauro.

 

Outro lado

Secretário de Obras de Cuiabá, Vanderlúcio Rodrigues afirmou que a secretaria realiza diariamente um trabalho de limpeza das bocas de lobo e bueiros em toda a cidade, com um reforço especial nos pontos mais problemáticos de alagamentos, como na avenida Tenente Coronel Duarte (Prainha) e na avenida da Flores, no Jardim Cuiabá. Mas admite que o trabalho não é suficiente para garantir que os alagamentos não se repitam quando as chuvas iniciarem, ressaltando que não basta apenas ao poder público cumprir com sua parte, mas também que a população colabore com a limpeza da cidade. Se eu limpo, retiro todo o lixo dali, mas as pessoas continuam jogando lixo nas calçadas, nas ruas. Quando chover a água vai levar o lixo e as bocas de lobo vão entupir novamente.

 

Secretaria de Serviços Urbanos afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que no período pré-chuvoso a atenção nos trabalhos é voltada principalmente para os córregos do Gambá, Barbado e Gumitá. Atualmente a equipe trabalha no córrego

do Barbado, na região dos bairros Canjica e Dom Bosco.

 

A pasta ressaltou ainda que de acordo com o artigo 54 da Lei Federal 9.605/98, que trata dos crimes ambientais, o cidadão que causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora está passível à pena de 4 anos de reclusão e multa.

 

O trabalho de fiscalização é feito pela Secretaria de Ordem Pública e denúncias podem ser feitas pelo telefone 3616-9614.

 

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