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'Geração Sanduíche' 26.09.2026 | 17h00

Adultos enfrentam dupla jornada de cuidados com pais e filhos

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Chris Oliveira

redacao@gazetadigital

Chrislayne Vitória

Christiane

 

Enquanto os filhos ainda precisam de atenção, pais envelhecem e passam a depender cada vez mais dos próprios filhos. Aos 47 anos, a pedagoga Christiane Gonçalves Nascimento aprendeu a dividir o coração e a rotina entre duas gerações. De um lado, os filhos, que ainda precisam de orientação, paciência e presença; já do outro, a mãe, que, com o passar dos anos, começou a precisar de cuidados e acompanhamento. No meio deles está uma mulher que tenta dar conta de todos e, muitas vezes, deixa a si mesma para depois.

 

A realidade vivida por Christiane é conhecida como geração sanduíche, expressão usada para definir adultos que cuidam dos filhos ao mesmo tempo em que acompanham ou cuidam dos pais que estão envelhecendo.

 

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E o cenário que coloca essas famílias diante de novos desafios está mudando rapidamente no Brasil. Segundo o IBGE, o país tinha 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2024, contra cerca de 22 milhões em 2012. Em 12 anos, o número de idosos cresceu 53,3%. (IBGE)

 

O envelhecimento também aparece no Censo 2022. Naquele ano, eram 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em 2010, eram 20,6 milhões, ou 10,8%. Ao mesmo tempo, a parcela de crianças de até 14 anos caiu de 38,2% em 1980 para 19,8% em 2022. (IBGE)

 

Ou seja, enquanto o país envelhece, as famílias também passam a conviver com uma estrutura diferente daquela de décadas atrás.

 

Uma rotina dividida entre duas gerações

Para Christiane, cuidar dos filhos é um presente. Já cuidar da mãe representa uma oportunidade de retribuir o que recebeu durante a vida. “Cuidar da minha mãe Maria José é uma dádiva, uma honra e um privilégio, por agora poder contribuir com tudo que fez por mim”, afirma Cheistiane Gonçalves.

 

Na relação com os filhos, especialmente durante a adolescência, ela procura oferecer paciência, conselhos e orientação,

“O mais desafiador é poder cuidar sabendo que pode errar a qualquer momento, mas tem o seu lado mais que especial, único: é saber que tudo que você faz é por amor”, conta Christiane Gonçalves.

 

A fé também se tornou uma forma de enfrentar os momentos mais difíceis. Christiane diz que muitas vezes pede proteção a Deus para conseguir lidar com as responsabilidades. Quando questionada sobre o próprio cuidado, porém, a resposta revela uma realidade comum entre quem ocupa esse lugar na família. “Muitas das vezes, não. Quero cuidar deles primeiro, depois, se sobrar tempo, cuido de mim”, fala Christiane.

 

Quando os papéis começam a mudar

Karla de Oliveira

Karla de Oliveira

 

Aos 50 anos, a analista financeira Karla de Oliveira Nascimento também vive essa experiência, para ela, cuidar do filho e dos pais representa uma continuidade do cuidado que atravessa gerações. “Somos frutos de pessoas que vêm, em geração, dedicando ao cuidado da família”, explica Karla de Oliveira.

 

Karla percebeu que os pais começaram a precisar mais da sua presença depois que o irmão mais novo se casou. Alguns esquecimentos e situações que passaram a exigir acompanhamento fizeram com que ela passasse a estar mais presente.

 

Cuidar de quem um dia cuidou dela traz um sentimento de gratidão. “Vivi muito tempo vendo a dedicação deles e agora chegou a minha vez de retribuir”, conta Karla de Oliveira.

 

A maior dificuldade, porém, está no tempo. Entre trabalho, filho, pais e as demais tarefas do cotidiano, nem sempre é possível estar em todos os lugares. “Difícil, sem dúvida, é o tempo e a correria do dia a dia. Especial é poder realizar isso”, afirma Karla de Oliveira.

 

A culpa também aparece. Karla admite que muitas vezes sente que não consegue dar conta de tudo, mas encontrou na terapia uma forma de compreender que não precisa carregar todas as responsabilidades sozinha. “Fazer terapia me ajuda a entender que não tenho que dar conta de tudo”, relata Karla.

 

Mesmo assim, o autocuidado ainda ocupa pouco espaço na rotina. “Um pouco… talvez menos que gostaria.”

 

O Brasil que envelhece

Os números ajudam a explicar por que situações como as vividas por Christiane e Karla tendem a fazer parte cada vez mais da realidade das famílias.

 

O índice de envelhecimento registrado pelo Censo 2022 chegou a 80 idosos para cada 100 crianças de até 14 anos. Em 2010, eram 44,8 idosos para cada 100 crianças. (IBGE)

 

A projeção também aponta para uma mudança ainda maior. Segundo o IBGE, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais, que era de 15,6% em 2023, poderá chegar a 37,8% em 2070. A taxa de fecundidade, por outro lado, caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000 para 1,57 em 2023. (Educa IBGE)

 

Com menos filhos e uma população vivendo mais, a própria rede familiar de cuidado também passa por transformações. É nesse cenário que adultos podem acabar ocupando simultaneamente os papéis de filhos, pais, cuidadores e profissionais.

 

Quem cuida também precisa de cuidado

Para a psicanalista Dra. Kalyan Paes de Barros: “É como se essa pessoa estivesse entre duas gerações que precisam dela”, explica Dra. Kalyan Paes.

 

Segundo a especialista, essa posição pode provocar uma sensação constante de estar dividida, a pessoa olha para os filhos e pensa que precisa estar presente. Ao mesmo tempo, percebe que os pais também precisam dela.

 

E, nesse processo, pode acabar ficando por último. “Ela cuida, resolve, organiza, acolhe… mas muitas vezes não tem espaço para dizer: ‘Eu também estou cansada’”, afirma Dra. Kalyan Paes.

 

“Estou fazendo o suficiente pelos meus filhos? Estou cuidando suficientemente dos meus pais? Será que estou sendo uma boa filha?”, exemplifica Kalyan.

 

Para a psicanalista, reconhecer esses sentimentos é importante porque o problema não está em cuidar de quem se ama, mas em acreditar que é preciso fazer tudo sozinho.

 

Quando o cuidado começa a pesar

O alerta aparece quando o cansaço deixa de ser apenas físico e começa a ocupar também o emocional. Irritação frequente, isolamento, dificuldade para dormir, preocupação constante e a sensação de nunca fazer o suficiente estão entre os sinais que merecem atenção.

 

Outro ponto é quando a pessoa deixa de cuidar da própria vida, abandona atividades que gostava e passa a viver exclusivamente em função das necessidades dos outros.

 

“Quando percebe que está sobrevivendo em vez de viver, é importante parar e olhar para isso”, orienta Dra. Kalyan Paes.

 

Pedir ajuda não significa deixar de cuidar dos outros. Pelo contrário: dividir responsabilidades e construir uma rede de apoio que também pode ser uma maneira de continuar presente para a família.

 

“Cuidar de si não é egoísmo. Também é uma forma de continuar presente para aqueles que você ama.”

 

Uma nova forma de estar em família

O envelhecimento dos pais também modifica a relação familiar. Para Karla, a fase trouxe mais proximidade, troca de papéis e aprendizado.

 

Christiane, por sua vez, encara o cuidado como uma forma de amor e gratidão.

 

Para a psicóloga, é justamente essa mudança que precisa ser compreendida: os pais continuam sendo pais, mas a relação passa a exigir uma nova dinâmica. “Não significa deixar de ser filha ou filho. Significa construir uma nova forma de estar nessa relação”, explica Dra. Kalyan Paes.

 

Entre filhos que ainda precisam de orientação e pais que agora precisam de apoio, a geração sanduíche aprende diariamente a equilibrar responsabilidades que nem sempre cabem em uma única pessoa. E, no meio dessas duas gerações, existe alguém que também precisa ser lembrado: quem cuida.

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