No quintal de casa 22.05.2026 | 08h31

redacao@gazetadigital.com.br
Agência Brasil
No quintal de uma casa em Chapada dos Guimarães, um vai e vem constante chama a atenção de quem mora na região. Ali, entre flores, árvores e caixas de madeira, centenas de abelhas se cruzam no ar todos os dias, numa perfeita sintonia silenciosa. Cada espécie reconhece exatamente a sua própria casinha, cenário que há mais de uma década se tornou parte da rotina da professora e apicultora Márcia Venâncio.
No Dia do Apicultor, celebrado neste 22 de maio, a história da educadora revela uma relação construída na convivência diária com espécies de abelhas sem ferrão, guiada pelo afeto, pela observação e um desejo único, a preservação de espécies pouco conhecidas.
Toda essa paixão começou com uma Jataí. A pequena abelha sem ferrão apareceu em um pé de aroeira na varanda da casa de Márcia. O enxame estava tão próximo da área da residência que ela temeu jogar água ou acabar prejudicando-a. Foi então que decidiu improvisar uma pequena caixa para abrigá-las.
“Eu fiquei com dó. Retirei e coloquei ela numa caixinha. Então passei a colocar iscas pra atrair enxames. Foi pela Jataí que veio o gosto pelas outras espécies”, relembra.
E dessa curiosidade nasceu o estudo. Sem acesso fácil a cursos ou referências sobre como criar abelhas sem ferrão, Márcia foi aprendendo sozinha, observando o comportamento das colmeias e pesquisando sobre meliponicultura, também conhecidas como melíponas.
Hoje, além das colmeias no jardim de casa, ela cria a abelha africanizada, com ferrão, em sua propriedade rural. Porém, é no quintal da sua casa em Chapada, que Márcia convive e cuida das abelhas quase como membros da família. Há Jataí, Borá, Marmelada e outras variedades nativas, cada uma com comportamento, cheiro e características próprias.
“Quando vejo um tumulto nas caixas aqui no jardim, eu sei identificar pelo cheiro qual espécie está ali. Eu conheço o cheiro da Marmelada e da Borá”, conta, enquanto manuseia cuidadosamente uma pequena caixa colmeia.
O cuidado exige observação constante. Márcia explica que cada espécie precisa de um tipo de caixa diferente, respeitando o tamanho do enxame e a necessidade de temperatura interna. Algumas precisam de mais espaço para expansão da rainha; outras sofrem no frio se a caixa estiver grande demais.“Tudo isso eu fui aprendendo convivendo com elas, estudando, pesquisando, tentando aqui e ali”, diz.
Entre as espécies que mais marcaram sua trajetória está a rara Uruçu de Chão, considerada incomum na região. Determinada a provar que a espécie também existia em Chapada dos Guimarães, Márcia passou dias procurando ninhos em terrenos vazios, estudando formas de localização e até viajando para aprender técnicas de identificação.
“Eu queria mostrar que ela existia aqui também. Comecei a procurar em todo terreno vazio que encontrava”, lembra.Atualmente, Márcia afirma que seu trabalho não é focado apenas na produção de mel de melíponas. A criação virou também um trabalho de preservação e a educadora lamenta que as abelhas nativas ainda sejam pouco valorizadas, apesar da importância fundamental para a polinização e para a produção de alimentos.
“Sem abelha não existe alimento. E as nossas abelhas nativas ainda são pouco conhecidas. Falta pesquisa, falta incentivo”, afirma.
Na cozinha da casa, os vidros guardam méis de diferentes espécies, cada um com sabor, aroma e textura próprios. O mel da Borá, por exemplo, chama atenção de chefs de cozinha e pode alcançar alto valor gastronômico pela complexidade do sabor.
Além do mel, ela produz sabonetes e outros derivados, como hidromel. Mas faz questão de dizer que o trabalho dificilmente gera lucro proporcional ao investimento. “É muito mais amor do que retorno financeiro”, finaliza.
A dedicação de Márcia também é reconhecida pela assistência técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar MT), por meio do Sindicato Rural de Chapada dos Guimarães. A técnica Rafaeli Gonçalves acompanha a produtora por meio da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), voltada à criação da abelha africanizada (Apis melífera).
“Nossa assistência é voltada à Apis melífera, mas a Márcia agrega muito para nós técnicos com as melíponas. É uma produtora com enorme potencial, muito dedicada. Mesmo trabalhando principalmente com abelhas sem ferrão no quintal de casa, ela nos ajuda a compreender mais sobre esse universo”, diz Rafaeli.
No sítio onde cria mais de 20 caixas de abelhas africanizadas da espécie Apis mellifera, Márcia recebe o acompanhamento da ATeG. Além da produção de mel, a apicultora já planeja ampliar a atividade com a extração do veneno da abelha, conhecido como apitoxina, utilizado em pesquisas e terapias alternativas voltadas ao tratamento de dores, inflamações e doenças articulares.
“É um sonho meu também, auxiliar a área farmacêutica e cosmética, e explorar essas outras possibilidades que agregam valor à produção apícola e abre novas possibilidades de renda no campo”, conta Márcia.
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