RESISTÊNCIA 12.04.2026 | 14h00

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UFMT
“A pessoas não entendem que isso aqui é um marco histórico, e quem veio depois, até eu vim depois, e é preciso compreender a história desse espaço, a história do espaço que tem um poço que vai de 25 a 30 metros e pega o lençol freático, e quem construiu esse poço com pedra canga? Então é preciso entender também quais mãos e pernas que fizeram a construção desse centro histórico que resiste até hoje, porque as telhas de colcha foram feitas pelos nossos ancestrais, todos os fósseis de artesanato que foram encontrados aqui são de mulheres negras, foram as nossas ancestrais que construíram. E nós não estamos aqui para tomar espaço, não existe tomar espaço, nós somos um povo só, e entendendo que somos um povo só, mas um povo só diverso, a gente muda a história”, revelou a Fundadora e presidente da Casa das Pretas e do IMUNE, Antonieta Luísa Costa, 58 anos, ao falar sobre o Centro Cultural Casa das Pretas.
A casa emerge no coração do centro histórico de Cuiabá, na Praça da Mandioca, um casarão centenário restaurado que abriga mais que atividades culturais: guarda memórias, reconta silêncios e reafirma presenças, e se consolidou como um dos principais ambientes de valorização da cultura afro-brasileira em Mato Grosso, reunindo arte, formação, empreendedorismo e pertencimento.
Mantida pelo Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (IMUNE), a Casa nasceu oficialmente em 3 de outubro de 2020, mas carrega uma trajetória que atravessa décadas. Sua origem dialoga com a atuação histórica do movimento negro no estado, na década de 80, quando maiores articulações passaram a enfrentar o racismo estrutural e a reivindicar visibilidade, direitos e memória.
Cada detalhe do espaço foi pensado como instrumento de educação e afirmação. Das paredes pintadas por artistas plásticos de Cuiabá à decoração e às exposições permanentes, tudo remete à cultura negra no Brasil, à força das mulheres negras e às religiões de matriz africana. O imóvel, por si só, também fala. E fala alto.
A Casa das Pretas reúne diferentes frentes de atuação. No local, funcionam a Afroteca Carolina Maria de Jesus, dedicada à leitura e à preservação da memória, oficinas de corte e costura, confecção de bonecas e bijuterias, além de um salão de beleza especializado em tranças e penteados afro. No quintal, o espaço se abre para festas, rodas de conversa e encontros coletivos. Outras salas recebem exposições, formações artísticas e até iniciativas de afroempreendedorismo, em um modelo de “afro coworking”, com salas sublocadas para profissionais negras e negros desenvolverem negócios criativos e colaborativos.
Também à noite a casa permanece pulsando. Às segundas-feiras, o som dos tambores marca as aulas de percussão; às terças, o maracatu toma conta do espaço; às quartas, os ensaios de dança movimentam o casarão. A programação é divulgada pelo Instagram @casadaspretasmt.
A Professora Antonieta Luísa Costa, 58 que conta com pós-graduação em Educação Integral e Educação para Relações Étnico-Raciais, ex-presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial e conselheira estadual de educação em 2017, destaca que o endereço da instituição carrega um peso histórico profundo — e doloroso.
“A gente veio para este local e não sabia que aqui foi um mercado de escravos. Nessas salas ficavam nossos ancestrais, homens, mulheres, crianças, e eram vendidos nessa praça que fica aqui em frente, que antigamente era o pelourinho de Cuiabá. As pessoas não compreendem que colocaram uma placa nessa praça, ao qual nós tivemos que denunciara placa racista, porque as pessoas o significado e a importância de um apagamento histórico, uma placa que exaltava o Conde de Azambuja e ao mesmo tempo colocava a comunidade negra que sofria na escravidão como criminosos, como infratores da lei, então nós precisamos conhecer a história. “
Para Antonieta, ocupar esse espaço é também disputar narrativas. Em um tempo em que o debate racial ganha mais ferramentas de reflexão, ela observa que há hoje mais acesso a livros, materiais de letramento racial e instrumentos para revisitar a história sob outra perspectiva, mais próxima da verdade, menos marcada pelo apagamento.
Mais do que um centro cultural, a Casa das Pretas se tornou um território de permanência. Em um ponto da cidade onde a história oficial por muito tempo tentou esconder a violência da escravidão, o espaço hoje devolve rosto, voz e dignidade a quem ajudou a construir Cuiabá. Entre livros, tambores, tranças, costuras e memórias, a casa reergue o passado para abrir caminhos no presente.
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