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Cuiabá, Domingo 21/06/2026

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JUNHO VIOLETA 21.06.2026 | 17h00

Casos de violência contra idosos quase triplicam em MT e alertam para necessidade de proteção

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Laisa Stofel

laisa@gazetadigital

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A campanha "Junho Violeta", sob o tema "A liberdade não tem prazo de validade", ganha urgência em Mato Grosso diante de um cenário de alerta, visto que as notificações de violência contra idosos triplicaram no estado em uma década. Dados do Atlas da Violência mostram que os registros nos serviços de saúde saltaram de 59 casos em 2014 para 174 em 2024.

 

O avanço joga luz sobre o principal objetivo da mobilização, que é romper o silêncio em torno dos abusos na velhice, crimes ocorridos majoritariamente de forma oculta no ambiente familiar. Segundo especialistas, esse crescimento reflete tanto o envelhecimento acelerado da população, impulsionado pela transição demográfica do IBGE, quanto uma postura mais ativa da rede de saúde em reportar os casos pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

 

O comportamento desses dados na última década mostra o isolamento social enfrentado por essa população. Entre 2014 e 2015, Mato Grosso manteve média de 59 notificações anuais, mas, no ápice da pandemia em 2020, o número subiu para 63, refletindo o confinamento forçado das vítimas com seus agressores e o afastamento dos serviços de saúde. Com a retomada das atividades, a curva disparou até atingir o teto histórico em 2024, panorama que se repete no cenário nacional, onde houve alta de 226,3% na década, ultrapassando os 30 mil casos.

 

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Na capital, os impactos dessa realidade são observados diariamente pela rede socioassistencial do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), conforme avalia a secretária municipal de Assistência Social, Direitos Humanos e Inclusão de Cuiabá, Hélida Vilela de Oliveira.

 

"Muitos idosos chegam aos serviços em situação de fragilidade, isolamento, rompimento de vínculos familiares, ausência de cuidados e, em alguns casos, sem qualquer referência familiar capaz de exercer a função protetiva", pontua a secretária.

 

A atuação do município divide-se entre a prevenção de riscos e o atendimento especializado às violações instaladas. Na linha de frente preventiva, a Proteção Social Básica atua por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e dos Centros de Convivência para Idosos (CCI).

 

Ministério Público de Mato Grosso

Visita ao Abrigo Bom Jesus

Visita ao Abrigo Bom Jesus.

No primeiro trimestre de 2026, Cuiabá registrou 189 idosos no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) nos CRAS e 1.104 participantes nos CCIs, além de realizar 1.679 emissões da Carteira da Pessoa Idosa. Hélida Vilela de Oliveira aponta que o convívio social funciona como um escudo protetor para a terceira idade.

 

"A convivência comunitária tem impacto direto no enfrentamento à violência. Idosos que participam de grupos têm mais oportunidades de serem vistos e ouvidos, o que facilita a identificação precoce de mudanças de comportamento, sinais de abandono ou exploração financeira", explica Hélida.

 

Quando a violência se concretiza, os casos vão para a Proteção Social Especial de Média Complexidade, via Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS). O diagnóstico local é alarmante, pois, no primeiro trimestre de 2026, dos idosos acompanhados pelo Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI) na capital, 92,9% são relativos a situações de negligência ou abandono, enquanto 7,1% envolvem violência intrafamiliar física, psicológica ou sexual.

 

O abuso contra idosos também se manifesta de forma estrutural e velada, associado à perda de autonomia e à falta de suporte. Um raio-x da rede municipal aponta que, entre os idosos que aguardam vaga em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) em Cuiabá, 62,5% possuem autonomia parcial, 14,8% estão acamados e apenas 22,7% apresentam autonomia total.

 

A vulnerabilidade habitacional e familiar desses idosos da fila de espera também demonstra insegurança, já que 44% residem com familiares sem a proteção necessária e 28,4% moram sozinhos. Outros 14,8% estão em situação de rua, 6,8% vivem em casas de apoio, 5,7% em casas de amigos e 3% encontram-se internados.

Ministério Público de Mato Grosso

Visita ao Abrigo Bom Jesus

Visita ao Abrigo Bom Jesus

 

Nos casos graves de risco iminente ou abandono, a Alta Complexidade entra com o acolhimento institucional. No primeiro trimestre de 2026, foram 193 acolhimentos em unidades para adultos e famílias em Cuiabá, além de 100 idosos assistidos na ILPI por meio de parceria com o tradicional Abrigo Bom Jesus. A realidade institucional, contudo, revela que os reflexos do abandono e da violência financeira sobrecarregam as entidades filantrópicas que atuam na ponta, conforme relata a presidente da fundação, Márcia Ferreira.

 

"Hoje o Abrigo tem 100 idosos. Desses 100 idosos, eu diria que 99% é fruto do abandono. Do abandono familiar e, por conseguinte, então a violência desse abandono, né? E essa violência, não é só uma violência familiar. Cerca de 10% dos nossos idosos têm empréstimos consignados. Então, também é uma violência financeira. Bancos que usam do celular do idoso, ou o familiar que pega o cartão do idoso, vai ao banco sem a presença do idoso e faz o empréstimo consignado", detalha.

 

A presidente do abrigo aponta que, além do abuso financeiro e do abandono, existe uma terceira vertente que ela classifica como a "violência do poder público", gerada pela lentidão na liberação de recursos voltados ao setor. Segundo Márcia, mais de R$ 5 milhões decorrentes de renúncia fiscal de grandes empresas, como a Energisa e o Grupo Bom Futuro, estão parados nos fundos estadual e municipal do idoso por falta de publicação de editais de chamamento público, ao passo que a fila de espera por uma vaga de acolhimento no próprio Abrigo Bom Jesus já soma 89 idosos.

 

Diante disso, o grande desafio coletivo é romper a barreira da subnotificação, gerada pelo medo de retaliações ou pela dependência emocional e financeira que a vítima possui do agressor. O Junho Violeta reforça que envelhecer com dignidade e autonomia é um direito humano fundamental. A responsabilidade de proteger a população idosa não é exclusiva do Estado ou da vítima, mas de toda a sociedade.

 

Ao presenciar qualquer sinal de maus-tratos, exploração patrimonial ou isolamento de um idoso, a orientação das autoridades é acionar imediatamente os canais de ajuda, como o Disque 100, que é gratuito e funciona 24 horas, delegacias de polícia, Ministério Público ou as unidades locais do CRAS e do CREAS, sendo a denúncia consciente a ferramenta mais eficaz para quebrar o ciclo de violência.

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