04.10.2007 | 03h00
Daqui a 20 anos, Cuiabá estará numa região imprópria para qualquer atividade. As condições geográficas e naturais, aliadas à destruição da vegetação, poluição dos rios e córregos, queimadas urbanas, emissão de gases tóxicos por veículos e a baixa umidade relativa do ar transformarão a vida das pessoas num verdadeiro suplício. O número de doenças respiratórias será cada vez maior e mais precoce, levando a mortes principalmente crianças de zero a cinco anos.
As informações fazem parte da tese de mestrado do presidente da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia (regional Mato Grosso), Celso Taques Saldanha, que apresentará o estudo pioneiro ao país durante o 34º congresso da área na Costa do Sauípe, na Bahia, entre os dias 27 e 31 deste mês. Esse é o primeiro trabalho que relaciona diretamente os efeitos das queimadas com o surgimento de doenças imunológicas, como asma e bronquites em geral na Capital de Mato Grosso. "A comprovação científica dá um norte ao poder público, porque precisamos de intervenções urgentes".
O pesquisador explica que o primeiro passo para entender o que está acontecendo é saber que a cidade fica numa região chamada "depressão cuiabana", engloba outros 10 municípios, entre eles Várzea Grande, Poconé, Rosário Oeste, Jangada, Nobres e Barão de Melgaço. A característica principal da área é ter baixa velocidade dos ventos, uma média de 1,49 metros por segundo (m/s) apenas, quando em Brasília são 4 m/s ou Fortaleza, com 8 m/s. "Talvez seja uma característica de lugares que compõe a Bacia Amazônica, porque em Rio Branco (AC) é menos de 1 m/s".
A incidência de pouco vento influencia diretamente na reciclagem do ar. Todo material proveniente das queimadas, em especial a biomassa, fica na atmosfera. Aliado aos demais poluentes, como nitrogênio, monóxido e dióxido de carbono (CO e CO2), acontece a formação do ozônio (O3), gás que estimula diretamente à formação de doenças no pulmão. Mesmo não tendo um parque industrial, o potencial de poluição do município é igual ao dos principais pólos do mundo. "Os caminhões pesados passam por aqui todos os dias e ninguém nunca calculou a quantidade de fumaça de óleo diesel que eles jogam no nosso ar. Na verdade, Mato Grosso parece terra de ninguém".
Seca - A estiagem acentua a hostilidade do clima, caracterizado por altas temperaturas e baixa umidade relativa do ar (URA). Na época da seca, que começa no mês de maio e vai geralmente até meados de setembro, a quantidade de chuva não chega a 30 milímetros (mm). Em junho e e julho, o registro é inferior a 5 mm ou até zero, quando a média dos demais meses é superior a 200 mm. Junto com a falta de chuva, existe ainda baixa altitude. Cuiabá está a 169 metros do nível do mar. Chapada dos Guimarães, por exemplo, está a quase 800 metros.
De cidade verde à cinza. Sem os quintais cuiabanos e muita verticalização, ou seja, número cada vez maior de prédios, a cidade sofreu com a formação de ilhas de calor, que potencializam a incidência dos raios solares, nesta época batizados de "ilhas secas". Saldanha explica que para a saúde o problema é crucial. O ar precisa chegar as vias aéreas inferiores (ou pulmões) com 75 a 85% de umidade, mas se a atmosfera está com índice inferior a 40% quem faz este trabalho são as narinas. "Por isso há ressecamento e sangramento".
Diante do quadro crítico, são necessários 3 litros extras de água para a realização do trabalho de umidificação pelo organismo, mas nem sempre é possível. Sem ela, os pelos que fazem a limpeza, jogam o ar bruto até os pulmões. Resultado: resfriados, pneumonias, infecção de ouvido, asmas e demais doenças respiratórias, pois as bactérias e vírus penetram facilmente. "Esse é o órgão que tem a maior área de contato com o ambiente, são de 75 a 82 metros quadrados de superfície que sofre diretamente com os impactos".
A pesquisa integra uma série de relatórios de uma equipe de pesquisadores coordenada pelo pneumologista Clóvis Botelho, reconhecidi no país pela atuação no meio ambiente. Pretende deixar claro que muita gente em Cuiabá tem a oportunidade de desenvolver doenças imunológicas, já que as questões climáticas funcionam como um "gatilho" na primeira infância.
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