SONHOS EM PÁGINAS 05.09.2026 | 15h00

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Antes dos livros, vieram as notícias. Antes das biografias, as grandes reportagens. E, muito antes de imaginar seu nome estampado na capa de uma obra, Martha Baptista já encontrava nas palavras uma forma de compreender o mundo. Aos 70 anos, completados em junho, a jornalista e escritora carrega uma trajetória construída entre redações, salas de aula, histórias de família e personagens reais que, pelas mãos dela, escaparam do esquecimento para ganhar páginas.
Nascida em Corumbá (MS) e moradora de Cuiabá há 23 anos, Martha Rita Baptista, que assina artisticamente como Martha Baptista, começou a escrever ainda menina, quando vivia no Rio de Janeiro. Tinha um caderno de redações e, aos 11 anos, uma certeza pouco comum para a idade: seria jornalista.
Era o fim dos anos 1960 e início dos 1970, período em que jornais e revistas tinham enorme presença na vida brasileira. Martha não sonhava com microfones ou câmeras. Queria o papel, a reportagem, a palavra impressa.
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O sonho da menina a levou a algumas das principais redações do país. Trabalhou em veículos como Última Hora, Jornal do Brasil e O Globo, além da sucursal da revista Veja. Produziu grandes reportagens e conquistou importantes premiações ao longo da carreira.
Mas sua história teria uma mudança de cenário digna das narrativas que, anos depois, passaria a escrever. Atraída pelo amor, Martha deixou para trás a vida que conhecia e foi morar em Cáceres, cidade natal de sua mãe, já falecida naquela época. No Pantanal, experimentou uma existência completamente diferente: tornou-se mulher de fazendeiro, teve duas filhas e tentou assumir a rotina de dona de casa.
Tentou. Porque a inquietação que a havia levado tão cedo ao jornalismo continuava ali. Martha voltou ao trabalho e passou a dar aulas de Literatura de Língua Inglesa no curso de Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), além de ensinar inglês e francês. E foi justamente nessa nova fase, em meados dos anos 1990, que uma senhora de quase 90 anos cruzou seu caminho e mudaria novamente sua relação com a escrita.
O nome dela era Estella Rodrigues Ambrósio. Dona Estella havia chegado a Cáceres no final da década de 1920 e guardava consigo não apenas as próprias lembranças, mas fragmentos de uma cidade inteira. Martha percebeu que aquela memória precisava sobreviver ao tempo.
Nascia ali sua primeira biografia: “Cantos de amor e saudade – a história de Cáceres contada através das lembranças de vó Stella”, publicada pela Entrelinhas Editora em 2005 e reeditada em 2025, com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT).
O encontro com dona Estella abriu uma nova estrada. Depois dela vieram livros sobre personagens, empresas, instituições e momentos importantes da história e do desenvolvimento de Mato Grosso.
Martha escreveu sobre os pioneiros que ajudaram a transformar o estado em potência na produção de algodão; contou a trajetória de André Maggi; registrou a participação mato-grossense na erradicação da febre aftosa nas Américas; percorreu os 30 anos do Senar Mato Grosso e os 40 anos do Grupo Bom Futuro, entre outros projetos.
Ao todo, são 7 livros de autoria própria, além da coparticipação em uma obra sobre os 70 anos da Sinfra em Mato Grosso.
Por trás dessa produção existe, porém, uma espécie de conflito literário que Martha ainda deseja vencer. Seu sonho é escrever ficção. O problema é que décadas de jornalismo a ensinaram a permanecer agarrada aos fatos.
“Escrever faz parte da minha vida e meu sonho é escrever um livro de ficção, porém, por conta de minhas origens no jornalismo, não consigo me desprender da realidade. Sou muito afeita aos fatos e a histórias de vida reais”, conta.
Talvez esteja justamente aí a assinatura de Martha Baptista: uma escritora que não precisa inventar personagens para encontrar grandes histórias. Ela os encontra vivendo.
Das leituras da infância aos autores de hoje
A formação literária de Martha começou cedo e atravessou estilos, países e gerações. Na infância, autores como Laura Ingalls Wilder, Maria José Dupré e Monteiro Lobato fizeram parte de seu universo.
Na adolescência, mergulhou nos clássicos brasileiros, entre eles José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos, mas desenvolveu uma paixão especial por Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço, e Lima Barreto.
Sua estante também ganhou Herman Hesse, Ernest Hemingway, Doris Lessing, George Orwell e Aldous Huxley.
Hoje, as biografias ocupam espaço especial entre suas preferências — com destaque para a obra de Ruy Castro —, embora Martha se defina como uma leitora eclética. O que mais a atrai são autores capazes de misturar realismo, olhar crítico e elementos de ficção e romance.
É um gosto que parece conversar diretamente com sua própria trajetória: a jornalista que aprendeu a perseguir fatos e a escritora que descobriu que, quando bem contada, a realidade pode ter a força de um romance.
Por Martha - 3 autores de Mato Grosso para conhecer
TEREZA ALBUES
Martha conta que se apaixonou pela obra da escritora depois de ler três livros reunidos em um box lançado pela Entrelinhas Editora, em 2022. Uma indicação para quem deseja mergulhar na literatura produzida a partir de Mato Grosso.
IVENS CUIABANO SCAFF
A poesia e a literatura infantojuvenil de Ivens estão entre as preferências de Martha. Ela também destaca a trilogia “Além Tordesilhas”, lançada pela Entrelinhas Editora em 2024.
J. N. R. FERREIRA
Mesmo sem ter o terror como gênero favorito, Martha diz ter sido impactada por “O Portão do Inferno – Casos Arquivados”, publicado pela Entrelinhas em 2021. A obra marca a estreia no romance do músico Jefferson Neves e aposta no thriller de terror para construir sua narrativa.
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