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06.11.2005 | 03h00

Geraldo Henrique da Costa, ilustre e desconhecido

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Aposto 10 contra 1 que a maioria dos leitores desta reportagem nunca ouviu falar de Geraldo Henrique Costa. A vida dele não motivou livro ou filme. Ele aparece em poucas fotos. Não ganhou dinheiro, nem fama. Não virou nome de escola, nem de rua ou de praça. Trabalhou no anonimato. É que o mundo branco ignora heróis negros e ele é um deles.

O único ícone nacional afro-descendente tratado como herói é Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, executado no ano de 1695, em 20 de novembro. Desde 1971, este é o Dia Nacional da Consciência Negra.

Fora Zumbi, mais ninguém.

Não é de se estranhar que na historiografia brasileira não haja qualquer outro herói negro tratado como tal, se quase a metade da população brasileira é composta de pessoas que trazem na pele a cor herdada da África?

É preciso conhecer Geraldo, o pioneiro do movimento negro em Mato Grosso, para saber o que é heroísmo anônimo. Como ele, deve haver muitos casos. Mas a gente não conhece, a história oficial esfumaça. Não são heróis avessos à kriptonita, como o fictício superman. Mas de carne e osso, que, no dia-a-dia, investem todas a fichas para verter o rumo da história, em nome de si mesmos, dos seus e da coletividade.

Geraldo tinha apenas 52 anos, quando morreu de acidente de carro, dia 24 de julho de 1990. "Seguia viagem para Vila Bela da Santíssima Trindade, para a tradicional festa do congo, quando o carro capotou", conta Guilherme Luis Costa, 40, um dos filhos dele. Não desmaiou, não ficou inconsciente, não se feriu. Foi para o hospital e teve alta. No entanto, uma semana depois, enquanto dormia, passou da vida à morte. No enterro, houve comoção geral. Autoridades e gente do povo, lideranças comunitárias, religiosos de toda fé, representantes de classes, vizinhos, amigos, despediram-se dele. Durante três meses, familiares contam que não paravam de chegar visitas, levando consolo aos filhos e à mulher daquele que a tantos consolou.

Quando era criança, Geraldo tinha uma dificuldade na fala. Ninguém diria que, adulto, se tornaria um orador perfeito, após vencer, por conta própria, a disfunção linguística. Nasceu em Cuiabá, no bairro Araés -importante reduto da cuiabania -, onde sempre viveu, filho de um pedreiro e uma doméstica, o segundo de seis crianças. Poderia ter estudado para ser muitas coisas, dada a inteligência ímpar que tinha, notada desde a infância. Mas fez o que os pais acreditavam que estava à altura de um negro à época. Formou-se alfaiate, seguindo os passos de um tio, Teodoro do Espírito Santo, um dos melhores no ramo da Capital. Especializou-se em costurar calças masculinas. Aos 18 anos, serviu o Exército, onde descobriu ter um sopro no coração. O médico da corporação garantiu que os pesados exercícios seriam até bons para ele. Talvez não fosse tão negligente se estivesse diante de um soldado branco. O rudeza militar só fez agravar o problema cardíaco, dilatando o órgão vital de Geraldo. O diagnóstico era o de que ele só viveria até os 25 anos.

Se a profecia de morte precoce tivesse se cumprido, Geraldo não teria se casado com a neta de escravos Ângela de Oliveira Costa, 65, sua companheira de todas as horas, nem teria tido cinco filhos -sendo dois engajados diretamente no movimento negro -também não teria, individualmente, sensibilizado a tantas pessoas para a necessidade de um mundo mais igualitário e ainda não teria se formado em Ciências Contábeis pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), como a maioria dos negros, após os 30 anos. O fato é que os médicos erraram. Geraldo viveu o suficiente para tornar-se um símbolo de resistência e perseverança.

Dona Ângela conta que, na década de 60, quando o conheceu, tinha retreta na praça Alencastro, às quintas-feiras e aos domingos, das 19 às 21 horas. Para quem não sabe, retreta é concerto popular. Enquanto a banda tocava dobrados, marchinhas, rasqueado, as moças rodavam no entorno da praça, dançando de braços dados. O círculo de dentro era para as que tinham dinheiro; o de fora, para negros e sem posses. "Advinha onde eu rodava?" - indaga Ângela, lembrando o sectarismo, que, de outras formas, segundo ela, ainda existe. Perguntada sobre a primeira impressão ao conhecê-lo, ela diz: "Eu tive uma boa impressão dele, mas ele é que teve uma impressão melhor ainda de mim, porque já queria saber se eu ia estar na sessão de cinema das moças na próxima terça-feira", conta. O amor floresceu.

Um homem comum como este seria um herói?

No dicionário Aurélio, herói quer dizer: "Homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade (grandeza de alma). Encaixa.

Geraldo, durante todo tempo, tinha em mente o absurdo do racismo e buscava conversar com qualquer "pessoa de cor" que encontrasse no caminho, de manhã, à tarde ou à noite, na rua, em casa, no trabalho. Como não se falava em consciência negra na época, engajou-se em movimentos sociais. A frente de seu tempo, repetia frases que começariam a ser propagadas anos depois. "Seu cabelo não é feio, nem ruim, é apenas diferente e você pode fazer o que quiser com ele, lavar, trançar, escovar", conta Nieta Luisa Costa, 38, uma das filhas de Geraldo, que hoje leva adianta a mesma bandeira. "Tivemos o privilégio de tê-lo como pai. Ele dizia também: vocês têm que estudar, a universidade pública é um local para todos (e só hoje se fala em cotas). Ele puxava nossa auto-estima lá para cima. Com o que ele me ensinava, eu tentava ajudar minhas amigas a também se aceitarem, a se gostarem".

Em 1978, Geraldo foi a São Paulo fazer um curso de formação sindical e viu uma cena inesquecível e transformadora: a primeira grande paralisação dos metalúrgicos do ABC paulista, onde estava também Lula. Uma das reivindicações da categoria era saber o porquê da diferença salarial baseada na raça. Isso mesmo: negros ganhavam menos só por serem negros. Lá Geraldo também soube de outras articulações que já existiam voltadas para a causa. De volta a Cuiabá, fez a primeira reunião para discutir, exclusivamente, questões raciais.

"Quem quiser brincar que brinque, mas não de movimento negro, que este é luta", dizia Geraldo.

A convite dele entraram para o movimento negro muitos nomes que hoje são expoentes, como a vice-prefeita Jacy Proença (PMDB).

Como todo herói, teve quem conspirasse contra ele e neste caso a vilã foi a elite da igreja católica, espalhando anonimamente que ele era um agente da Polícia Federal infiltrado na paróquia e que não era para conversar com ele não, porque a intenção dele era prender negros. Desconfia-se - a esta altura -que essa articulação era só para abafar sua fala convincente, que acabava por conscientizar os negros e estes passavam de subservientes a cidadãos.

Batiam a porta da casa de Geraldo vítimas de discriminação, perguntando a ele o que fazer. Ele orientava a denunciar o caso na delegacia, embora soubesse que policiais não tinham a menor noção de consciência racial. Para dar este tipo de apoio, ajudou a fundar o Conselho Estadual do Direito do Negro, que no momento está praticamente desarticulado, mas desencadeou o projeto SOS Racismo, executado pela mais forte entidade que luta pela causa em Cuiabá, o Grupo de Consciência Negra (Grucon).

Geraldo defendia a união de casais com base no amor e não na cor da pele.

Dizia, com firmeza, "não somos minoria, somos maioria, somos competentes, somos bonitos, queremos o espaço que é dito para todos, mas que não tem sido".

Para ele, não tinha sábado, não tinha domingo. Viveu pela causa.

Porém este herói que aqui se mostra não era de ferro ou incansável. A filha dele conta que muitas vezes viu o pai chegar em casa esgotado e triste. Mas não desistia. Dizia sempre que a luta é infinita, que continua sempre, se não servir para nossos filhos, vai servir para nossos netos.

Alguns dias antes de "partir", Geraldo pressentiu: "Quando eu morrer, não chorem. Eu sei que cumpri minha missão".

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Comentários

Antonieta Luisa Costa - 19/08/2016

Que maravilha poder lembrar um pouquinho da historia de vida de Meu querido pai Geraldo Henrique Costa. Lider do movimento negro nas decadas de 80, que deixou como herança os ideais de luta para os negros e negras do MT.

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