destaque internacional 30.05.2024 | 07h00

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Acervo pessoal Iramaia Jorge Cabral de Paulo / Mon
Foi em um dia de maio de 1986 que o renomado físico brasileiro Cesare Mansueto Giulio Lattes, ou César Lattes, como é mais conhecido, desembarcou no Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Várzea Grande. A visita foi viabilizada com esforços e recursos arrecadados pelos estudantes e docentes do Centro Acadêmico de Física “Professor João Vasconcellos Coelho” para aquele que seria um marco no Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Quem bem se recorda do fato é a professora do Programa de Pós-Graduação em Física Ambiental do Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Iramaia Jorge Cabral de Paulo. Na época com apenas 19 anos, ela, o colega Paulo e o professor Francisco Carlos Monteiro (Xyco) vestiram as melhores roupas para buscar, de fusca, o físico no aeroporto, ansiosos pelo seu desembarque.
Diferente da visão do senso comum do cientista de jaleco branco, quem saiu do avião foi um senhor de camisa florida, bermuda e sandália Itapuã. “Uma postura totalmente diferente daquela que nós esperávamos de alguém que quase ganhou o prêmio Nobel. Uma pessoa super amável, afável, descontraída. Isso foi muito importante para nós, porque nos trouxe a expectativa de que a ciência é assim, ela é feita por pessoas apaixonadas. [...] Elas são, na grande maioria delas, desprendidas de vaidade”, relembra a professora.
O intercâmbio de Lattes em Cuiabá durou cerca de uma semana e foi planejado via carta, em uma época em que mal se utilizava computadores. Foram os professores João Vasconcelos Coelho e José Mário Fontes Amiden que participaram da organização da visita.
Ao chegar em Cuiabá, o físico fez questão de almoçar no restaurante universitário, onde provou entre outras iguarias do cardápio a tradicional farofa de banana e não demorou muito para começar a ser identificado pelos estudantes que passavam pelo local. “Alunos de cursos de Física, Química, alguns da Matemática reconheceram o professor e ficaram meio incrédulos de vê-lo comendo bandejão. De repente nós éramos um grupo animado falando de ciência com alegria. Ele agregava as pessoas em torno. [...] Foram dias memoráveis de muita conversa sobre a ciência brasileira, sobre o Brasil, economia e outros aspectos relacionados”, relata.
Acervo pessoal Iramaia Jorge Cabral de Paulo
Professores do Departamento de Física em 1988. Em pé da esquerda para a direita: Walter Milhomen, Francisco Monteiro((Xyco) Abilio Camilo, Nina, César Lattes, Takao Tati, Trentino Polga e Marcos. Sentados da esquerda para direita: Carlos Rinaldi, Shozo Shiraya, José de Souza Nogueira, Telma Cenira, Edson Shibuya e Carlos Eduardo Rondon .
Além da experiência acadêmica, o físico desfrutou também dos aspectos regionais da gastronomia e da cultura da Baixada Cuiabana. Iramaia recorda que ele e os professores do Departamento de Física saiam à noite ao final do expediente para tomar uma cervejinha, comer peixe assado em uma peixaria de Santo Antônio do Leverger e conversar.
“Aquela semana foi importante para ele, não só no sentido de conhecer mais os professores que compõem o nosso departamento, mas também de conhecer a nossa cultura, a nossa sociedade, tanto é que no ano seguinte ele volta para estabelecer convênios entre a UFMT e outras instituições importantes. [...] Ele se encantou com a nossa instituição, com a nossa cultura, com a nossa sociedade e viu aqui um espaço promissor para desenvolver uma ciência de ponta”.
Acervo pessoal Iramaia Jorge Cabral de Paulo
Assinatura do Protocolo de intenção de cooperação científica – da esquerda para direita: Nina Nikolaevna, Takao Tati, o reitor De Lamonica Freire, César Lattes, Edson Shibuya.
Logo após a visita, dois protocolos de intenção de cooperação científica foram firmados com a UFMT entre o departamento de Física Geral e Experimental da Universidade Estadual do Rio de janeiro (UERJ), Departamento de Física do Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia da UFMT, Núcleo de Estudos e Pesquisa do Rio de Janeiro (NEPEC) e o Núcleo de Instrumentação da UFMT.
Esses protocolos foram a promessa de um convênio entre as instituições e assinados no gabinete do então reitor Eduardo de Lamônica Freire. “Lattes se preocupou em amarrar esses convênios para garantir o desenvolvimento de uma cooperação científica bem consolidada junto a Universidade Federal de Mato Grosso”.
Com uma visão abrangente de ciência, ele também tinha pretensão de projetos para datação geocronológica de Chapada dos Guimarães e do Pantanal, envolvendo pesquisadores do departamento de geologia da UFMT. As contribuições de Lattes para o departamento foram além das palestras e debates previstos e deixaram marcas permanentes no instituto de física, como pontua o professor e diretor do Instituto de Física, Edson Chagas.
“A passagem de César Lattes foi um passo importante para o então Departamento de Física, agora Instituto de Física. Foi uma semente que permitiu chegar a um Instituto que possui dois cursos de graduação presenciais, um EAD e 4 programas de pós-graduação. Além disso, ficou claro para os professores da época que era necessário capacitar o corpo docente, em 1988 possuía pouquíssimos doutores e atualmente todos os 41 professores possuem o título de doutorado e a maioria com pós-doutorados no exterior. Essas iniciativas foram embriões para a qualificação do corpo docente. Atualmente os professores efetivos do Instituto de Física é composta de 100% de doutores com formação em diversas subáreas da Física”.
O quase prêmio Nobel de Lattes
No período em que esteve em Cuiabá, Lattes também participou de uma exposição comemorativa dos 40 anos da descoberta do Méson Pi nos corredores do departamento de física, fato que quase lhe rendeu o prêmio Nobel por sua descoberta aos 24 anos de idade. Lattes comprovou experimentalmente a existência do Méson Pi em 1947, contudo, a descoberta levou à concessão do Prêmio Nobel de Física de 1950 a Cecil Frank Powell, líder da pesquisa.
Acervo pessoal Iramaia Jorge Cabral de Paulo
Abertura da exposição comemorativa dos 40 anos de descoberta do Méson Pi nos corredores do Instituto de Física da UFMT
O fato é considerado um marco na história da física. A partícula até então desconhecida forneceu evidências cruciais para a compreensão da força nuclear forte, responsável por manter os prótons e nêutrons unidos no núcleo atômico, marco que inicia a física de partículas.
A descoberta elevou o prestígio de Lattes no cenário científico internacional, abrindo portas para colaborações com importantes físicos e centros de pesquisa em todo o mundo.
Dia do físico
Em maio, mais especificamente no dia 19, comemora-se o Dia Nacional do Físico, data instituída por meio da Lei nº 14.769 sancionada pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. A norma reconhece as contribuições dos físicos para o desenvolvimento científico e tecnológico do país e marca a publicação do artigo do físico Albert Einstein que definiu a Teoria da Relatividade, em 1905.
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