famílias em sofrimento 04.10.2026 | 14h17

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Paulo Pinto/Agência Brasil
Mato Grosso registra média de seis desaparecimentos por dia em 2026. Enquanto estatísticas revelam a dimensão do problema, casos do professor Breno Antônio e do maranhense Márcio Maraes Santos mostram a angústia de quem espera por uma ligação, uma pista ou simplesmente a notícia de que alguém voltou para casa.
Há famílias que dormem com o telefone ao lado da cama. Que acordam procurando mensagens, percorrem hospitais, delegacias e ruas, compartilham fotografias de desconhecido em desconhecido e transformam qualquer informação em esperança. Em Mato Grosso, essa espera passou a fazer parte da realidade de milhares de pessoas: 1.536 desaparecimentos foram registrados somente entre janeiro e agosto de 2026, conforme o painel do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A dimensão fica ainda mais evidente quando o número é dividido pelo tempo: são cerca de seis desaparecimentos registrados por dia no Estado. Pessoas que saíram para trabalhar, estudar, encontrar alguém ou realizar tarefas comuns e, por diferentes circunstâncias, tiveram o paradeiro comunicado às autoridades como desconhecido.
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Os dados do Sinesp apresentados para Mato Grosso mostram que, dos 1.536 registros, 1.025 são de homens e 511 de mulheres. A maioria envolve adultos: 1.046 pessoas tinham 18 anos ou mais. Outros 477 registros são de crianças e adolescentes de até 17 anos, enquanto 13 não tiveram a faixa etária informada.
A evolução mensal também chama atenção. Foram 169 registros em janeiro, 150 em fevereiro, 196 em março, 196 em abril, 208 em maio, 190 em junho, 201 em julho e 226 em agosto. Agosto, portanto, teve o maior número entre os oito primeiros meses do ano.
É importante ressaltar que os números representam registros de desaparecimento, e não necessariamente pessoas que continuam desaparecidas atualmente. Parte delas pode ter sido localizada posteriormente. O Ministério da Justiça mantém bases e ferramentas nacionais voltadas ao registro e à consulta de desaparecidos.
Mas uma estatística tão grande pode esconder justamente aquilo que existe de mais doloroso no desaparecimento: cada número tem nome, história, família e pessoas esperando. Nos últimos dias, dois desses nomes passaram a mobilizar buscas na região metropolitana de Cuiabá: Breno Antônio Humberto de Moraes e Márcio Maraes Santos.
Onde está Breno?
O professor Breno Antônio Humberto de Moraes, de 25 anos, desapareceu na noite de 26 de setembro, em Várzea Grande. Professor das séries iniciais, ele foi visto pela última vez na região do bairro Capela do Piçarrão. Câmeras de segurança registraram um dos últimos momentos conhecidos de Breno: por volta das 20h26, ele sobe na garupa de uma motocicleta. Depois disso, não foi mais visto pela família.
O desaparecimento ganhou contornos ainda mais angustiantes porque o silêncio não começou imediatamente.
Segundo familiares, mensagens chegaram a ser enviadas pelo celular do professor depois que ele saiu. O irmão gêmeo, Bruno, porém, estranhou a maneira como as respostas eram escritas e passou a suspeitar de que poderia não ser Breno do outro lado da conversa. A família também recebeu uma fotografia que levantou dúvidas, inclusive porque tatuagens do jovem não apareciam na imagem. Até o momento, não há confirmação pericial pública de eventual manipulação da fotografia.
Para Bruno, procurar Breno significa procurar alguém que esteve ao seu lado desde o começo da vida. Os dois são irmãos gêmeos e haviam completado 25 anos juntos apenas nove dias antes do desaparecimento. Desde que o irmão sumiu, Bruno transformou as redes sociais em uma ferramenta de busca e tem feito sucessivos apelos por informações. Olhar Direto
Em um deles, descreveu a dimensão da ausência:
“Eu quero encontrar o meu irmão, gente. Vivo ou morto, eu quero encontrar o meu irmão. Eu não vou descansar enquanto eu não encontrar o meu irmão.”
A mobilização saiu das redes sociais e chegou às ruas. Familiares, amigos, estudantes e integrantes da comunidade acadêmica realizaram atos para divulgar o rosto do professor e cobrar respostas sobre o caso.
Na UFMT, cartazes e uma caminhada deram forma a uma pergunta que acompanha a família desde aquela noite: onde está Breno?
O caso é investigado pelo Núcleo de Pessoas Desaparecidas da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). A Polícia Civil informou que realiza diligências e que, neste momento, não é possível confirmar publicamente hipóteses sobre o que aconteceu com o professor.
Do Maranhão a Cuiabá: uma viagem para trabalhar termina em desaparecimento
Enquanto uma família procura Breno em Várzea Grande, outra percorreu mais de mil quilômetros para tentar descobrir onde está Márcio Maraes Santos, de 36 anos.
Márcio deixou Itaipava do Grajaú, no Maranhão, e veio para Mato Grosso depois de conseguir uma oportunidade de trabalho em uma empresa do setor de energia. Em sua terra natal, costumava trabalhar na roça. A viagem para Cuiabá representava uma nova oportunidade. Desde a madrugada de 25 de setembro, porém, ele está desaparecido.
Márcio não possui um dos olhos. Em uma oportunidade anterior de trabalho, utilizava uma prótese ocular. Desta vez, segundo relato da família, veio sem a prótese e precisaria passar por uma perícia para conseguir trabalhar.
Mas a perícia não chegou a acontecer. Depois disso, Márcio desapareceu.
A família considera, entre as possibilidades, que ele possa ter saído em busca de outro emprego nos arredores. Sem conseguir contato e sem saber exatamente qual caminho ele tomou, parentes deixaram o Maranhão e vieram até Cuiabá para acompanhar as buscas.
Entre eles está o pai, Raimundo de Oliveira Sampa, conhecido como Zé Folia. A distância entre Maranhão e Mato Grosso, que antes separava a família de Márcio enquanto ele tentava trabalhar, tornou-se agora o caminho percorrido por um pai em busca do filho.
“Moro no Maranhão, em Itaipava do Grajaú, e estou aqui em busca de um filho meu”, contou Raimundo.
Quando um desaparecimento muda a rotina de uma família
Breno e Márcio têm histórias diferentes. Um é professor, tinha 25 anos e desapareceu depois de subir em uma motocicleta em Várzea Grande. O outro tem 36 anos, saiu do Maranhão para tentar trabalhar em Mato Grosso e desapareceu em Cuiabá.
Os dois, no entanto, agora fazem parte da mesma realidade vivida por centenas de famílias.
É justamente aí que os 1.536 registros deixam de ser apenas uma sequência de números em um painel.
São 1.536 histórias comunicadas às autoridades em apenas oito meses. 1.536 momentos em que alguém percebeu que uma pessoa não voltou. Um telefone que deixou de atender. Uma mensagem que não chegou. Uma cama que permaneceu vazia. Uma família que precisou procurar a polícia sem saber quando ou como aquela busca terminaria.
Em média, isso aconteceu seis vezes por dia em Mato Grosso entre janeiro e agosto.
Para algumas famílias, a resposta chega rapidamente e a pessoa é localizada. Para outras, a procura atravessa dias, semanas, meses ou até anos. Por isso, os dados de desaparecimento não devem ser confundidos com o número atual de pessoas ainda não localizadas.
No caso de Breno, cada novo dia amplia a mobilização de parentes e amigos. No de Márcio, uma família que estava a quilômetros de distância precisou vir até Mato Grosso para procurá-lo.
No meio de uma estatística estadual que ultrapassou 1,5 mil registros em oito meses, os dois casos ajudam a revelar aquilo que nenhum gráfico consegue mostrar: quando alguém desaparece, não desaparece sozinho. A rotina de uma família inteira passa a girar em torno da busca por uma resposta.
Toda informação ajuda
Informações que possam ajudar a localizar Breno podem ser repassadas anonimamente pelo Disque-Denúncia 197 ou diretamente ao Núcleo de Pessoas Desaparecidas/DHPP pelos telefones (65) 3613-8777 e (65) 98173-0565.
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