DEU EM A GAZETA 18.05.2026 | 06h47

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Chico Ferreira
Eles não são apenas criminosos que satisfaziam sua lascívia e desejo sexual violentando com crueldade corpos de crianças e vulneráveis. São assassinos, que também eliminaram as vítimas para ocultar os estupros ou mesmo satisfazer um desejo sádico ainda maior. A terceira reportagem da série Arquivo Laranja faz um resgate histórico de crimes que chocaram Mato Grosso e mostra como, apesar da brutalidade, o sistema permite que predadores sexuais ganhem a liberdade, fujam ou façam novas vítimas.
Dos cinco casos analisados, apenas dois criminosos continuam presos. Os demais dividem-se entre a absolvição, a fuga e o esquecimento, enquanto uma família ainda busca o corpo de uma criança para conseguir, finalmente, sepultá-la com dignidade. Informações que se destacam ainda mais neste 18 de maio, marcado no Brasil como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Na tarde do dia 4 de dezembro de 1990, a estudante Elizângela Maria Geraldino, 11 anos, deixava o colégio na avenida Fernando Correia da Costa, depois de fazer a última prova. A menina, que esperava o pai ou irmão buscá-la, em razão de um pequeno atraso, aceitou a carona do engenheiro Eraldo da Costa Carvalho, na época com 40 anos. Foi levada até uma região de terrenos baldios, no bairro Santa Cruz. Lá foi violentada sexualmente e depois executada com três tiros no peito. O corpo foi localizado três dias depois. As investigações chegaram a Eraldo depois da informação de outra adolescente que havia sido abordada por ele na época, quando estava no mesmo veículo em que deu carona à Elizangela.
Pela violência empregada, Eraldo ficou conhecido como Monstro do Santa Cruz. Conforme o delegado Antônio Garcia de Matos, que atuou na época, exames periciais confirmaram que as cápsulas retiradas do corpo da vítima saíram da arma de fogo apreendida com o engenheiro. Ele ficou pouco tempo preso e antes de ser levado a júri, foi colocado em liberdade, quando fugiu de Cuiabá e só foi preso uma semana após ser julgado, em julho de 2010, condenado a 36 anos de reclusão. Mas, menos de 2 anos depois, ganhou a liberdade. Ele conseguiu a redução da pena e obteve a prescrição do crime de estupro.
Absolvido
Quatro anos depois, outra menina é violentada e morta com requintes de crueldade e tem o corpo abandonado pelo assassino a mais de 20 quilômetros do local onde foi vista pela última vez. Elisângela Rondon Pereira, também com 11 anos, foi abordada após deixar a aula de datilografia na área Central de Cuiabá, na tarde de 21 de outubro de 1994.
O corpo foi localizado três dias depois, debaixo de galhos, em uma região de chácaras no bairro Pedra 90. Estava a cerca de 350 metros da entrada da chácara do homem apontado como autor do crime: Carlos José de Oliveira, o Casé. Laudo pericial apontou a crueldade da morte, pois a menina teve o punho cortado e foi estuprada e galhos de plantas foram retirados da vagina dela, indicando um grau elevado de perversidade do assassino.
Conforme o laudo, ela morreu agonizando, em razão da perca e sangue pelo corte no punho. Casé, que sempre negou o crime, era vizinho da família da vítima, no bairro Goiabeiras. Dias antes do sumiço e morte ele assediou a menina, oferecendo um curso de inglês a ela.
A mãe não autorizou, mas mesmo assim a criança insistia e havia combinado que naquela tarde, em companhia do irmão mais velho, iria encontrar com Casé para conhecerem o curso e tratarem da oferta. O irmão atrasou para o encontro marcado na praça Santos Dumont e somente depois de três dias o corpo foi localizado. Após quatro adiamentos, o júri popular de Casé foi realizado em outubro de 2023. Ele foi absolvido.
Liberdade e fuga
O terceiro crime ocorreu no dia 27 de setembro de 2007, em uma área de intensa movimentação de pessoas e comércios, em Cuiabá. A adolescente Bruna Jéssica Florão, de 13 anos, lutou para se defender de uma tentativa de estupro do vizinho Jorge Santiago Demétrio, o Argentino, natural de Buenos Aires.
Depois de ser arrastada para a casa dele, que tinha porta para rua movimentada, acabou morta por asfixia, quando o assassino introduziu uma camisa na garganta da vítima. A delegada Sílvia Pauluzzi atuou na investigação na época e destaca a crueldade do crime. Até hoje, quando passo pelo local e vejo o imóvel abandonado, me lembro do brutal assassinato, um crime de uma covardia estrema.
Argentino foi condenado a 27 anos e oito meses de reclusão em regime fechado, em 2017, mas colocado em liberdade com tornozeleira eletrônica em 2019, quando desapareceu três meses depois. Hoje, conforme a delegada, que comanda a Delegacia de Polinter e Capturas, Argentino ainda é considerado foragido da Justiça.
Solto, fez outra vítima
A frieza do pedófilo e assassino Edson Alves Delfino, que violentou e matou o estudante Kaytto Guilherme Nascimento Pinto, 10 anos, no dia 13 de abril de 2009, ficou marcada no depoimento dele, logo após a prisão. Sem demonstrar qualquer emoção, relatou detalhes do crime. Ele já havia estuprado e matado, nove anos antes, Anderson Costa da Silva, também de 10 anos, em Primavera do Leste. Condenado por esse crime a 46 anos e 8 meses de prisão, foi liberado 9 anos depois, sem um laudo psiquiátrico, mesmo assegurando que se fosse solto voltaria a cometer crimes.
Já em Cuiabá, elegeu a próxima vítima. Aproveitou um desencontro entre pai e filho no caminho para a escola e o abordou no ponto de ônibus, diante do condomínio. Levou Kaytto até uma área de mata, próxima ao fórum da Capital. Lá, o menino foi abusado sexualmente e estrangulado com a própria cueca e um pedaço de madeira, com o qual fez um torniquete.
Foi preso em um ônibus, fugindo de Cuiabá. Pela morte de Kaytto recebeu condenação de 35 anos e três meses de prisão, em júri popular em março de 2010. Durante o julgamento, que durou mais de 12 horas, o próprio réu, que se definiu como um monstro fora de si, disse que não tem condições de viver em sociedade. Delfino continua recluso em unidade prisional do estado.
Corpo não localizado
Um dos casos descritos como mais dolorosos e marcantes em que atuou, o promotor de Justiça, Luiz Fernando Rossi Pipino, cita o desaparecimento e assassinato de Sara Vitória Fogaça Paim, 10 anos, em junho de 2010, em Sorriso (420 km ao norte).
O réu, o pedreiro Antônio Ramos Escobar, 63, foi condenado em novembro do ano passado a 45 anos de prisão pelo estupro, assassinato e ocultação de cadáver. O promotor lembra que o corpo não foi localizado para que a família de Sara consiga dar um sepultamento digno a ela.
O promotor define o réu como um homem frio, que em momento algum demonstrou arrependimento ou empatia pela vítima assassinada por ele. Depois da prisão, e com a divulgação da imagem do assassino, outras três vítimas que haviam sido abusadas por ele denunciaram os crimes à polícia. Ele já possuía condenação de 14 anos de prisão por outro estupro, praticado contra outra criança, na mesma época em que Sara foi morta.
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