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APAGAMENTO HISTÓRICO 07.03.2021 | 09h42

Retirada das pedras portuguesas da Praça da República apaga memória cuiabana

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Chico Ferreira

Chico Ferreira

Caminhos e encontros seculares da cuiabania estão sendo aos poucos apagados pela efemeridade do tempo e descaso do poder público. O visual único dos mosaicos pretos e brancos, feitos pelas pedras portuguesas da Praça da República, foi trocado pelo cinza do concreto e desorganizado em pilhas abandonadas em um canteiro.


A Praça da República, no centro de Cuiabá, passou por reformas recentes que mudaram alguns de seus aspectos importantes e históricos, como o piso de pedras portuguesas. Iniciada nos meados do século 19 em Portugal, a técnica não só se espalhou pelo Brasil, como também pode ser encontrada em outros países.


No Brasil, chegou nos primeiros anos do século 20, a começar por Manaus, no entorno do teatro Amazonas, e logo depois no Rio de Janeiro. Já em Cuiabá, de acordo com a arquiteta e urbanista Luciana Mascaro, é difícil precisar quando o adorno chegou, porém, algumas fotografias de 1920 mostram que o calçamento típico já estava presente.

 

Leia também - Em vídeo, moradora denuncia abandono de praça histórica


A origem dos mosaicos também é incerta. Reza a lenda ainda, segundo o professor de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Ricardo Castor, que um terremoto de 1755 devastou a cidade de Lisboa, e algumas ruas e calçadas foram reconstruídas com mosaicos de pedras coloridas com símbolos da sorte, como estrelas, para proteger a cidade.

 

 

praça da república

 

“Se levanta algumas hipóteses: em Portugal, existe uma cidade de ruínas romanas, perto de Coimbra, e lá você tem muitos painéis de piso, que estão num estado muito bom de conservação”, relata Luciana, sobre outra possibilidade.


O trabalho é minucioso e praticamente manual, conta Ricardo. Os chamados mestres calceteiros, responsáveis pela obra, também fazem parte de uma profissão que aos poucos está se apagando.


“Inicialmente as pedras calcárias e os profissionais especializados na técnica, conhecidos como ‘mestres calceteiros’, vinham de Portugal, encarecendo seu emprego. Com o tempo, o Brasil passou a explorar suas próprias jazidas e a formar profissionais especializados na extração e corte das pedras, na implantação e manutenção dos calçamentos à moda portuguesa. No método tradicional os blocos são cortados de modo artesanal, com o auxílio de uma marreta”, conta.


Apesar de demandar manutenção frequente, que deve ser executada por profissionais capacitados, o piso tem permeabilidade assegurada pelo espaçamento entre as pedras, que diminui os alagamentos. Além disso, tem capacidade para moldar-se à pressão causada pelas raízes das árvores.


Apagamento histórico
Retirar as pedras portuguesas da Praça da República segue na contramão de outras cidades brasileiras, que investem na preservação e recuperação de seus pisos históricos. Um exemplo é o Rio de Janeiro, com a famosa calçada de Copacabana. A Praça do Rossio, em Lisboa, também zela pelo padrão ondular, conhecido como “mar largo”.

 

Reprodução

praça da república

 


“O calçamento original remonta à década de 1920. Muito se fala na perda representada pela demolição, em 1968, da antiga igreja matriz de Cuiabá, monumento implantado defronte a praça da República, antigo Largo da Sé. Pois bem, o projeto daquela Praça, com canteiros de inspiração francesa e calçamento em pedra portuguesa é ainda mais antiga que a fachada da matriz demolida naquela ocasião”, contextualiza Ricardo.


A memória cuiabana também é ferida com a descaracterização da praça. Luciana conta, inclusive, que vê muitas pessoas comentando sobre a falta das palmeiras ou outros elementos. Com o apagamento histórico, vem também a falta de pertencimento das pessoas com o ambiente.


“As pessoas se lembram, isso que é importante. Elas têm uma ligação com os elementos que compõem o espaço. Elas perguntam ‘cadê as palmeiras? Cadê as árvores? Os desenhos dos canteiros?’. Cada vez que vem um desenho diferente e descaracteriza, não tem mais nada a ver com o espaço que estava na memória das pessoas”, lamenta.


Com intuito de frear a obra e reverter os danos provocados, foi criada uma petição pública para pressionar a prefeitura. Você pode assiná-la aqui.


Outro lado
A reportagem entrou em contato com a assessoria da Prefeitura de Cuiabá, que por meio de nota, manifestou que a obra vai preservar as características históricas do espaço. No local da concretagem, segundo explica, não havia mais pedras portuguesas. Veja a nota na íntegra.


"Em relação à demanda da Praça da República, a Empresa Cuiabana de Zeladoria e Serviços Urbanos informa que:
- Deve entregar na próxima semana revitalização da tradicional Praça do Cai Cai e, a partir desse ato, concentrar os esforços no término da requalificação da Praça da República.


- A previsão é de que o espaço seja entregue à população completamente requalificada no mês de abril, mantendo as características históricas do espaço.


- No local foi feita a concretagem do piso em frente aos Correios, onde já não existiam pedras portuguesas, e recuperação do piso no centro da praça.


- A praça receberá iluminação de LED, jardinagem e paisagismos, pintura, melhoria na estrutura da calçada, instalação de bancos e lixeiras e melhorias na acessibilidade.


- Vale reforçar que o projeto respeita toda a história que a praça carrega e somente foi colocado em prática após aprovação do Instituto Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN)".

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Comentários

Crilene - 07/03/2021

Não sei se tem ,mas deveria ter uma Lei que punisse tal ato como esse que esta acabando com a historicidade da Capital.

dom - 07/03/2021

o motivo da quebra das pedras portuguesas é a praça se tornar garagem de frequentadores da igreja Matriz,comprovem aos domingos principalmente,dezenas de carros ai só concreto pra suportar.

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