06.02.2009 | 03h00
As reclamações de problemas na sinalização de trânsito em Cuiabá são frequentes. A equipe de reportagem visitou alguns pontos da cidade e detectou diversas falhas. Há placas velhas, caídas, outras escondidas atrás da vegetação. Sobram semáforos quebrados e quebra-molas sem demarcação. Existem poucas faixas de pedestres. Também é comum a falta de bom senso e respeito dos motoristas à legislação. O reflexo disso é que no ano passado, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atendeu cerca de 3,5 mil acidentes graves, sendo 70% envolvendo motociclistas e 10% automóveis. Outros 20% corresponderam aos atropelamentos, refletindo o completo desprezo pela vida humana.
As irregularidades são constatadas em todos os lugares, mas algumas vias são campeãs na violência, entre elas as avenidas Prainha, Fernando Corrêa, Generoso Ponce, Miguel Sutil, Getúlio Vargas, Beira Rio, Isaac Póvoas e General Vale e CPA; aliada a Barão de Melgaço e 13 de Junho. Entre todos os bairros, conforme a Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (SMTU), as infrações cometidas superam por pouco o total da Prainha, que no ano passado somou 5,3 mil notificações aplicadas. A Fernando Corrêa ficou em segundo, com 4,3 mil e, a Generoso Ponce, com 3,7 mil. Apesar de ter tido 1,5 mil registros, a Miguel Sutil contabiliza muitas colisões ou atropelamentos graves, pois os veículos trafegam em alta velocidade.
A coordenadora do setor de "Educação" do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), a pedagoga Renata Freitas, explica que o excesso de veículos contribui para o aumento não só dos acidentes, mas da gravidade deles. Hoje, são mais de 300 mil carros circulando diariamente em Cuiabá, são pelo menos 260 mil da cidade, outros de Várzea Grande e de outros municípios ou Estados. Esse número dobrou nos últimos 10 anos, sem contar as motocicletas. Por causa das facilidades na hora de comprar, a quantidade de motos está 3 vezes maior. "É preciso um esforço conjunto para reverter isso, porque é um problema complexo, melhorar o transporte público talvez seja uma das estratégias mais viáveis".
Além disso, ela aponta a melhoria da sinalização, medidas educativas, fiscalização, punição e planejamento urbano como questões a serem prioritárias pelos gestores públicos. A contribuição deve ser dada pela população, porque os desrespeitos são observados a todo momento. Um exemplo está ao longo da Avenida André Maggi, apesar de ser a "Casa de Leis" do povo mato-grossense, a Assembleia Legislativa não fez a calçada para os pedestres. O mesmo foi seguido pelos órgãos suntuosos no trajeto até chegar à Secretaria de Estado de Educação (Seduc), onde o pedestre tem que andar pela rua, sem segurança. "Pode prestar atenção no número de prédios no entorno do Parque Mãe Bonifácia que estão surgindo, mas certamente nenhum deles têm estudo de impacto do tráfego de veículos, isso significa que ninguém está se importando, quer apenas morar bem, é o direito individual prevalecendo ao público".
Flagrante - O caos no trânsito de Cuiabá não é uma realidade apenas da região central da cidade, a falta de sinalização e a imprudência dos motoristas é comum também nos bairros da Capital. Na região do CPA, a Avenida Pernambuco, principal do bairro CPA 1, um semáforo vive com problemas. A incerteza de que pode ou não seguir gera conflito entre os motoristas, os ônibus geralmente passam direto, um risco para pedestres. Na via principal do CPA 4, além dos quebra-molas sem qualquer sinalização (horizontal e vertical), a rotatória serve de denúncia dos moradores que estão cansados de presenciar colisões.
Mais a frente, na Avenida Alice Freira, próximo a um supermercado, outro flagrante: lombadas irregulares. A própria população constrói para conter a velocidade dos veículos, mas a situação pode gerar consequências graves, pois os motociclistas podem se acidentar no período noturno. O mesmo acontece ao longo da via principal do CPA 4, onde num trecho de 100 metros, antes da rotatória, há 2 desses quebra-molas.
Nesse trecho, a placa que deveria informar "pare" está escorada no meio das árvores. Ao invés de parar para quem está fazendo a rotatória, o condutor desinformado vai reto provocando tumulto. O mototaxista Jorge Júnior Samuel, 25, afirma que outro lugar complicado fica próximo e no entorno do terminal do transporte coletivo do CPA 3. O entra e sai de ônibus provoca uma verdadeira bagunça. "Pode observar perto dos canteiros e calçadas, sempre tem caco de vidro, sinal de acidente", diz Samuel.
Confusão - Se em frente ao Centro de Convivência de Idosos sobram placas e faixas de pedestres, logo depois, no cruzamento da Lagoa do CPA 3, há outro princípio de confusão. A Avenida Principal cruza com outras duas ruas, mas nenhuma placa indica quem deve dar a preferência. Na mesma via principal, onde ocorre semanalmente a feira, a população reclama que o trecho próximo da Drogaria Pax precisa de uma intervenção urgente. "Todo dia tem acidente aqui, essa semana mesmo, presenciei dois, envolvendo caminhões", diz a caixa da farmácia, Graciele Freitas.
O carteiro Adilson Nogueira, 42, que há 13 anos entrega correspondências na região avalia a sinalização como um todo, bastante ruim, mas nesse ponto concorda que é necessário agir rápido, pois ninguém sabe onde começa ou termina a contramão, nem se deve parar ou seguir em frente.
Falta educação- O desrespeito dos motorista contribui para a violência no trânsito, mesmo onde há sinalização. Em frente ao Hospital São Mateus, no bairro Bosque da Saúde, passar nas poucas faixas de pedestre é um risco de morte. O paciente vai para se tratar, mas pode acabar acidentado. O morador de Cáceres, Benedito Ferraz, 50, estava fazendo uns exames esta semana no hospital ficou assustado com a agressividade de quem está ao volante. "Quando chego na Capital entrego o carro para a minha filha, tenho medo".
O funcionário de uma barraca de cachorro-quente, Wander Rodrigues, que há 5 meses trabalha na Avenida Aclimação, acredita que falta instalar quebra-molas em frente ao hospital. "Essa placa de silêncio nunca é respeita, o que mais tem é gente buzinando aqui na frente, para dizer coisa pior, a vida do pedestre aqui não tem valor". O mesmo diz o taxista Josenil Queiroz, 37, que há 7 anos convive com a situação de instabilidade. Ele denuncia que a partir das 18h, quando muita gente utiliza a via para ter acesso à Avenida das Torres, ninguém mais consegue atravessar, os mais prejudicados são os idosos. "É absurdo, os coitados ficam um tempão, às vezes a gente tem que ajudá-los, dar um socorro".
"Tragédia se anuncia". É assim que o funcionário público, Edson Ricardo Pertile, 45, descreve a situação em frente ao prédio onde mora há 6 meses, na Rua Estevão de Mendonça, entre Ruas João Bento e Cursino Amarante. O trecho de pelo menos 200 metros está sem sinalização adequada para estacionamento. Sem prestar atenção, os motoristas costumam parar nos dois lados da pista, o que impede a passagem do ônibus. "Semana passada houve um buzinaço porque uma pick-up estava trancando a rua".
Ele explica que o fato aconteceu às 14h. Com raiva de ter que esperar, cerca de 10 homens que estavam no transporte coletivo desceram e começaram a chutar, xingar e ameaçar o condutor do carro pequeno, que estava descarregando bebidas num restaurante. Na confusão, o motorista afrontado até tentou revidar com garrafas de vidro, mas não conseguiu. Após o episódio, o edifício onde ele mora entrou em contato com SMTU cobrando previdência, mas até agora não houve retorno. "Se parar um caminhão de mudança, caçamba ou caminhonete ninguém passa por aqui, acho que a questão é fácil de resolver".
O garçom do restaurante que fica no trecho crítico, Valdes Silva, 51, já presenciou o ônibus "raspar" várias vezes os carros estacionados de ambos os lados. O problema é o estacionamento irregular, alguns colocam sobre a calçada, outros param de qualquer jeito, na hora de buscar os filhos no colégio. "Quem vem no coletivo geralmente está indo ou voltando do trabalho, é pobre, sofrido, não deveria ter que passar por essa situação. O nervosismo é compreensível".
Outro lado - Como assumiu efetivamente a SMTU esta semana, o secretário-adjunto Josemar Araújo pretende fazer uma apanhado geral de todas as irregularidades mais graves para tomar providência. Garantiu que vai até o CPA 3 e 4 para tentar resolver emergencialmente a situação, também vai passar pessoalmente nos outros pontos mostrados pela equipe de reportagem. "Nosso orçamento ainda está fechado, então, vamos ver o que deve ser priorizado". Ele já sabe da existência do problema na Estevão de Mendonça e já entrou em contato com o colégio que pretende ser parceiro na resolução do problema.
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