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DEU EM A GAZETA 12.03.2026 | 06h34

Um ano sem Emelly; família encontra esperança no sorriso de Liara

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Chico Ferreira

Chico Ferreira

Um dos crimes mais bárbaros registrados em Mato Grosso, que colocou o estado mais uma vez em destaque no mapa da violência, completa um ano nesta quinta-feira (12). O rapto fetal, que resultou no cruel assassinato da adolescente Emelly Azevedo Sena, de 16 anos, pela criminosa que roubou a criança recém-nascida para registrar como sua filha, é um tipo de crime que tem catalogado apenas 300 casos no mundo todo, nos últimos 50 anos. Hoje, a família de Emelly se emociona ao lembrar do trágico dia que mudou a vida de todos. Mas, apesar de tudo, há espaço para comemorar o primeiro ano de vida de Liara, criança de sorriso fácil que se tornou o centro da vida de Ana Paula Peixoto de Azevedo, 44, mãe de Emelly e que tem a guarda compartilhada da neta.

 

A criança sobreviveu ao parto prematuro ao ser arrancada violentamente do ventre da mãe, morta pela assassina. Não apresenta sequelas aparentes da tragédia que fez parte das primeiras horas de vida. Chegou a ser reanimada pela assassina Nataly Helen Martins Pereira, 27, logo após o parto, pois apresentou problemas de saturação e foi levada a uma maternidade. Lá, pelo olhar atento da equipe médica, começou a ser desvendada a farsa da assassina e o feminicídio confirmado horas depois, com a localização do corpo de Emelly enterrado em cova rasa, no quintal da casa do irmão de Nataly, no Jardim Florianópolis, na Capital. O corpo estava a cerca de 18 quilômetros da casa da adolescente, que vivia no bairro São Mateus, em Várzea Grande.

 

Sorrir e continuar lutando, apesar do sofrimento que não acaba. Essa tem sido a rotina de Ana Paula, desde que assumiu a guarda da neta. Pela manhã, fica com Liara e, na hora do almoço, o pai da menina vai buscá-la e fica com a filha à tarde, enquanto a avó trabalha. Ele e a irmã dele dividem os cuidados da menina até o início da noite, quando a avó retorna do trabalho e a leva para a casa, na companhia do marido. As duas famílias convivem em harmonia, que reflete no comportamento alegre e tranquilo da menina.

 

Percebo que muita gente se incomoda ao me ver sorrindo, com minha neta nos braços. Cheguei a ouvir uma acusação de que já esqueci a morte da minha filha em pouco tempo. Isso não é verdade, lembro todos os dias que ela foi tirada da minha vida da forma mais cruel. Mas eu preciso seguir em frente, a Liara precisa de mim, diz emocionada, com lágrimas nos olhos.

Todos os dias lembra dos sonhos de Emelly, interrompidos pelo crime. A adolescente cursava o segundo ano do ensino médio e queria ser advogada. Outro sonho não realizado seria a viagem da família, após o nascimento de Liara, para conhecer o litoral, sonho acalentado pela filha que nunca foi à praia.

 

Olhando o porta-retratos com a foto de Emelly, com um ano de idade, e depois as fotos de mãe e filha juntas, a emoção faz correr as lágrimas pelo rosto. Eu olho as fotos e fica muito difícil aceitar que ela não existe mais, desabafa.

 

Chico Ferreira

Caso Emelly Azevedo Sena

 

 

Apesar de ter passado um ano da tragédia, sempre surgem informações novas, diz Paula. Recentemente, uma amiga da família relatou que poucas horas antes de Emelly ser morta, conversou com ela em um supermercado, próximo de sua casa. A assassina mandou um motorista de aplicativo pegar a adolescente no mercado, tendo como endereço final duas quadras distante da casa em que cometeu o crime, tentando não ser identificada. A amiga ainda teria alertado a adolescente sobre o fato da doadora chamar ela para buscar o enxoval e não trazê-lo até ela.

 

Quanto à punição da assassina, Ana Paula acredita que só vendo Nataly sentar no banco dos réus e receber a condenação máxima dos jurados pelos crimes poderá aplacar um pouco o sofrimento pela perda da filha, que sempre foi sua companheira e parceira de passeios, longas conversas e muitas gargalhadas.

 

Ação penal

 

Nataly Helen Martins Pereira, presa em flagrante, responde ação penal por oito crimes: feminicídio, tentativa de aborto, subtração de recém-nascido, parto suposto, ocultação de cadáver, fraude processual, falsificação de documento particular e uso de documento falso. Chegou a ser pronunciada a júri, mas em novembro de 2025 o Tribunal de Justiça anulou a sentença de pronúncia e determinou a realização exame de sanidade mental.

 

O Ministério Público do Estado (MPE) recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que ainda não se pronunciou. Perícia particular, previamente autorizada pelo Judiciário, anexada ao processo pela defesa da ré, atesta presença de sintomas psicóticos ativos, incluindo delírios de natureza mística, alucinações auditivas e uma profunda ruptura com a realidade.

 

Mas, para o promotor de Justiça, Rinaldo Ribeiro de Almeida Segundo, autor da denúncia contra Nataly, apesar de ter praticado um crime de uma crueldade extrema, a ré não apresenta perfil para ser submetida a esse tipo de exame. Cita que a investigação e o próprio depoimento dela indicam que o crime teve um planejamento meticuloso e que a todo momento ela sabia o que estava fazendo. Além disso, ela não possui histórico de transtornos mentais ou mesmo quadro depressivo.

Desde o início Nataly planejou em detalhes o crime. Como atrair a vítima ao endereço onde não havia ninguém e matar a adolescente de forma cruel. Acredito que a Emelly agonizou por pelo menos 20 minutos antes de morrer. Foi uma morte muito cruel, um dos piores crimes que tive conhecimento e que revoltou toda sociedade.

 

O promotor cita ainda o fato de que no momento em que deixava a delegacia, após depoimento, Nataly escondeu o rosto, dizendo que queria preservar os filhos menores. Ela tinha e sempre teve entendimento da crueldade do crime que praticou, por isso queria esconder o rosto. Por outro lado, vemos o caso do criminoso que matou a tia e arrancou o coração, Lumar Costa da Silva, que diante das câmeras de televisão sorria ao dar entrevista, em razão de ser portador de transtornos mentais, comprovados por exames, cita o promotor.

 

A estratégia da defesa de autores de crimes cruéis e midiáticos tem sido a mesma, assegura Rinaldo Segundo. Vitimizar o réu, atribuindo a ele doenças e traumas, ou mesmo sofrimento por situações passadas que poderiam justificar os crimes cruéis praticados por eles. O objetivo é tentar criar uma empatia entre os jurados e o réu, tendo como base supostos sofrimentos pretéritos deles antes da prática do crime. Mas, independente da decisão da Justiça, Rinaldo Segundo tem convicção que a assassina de Emelly não possui qualquer transtorno mental, mas sim é uma assassina perversa, que planejou o crime brutal em detalhes, em todas as etapas, plenamente consciente do que fazia.

 

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