deu em a gazeta 17.10.2026 | 07h00

pablo@gazetadigital.com.br
Montagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O mapa eleitoral de Mato Grosso mudou de eixo nas últimas duas décadas. Nas quatro maiores cidades do Estado, Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis e Sinop, o eleitorado que já deu ampla maioria a Lula e Dilma entre 2002 e 2010 passou, a partir de 2014, por uma migração gradual da direita para a onda bolsonarista de 2018. O primeiro turno de 2026 confirmou que essa mudança não foi episódica: pela terceira eleição consecutiva, um candidato identificado com o bolsonarismo liderou nas quatro cidades.
Levantamento feito pela A Gazeta, com base nos resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reconstituiu a votação presidencial nesses quatro principais colégios eleitorais desde 1989, quando Lula disputou pela primeira vez a Presidência. Os números revelam três movimentos distintos: o domínio da direita entre 1989 e 1998, a ascensão do campo da esquerda e progressista entre 2002 e 2010, e a virada para a direita a partir de 2014, posteriormente aprofundada pelo bolsonarismo.
O resultado de 2026 também mostra que essa guinada não ocorreu com a mesma intensidade em todo o Estado. Enquanto Cuiabá e Várzea Grande reduziram a vantagem da direita desde o pico de 2018, Rondonópolis permaneceu em patamar elevado e Sinop praticamente manteve intacta sua preferência pelo campo bolsonarista.
Pós Redemocratização
A primeira eleição presidencial direta após a redemocratização já indicava um eleitorado majoritariamente inclinado à direita. Em 1989, Fernando Collor (PRN) foi o mais votado nas quatro cidades. Teve 50,8% em Cuiabá, 62,6% em Várzea Grande, 60,7% em Rondonópolis e 69,6% em Sinop. O padrão se repetiu com Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em 1994, o tucano alcançou 54,8% em Cuiabá, 60,2% em Várzea Grande, 68% em Rondonópolis e 71,6% em Sinop. Em 1998, sua votação cresceu ainda mais: 64,8%, 72,9%, 70% e 77,4%, respectivamente.
Era um mapa eleitoral em que a esquerda, embora já tivesse Lula como principal liderança nacional, ainda não havia conseguido transformar sua força política em maioria nas principais cidades mato-grossenses.
A década lulista
A virada ocorreu em 2002. Lula venceu nas quatro cidades e alterou completamente o desenho anterior. Naquele ano, o petista chegou a 66,2% em Cuiabá e 65,4% em Várzea Grande. Em Rondonópolis, teve 52,3%, e em Sinop, 52,6%. A força do lulismo continuou em 2006. Lula venceu em Cuiabá, com 55,7%, Várzea Grande, com 64,8%, e Rondonópolis, com 57,8%. A exceção foi Sinop, onde Geraldo Alckmin (PSDB) obteve 64,5%.
Em 2010, Dilma Rousseff manteve a hegemonia em três das quatro cidades. Venceu Cuiabá, com 50,8%; Várzea Grande, com 58,6%; e Rondonópolis, com 53,6%. Sinop novamente ficou com a oposição: José Serra alcançou 59,5%. Durante esse período, portanto, o campo lulista conseguiu transformar o Estado, tradicionalmente associado à direita, em um território eleitoralmente competitivo para o PT nas maiores cidades.
A ruptura começou antes de Bolsonaro
O primeiro sinal mais claro de mudança apareceu em 2014. Dilma venceu nacionalmente, mas perdeu duas das quatro maiores cidades de Mato Grosso. Aécio Neves (PSDB) passou à frente em Cuiabá, com 52,3%, e em Rondonópolis, com 52,2%. Várzea Grande permaneceu com Dilma, que obteve 58,5%. Sinop confirmou sua trajetória à direita, com 62,2% para o tucano.
A eleição seguinte transformaria essa mudança em uma nova configuração política. Em 2018, Jair Bolsonaro venceu nas quatro cidades e abriu uma vantagem muito superior àquela registrada pela oposição quatro anos antes. Foram 66,9% em Cuiabá, 62% em Várzea Grande, 68,7% em Rondonópolis e impressionantes 77,4% em Sinop.
A partir dali, a direita passou a ter não apenas maioria, mas uma identidade política cada vez mais associada ao bolsonarismo.
A eleição de 2022 produziu uma redução da vantagem bolsonarista, mas não uma reversão do mapa mato-grossense. Bolsonaro teve 61,5% em Cuiabá, 58,8% em Várzea Grande, 64,9% em Rondonópolis e 76,9% em Sinop. A comparação com 2018 mostra uma queda mais acentuada na capital. Ainda assim, Lula, que venceu a eleição nacional, não conseguiu superar Bolsonaro em nenhuma das quatro cidades analisadas.
Em 2026, o fenômeno se repetiu com Flávio Bolsonaro. O candidato do PL chegou a 57,7% em Cuiabá, 56,4% em Várzea Grande, 64,8% em Rondonópolis e 76,7% em Sinop. A comparação das três últimas eleições é reveladora. Em Cuiabá, a votação do campo bolsonarista caiu 9,2 pontos percentuais desde 2018. Em Várzea Grande, a redução foi de 5,6 pontos. Rondonópolis recuou 3,9 pontos. Sinop, apenas 0,7 ponto.
Um Estado, quatro comportamentos
Os números sugerem que a consolidação da direita em Mato Grosso não ocorreu de maneira uniforme. Cuiabá é onde a vantagem bolsonarista mais se reduziu desde o auge de 2018. Várzea Grande apresenta movimento semelhante.
Rondonópolis mantém uma votação de direita próxima à registrada na primeira eleição de Bolsonaro. E Sinop se destaca pela estabilidade: Bolsonaro teve 77,4% em 2018; 76,9% em 2022; e Flávio, 76,7% em 2026.
A trajetória histórica ajuda a dimensionar a mudança. Em 2002, Lula tinha maioria nas quatro cidades. Em 2026, o candidato identificado com sua principal oposição também liderou nas quatro. O que mudou, portanto, não foi apenas o resultado de uma eleição. Foi o eixo de preferência eleitoral dos principais centros urbanos de Mato Grosso.
O ciclo lulista, que teve seu auge entre 2002 e 2010, começou a perder força em 2014. Em 2018, foi substituído por uma onda bolsonarista que resistiu à derrota de Bolsonaro em 2022 e chegou ao terceiro pleito consecutivo em 2026.
A esquerda ainda conserva espaços importantes no Estado, mas os números das quatro maiores cidades mostram que o campo progressista não conseguiu recuperar o terreno perdido com a ascensão da direita. A principal questão deixada pela eleição de 2026, portanto, não é apenas se o bolsonarismo continua majoritário, mas até que ponto a redução observada em Cuiabá e Várzea Grande poderá alterar, no futuro, um mapa que permanece amplamente favorável à direita.
Leia matéria completa na edição do jornal A Gazeta
Publicidade
Publicidade
Milho Disponível
R$ 66,90
0,75%
Algodão
R$ 164,95
1,41%
Boi à vista
R$ 285,25
0,14%
Soja Disponível
R$ 153,20
1,06%
Publicidade
Publicidade
O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.