20.11.2009 | 03h00
Nos últimos anos as velhas identidades - que, por tanto tempo, balizaram as sociedades no mundo - estão decaindo, dando lugar a novas identidades e fragmentando os indivíduos. Dentro desse processo, vem ocorrendo a quebra de vários conceitos pré-julgadores e muitos indivíduos de descendência negra vêm se destacando em esportes para os quais eram desestimulados, como: o vôlei, por algum tempo, o tênis, a natação, o golfe e a Fórmula 1, dentre outros.
Educação Física
O ingresso da Educação Física em nosso país, por volta do início do século 20, veio consubstanciar uma nova ordem emergente da sociedade brasileira, a mando de uma elite burguesa. A higienização e a eugenia demandaram uma proposta de reciclagem do povo brasileiro; as várias afecções e hábitos de vida da maioria da população mobilizaram uma nova política social no Brasil, delegando aos médicos higienistas as medidas de profilaxia para conter e reverter tal quadro.
A Educação Física, aos poucos, foi adentrando no país; em 1931 torna-se obrigatória, por lei, a sua prática nas escolas secundárias, como promotora da saúde física, da educação moral e da regeneração da raça. Adotou-se, primeiramente, o método francês ou militar, que buscava eficiência nos movimentos, de forma racional e metódica, visando obter qualidades físicas e morais do indivíduo, de forma disciplinada.
A cultura racial vigente sob a égide da eugenia colocou a população negra como base inferior de uma pirâmide racial que tinha os anglo-saxões ou arianos na extremidade superior, determinando os pressupostos raciais para as esferas esportivas, chegando até os jogos de Berlim, em 1936, em pleno regime nazista, para a concretização, no esporte, da superioridade ariana pregada por Hitler. Outrossim, contemplou-se, neste evento, um atleta negro se destacando e rompendo com a representação de superioridade ariana no esporte sobre outras raças e etnias, na história dos jogos Olímpicos.
Jesse Owens, o "antílope de ébano", como ficou conhecido por sua grande velocidade, saiu da bacia do Mississipi, no sul dos Estados Unidos - onde foram cometidas muitas atrocidades em nome do preconceito racial contra os negros - e veio a ganhar quatro medalhas de ouro na Olimpíada de Berlim, em 1936, de 100 m rasos, 200m, revezamento 4X100m e salto em distância, causando a irritação de Hitler e sua propaganda nazista de superioridade da raça ariana. A performance de Jesse Owens quebrou um discurso secular de inferioridade das pessoas negras dentro do esporte, principalmente olímpico, e inspirou outros atletas negros a se lançarem no mundo do esporte; um deles foi Carl Lewis, considerado o sucessor de Owens, também vindo do Mississipi. Lewis também ganhou quatro medalhas de ouro em Seul, em 1988.
O feito de Jesse Owens, até então, não tinha sido realizado por nenhum outro atleta de qualquer outra etnia. Esta conquista tornou-se um divisor de águas; um deles, foi o número cada vez maior de negros que começou a se destacar no atletismo mundial, de forma marcante, nas provas de velocidade e salto em distância, como também, superando, até então, a divisão de esporte de negros e esporte de brancos.
A partir dos resultados de Jesse Owens e do avanço das técnicas de treinamento, a raça negra começou a ser vista como objeto de estudo pela ciência do esporte. O negro passa de uma concepção de inferior, dentro de um movimento evolucionista, darwiniano e eugênico, para a rotulação a certos esportes em que a questão econômica não era um empecilho, como: o atletismo, principalmente nas provas de velocidade, pois, mais tarde os atletas negros se destacariam, também, nas provas de meio fundo e fundo, boxe e o futebol.
Na corrente de ascensão do treinamento esportivo, o esporte olímpico fugiu ao ideal do Barão de Cobertim, idealizador dos Jogos Olímpicos da era moderna. A "união entre os povos" era o que ele priorizava, mas, os jogos viraram uma disputa política dentro do esporte. O bloco socialista e o capitalista lutavam por uma superioridade dentro do campo esportivo. Esse período ficou conhecido como guerra fria, onde o primado no esporte era de quem possuía as melhores técnicas de treinamento e conseguia obter os melhores resultados.
Como já mencionado, o sujeito negro foi alvo de muitos estudos, dentro do campo esportivo, e a fisiologia procurou decompô-lo em sistemas de funcionamento isolado. Atribuíram o desempenho dos atletas negros velocistas, segundo os estudos de Cintra Filho (1997), ao seu alto percentual de fibras rápidas, quadril mais estreito, quadríceps mais robusto e pernas (segmento do membro inferior abaixo do joelho até o tornozelo) mais finas; tudo isso para proporcionar uma melhor aerodinâmica para o deslocamento em alta velocidade. Também, foram buscar respostas na África, onde os corredores de provas de velocidade provinham da parte ocidental e os de prova de longa duração, da parte oriental; sendo essas duas regiões separadas, geograficamente, durante muito tempo, pela grande fossa africana ao leste, oriundas, no passado, por erupções vulcânicas e ao norte, pelo árido clima do deserto.
Outra questão inquietante é que tal supremacia dos velocistas negros e fundistas (corredores de longas distâncias) só ocorre entre o sexo masculino, sendo que, no feminino, existe um equilíbrio. Não é objetivo deste trabalho aprofundar-se nesta questão, pois, trata-se de assunto para outro estudo, mas, uma pergunta instiga, sob essa perspectiva: na cultura patriarcal em que são educados homens e mulheres de qualquer grupo étnico-racial, as habilidades corporais masculinas não são sempre mais favorecidas?
Recentemente, presencia-se a ruptura do sujeito negro, frente a estes discursos preestabelecidos pela ciência. Um exemplo disto é o nadador negro do Suriname, Anthony Nesty, que ganhou em Seul, em 1988, a medalha de ouro no nado borboleta, modalidade que exige maior esforço e técnica do atleta. Nesty ganhou de dois ícones da natação mundial, o norte-americano, Mattheu Biondi e o alemão ocidental Michel Gross.
No Suriname, havia uma única piscina oficial de 50m, onde Nesty treinava, o bastante para o atleta negro ganhar uma bolsa de estudos na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos e tornar-se o primeiro e único negro a ganhar uma medalha de ouro de natação dos Jogos Olímpicos. Outro exemplo que quebrou o discurso sobre a fraca performance do negro na natação é o nadador brasileiro Edivaldo Valério, primeiro negro a compor a equipe olímpica da natação brasileira e a ganhar uma medalha de bronze nas Olimpíadas de 2000, em Sydney, no revezamento 4x100m livres.
Muitos acontecimentos vêm rompendo as representações que traduziram o negro em determinadas identidades, no âmbito esportivo e em outros campos sociais. Exemplo disso são as irmãs Wilhams no tênis, Tiger Wods no golfe, Rogério Clementino, primeiro cavaleiro negro do mundo elitista do hipismo (que irá compor a seleção brasileira nas Olimpíadas de Pequim) e o novo fenômeno da Fórmula 1, talvez, o último baluarte instituído como lugar de branco e rico a ser rompido por uma identidade negra, o inglês Lewis Hamilton, que, no Grande Prêmio do Brasil, em 2007, foi chamado pela repórter da Rede Globo, Mariana Becker, como "inglesinho com jeito de jogador de futebol".
Também estiveram nos Jogos Pan-americanos, realizados na cidade do Rio de Janeiro em 2007, vários nadadores negros que obtiveram destaque. Este processo de quebra de discursos vem acontecendo com a descentralização de grupos das sociedades, que tentam se parecer homogêneas e de arrazoado chauvinismo. Os grupos étnicos, religiosos, raciais, etc., encobertos por essas supostas identidades nacionais unificadas, vêm procurando emergir e reivindicar outros espaços de atuação.
O esporte, como grande fenômeno social, deu guarida ao sujeito negro pela sua inserção e representatividade, em algumas modalidades na prática esportiva. Durante muito tempo, o negro ficou estigmatizado nessas modalidades, estabelecidas por discursos científicos que o naturalizaram com habilidades corporais a priori. Esta imagem "natural", produzida do atleta negro, alude a um outro debate, o da diferença.
RICOS E FAMOSOS
Michael Jordan - Basquete
(EUA, 17/03/1963)
As jogadas acrobáticas e os feitos históricos do ala-armador ajudaram a espalhar o marketing da NBA pelo mundo, em expansão coroada pela conquista do ouro olímpico em Barcelona-1992, na formação do "Dream Team". A rede "ESPN" e seu fornecedor de material esportivo também atingiram o globo. Ganhou seis títulos pelo Chicago Bulls, em dois tricampeonatos intercalados por sua primeira aposentadoria do esporte um gesto que se repetiria ainda duas vezes, com a terceira sendo a definitiva, vestindo a camisa do Washington Wizards.
Muhammad Ali Boxe
(EUA, 17/01/1942)
Três vezes campeão do mundo nos pesos pesados e um mito cultural norte-americano, foi eleito o esportista do século em 1999 pela revista "Sports Illustrated" e pela rede britânica "BBC". Além do desempenho marcante nos ringues, Ali (ex-Classius Clay) é reconhecido pelo humor e táticas de marketing, o eloqüente discursos para promover lutas e sua recusa em servir ao Exército norte-americano na Guerra do Vietnã. A atitude resultou na suspensão de sua licença de pugilista no país, em 1967, e o caso foi levado à Suprema Corte, já com apoio da opinião pública ao seu lado. Em 1970, voltou a lutar. Vieram a "Luta do Século", contra Joe Frazier em Nova York, a "Rumble in the Jungle" contra George Foreman, no Zaire, e a "Thrilla in Manila", novamente contra Frazier nas Filipinas. Foi destronado apenas em 1978, por Leon Spinks, já bem distante do auge. Na década de 80, aposentado, passou a sofrer com o mal de Parkinson.
Pelé Futebol
(Brasil, 23/10/1940)
O "Rei do Futebol" é uma das figuras mais populares do mundo, com os tricampeonato mundial conquistado com a seleção brasileira, o bi mundial pelo Santos e uma série de gols que arrebatou fãs pelo globo. Seja pela seleção ou pelo Santos, sua presença em campo foi um fator extraordinário na década de 1960. Em 67, por exemplo, um amistoso do clube paulista em Lagos interrompeu a guerra civil no país, com as duas facções rivais negociando um cessar-fogo. Ainda hoje, atua como garoto-propaganda de multinacionais, depois de ter sido ministro do Esporte e colaborado na lei que leva seu nome, a "Lei Pelé", alvo de controvérsia no futebol nacional.
Tiger Woods Golfe
(EUA, 30/12/1975)
Um dos maiores nomes da história do golfe e ainda em atividade como número um do mundo, foi o atleta mais bem pago de 2007, com ganhos de cerca de US$ 122 milhões em prêmios e patrocínio. Sua ascensão no circuito deu grande impulso à exposição e popularidade da modalidade nos Estados Unidos. Woods é filho de pais com ascendência bem diversificada: há traços tailandeses, holandeses, afro-americanos, americanos nativos e até chineses em sua família. Hoje é budista e casada com uma modelo sueca. Criança-prodígio, começou no esporte aos dois anos, com aparições nas TVs e revistas nacionais
Publicidade
Publicidade
Milho Disponível
R$ 66,90
0,75%
Algodão
R$ 164,95
1,41%
Boi à vista
R$ 285,25
0,14%
Soja Disponível
R$ 153,20
1,06%
Publicidade
Publicidade
O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.