A MÃE MAIS FALADA 09.05.2021 | 21h00

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Arquivo Pessoal
No futebol existe um personagem que não importa o que faça dentro das quatro linhas sempre será o vilão no fim de uma partida. O apito e a bandeira são a linha tênue que o separa de elogios e xingamentos. A alta carga emocional em uma partida fazem os torcedores esbravejarem e expelirem as mais maldosas palavras ao árbitro presente. Basta um pênalti mal marcado ou um gol invalidado por impedimento para os mais fanáticos de um time começarem os insultos, que são direcionados a uma pessoa que às vezes nem sequer está dentro do estádio, a mãe do árbitro de futebol.
As palavras destinadas às progenitoras de um árbitro são fortes e duras e nenhuma mãe gosta de ver seus filhos sendo ofendidos, seja qual for o cenário. Entretanto, existem mães que apoiam os filhos até nesses momentos, muita delas tiram de letra, recebem xingamentos com naturalidade e até riem da situação.
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Duas Mães
O presidente do Sindicato de Árbitros de Mato Grosso (SINDAMAT), Edilson Ramos da Mata, 55, conta que no período em que apitava tinha duas mães, uma que deixava em casa e outra que ele levava para o campo e que recebia os mais diversos insultos.
"Essa que eu levava pro campo poderiam xingar ela da forma que quiserem, eles me xingavam de tudo. Antigamente, os torcedores podiam beber no estádio hoje que não podem mais, o torcedor ia para o estádio desestressar, gritar, xingar o árbitro, xingar a mãe do árbitro, xingar a esposa do árbitro, mas logo a garganta do indivíduo doia e ele parava de gritar. O que eu não iria aceitar é se o torcedor viesse me agredir fisicamente, aí é diferente" comenta Edilson.
Da Mata também explica que a carreira na Polícia Militar o ajudou a ter um forte controle emocional para lidar com essas situações extremas dentro do campo.
"Eles tentam abalar o nosso psicológico, então nós temos que ter um controle emocional muito grande. O árbitro é igual um policial, tem que agir com autocontrole. Isso eu fazia muito bem, pois além de ser árbitro eu sou sub-tentente da Polícia Militar e meu controle emocional é muito grande", explica.
Para Maria Dete da Mata, 77, a carreira do filho como árbitro foi um orgulho, afinal Da Mata colecionou várias conquistas enquanto arbitrava. Edilson foi o primeiro árbitro de Mato Grosso a apitar um jogo do Campeonato Brasileiro da Série A. No total, foram 566 partidas na carreira, inclusive apitando a última partida do antigo estádio Governador José Fragelli, mais conhecido como "Verdão", antes de ser demolido.
"Para mim foi muito bom, gostei muito e fiquei muito feliz, não me importei e nem me incomodei com as palavras que os torcedores falavam no campo. Não me atingia e por isso não resultava em nada", destaca Maria Dete.
Dona Maria diz que apesar de não ter ido ver o filho arbitrar pessoalmente nos estádios, o acompanhava pelos jogos televisionados, ela destaca o jogo de 2007 entre Juventude e São Paulo, no estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul (RS). Os donos da casa venceram o Tricolor Paulista pelo placar de 2 a 0 na ocasião e a partida foi transmitida para todo o Brasil.
Orgulho da Mãe
O Cuiabano Alinor da Silva Paixão, 42, começou a apitar por curiosidade, sempre muito questionador e telecspectador assíduo de jogos profissionais, o juiz discutia na roda de amigos sobre as regras do futebol. Através de um colega que falava sobre o curso, Alinor fez o curso e acabou pegando gosto pela profissão.
Formado em 2001 no curso de arbitragem, o então juiz passou a apitar em partidas de campeonatos amadores entre 2001 e 2003. Em 2004, Alinor fez a estreia no futebol profissional e desde então não parou mais, de lá para cá são 20 anos ininterruptos.
Alinor conta que ele e a mãe, Inácia Raimunda da Silva Paixão,72, sempre foram muito ligados ao esporte e por isso ela tira de letra os insultos direcionados ao filho.
“Mamãe tem uma particularidade, em toda minha vida eu e minha família trabalhamos com o futebol, até hoje temos time. Então ela está acostumada e habituada ir para beira do campo, ajudar, torcer, fazer essas coisas do futebol amador”, pontua o juiz.
O árbitro também explica que no começo Dona Inácia ficava receosa por conta dos lugares em que o filho apitava e só foi se acostumar quando ele começou arbitrar no futebol profissional.
“Quando virei árbitro ela não se sentiu muito bem, ela tinha medo principalmente quando eu trabalhava no futebol amador, eu ia apitar em algumas regiões perigosas da cidade e ela tinha medo das pessoas me agredirem. Quando eu engajei no futebol profissional, que é um mundo completamente diferente, ela acostumou e hoje leva bem essa situação das pessoas xingarem”, explica Alinor.
Dona Inácia conta que tem muito orgulho da profissão de Alinor, mas revela que fica aflita em algumas situações envolvendo o filho.
“O Alinor é prestativo, humilde e eu tenho muito orgulho dele ser árbitro de futebol, só que a mãe sofre fora de campo, tem vezes que eu não gosto nem de assistir ele apitando. Eu fico com medo porque existem vários atletas que reclamam muito em algumas situações de jogo”, conta Dona Inácia.
No entanto, ela explica que com o tempo conseguiu se acostumar com a profissão e tenta levar da melhor maneira possível.
“Ele está fazendo o trabalho dele, xingar não tira pedaço e a mãe do árbitro sempre será lembrada em uma partida de futebol. Peço a Deus que abençoe meu filho sempre, não só ele como todos árbitros de futebol” destaca.
Inácia relatou uma história bastante cômica que aconteceu entre ela e um torcedor que estava insultando o filho no estádio.
“Eu estava na Arena Pantanal e escutava vários insultos, o homem que estava do meu lado começou a me xingar de forma indireta, eu comecei a ficar zangada, mas o meu filho mais velho me disse que era assim mesmo, ai depois eu comecei a rir da situação” revela Dona Inácia.
A genitora finaliza dizendo que o que é importa é que o filho esteja trabalhando com o que gosta e continue sendo humilde.
Amor de mãe e filha
Há mais de 21 anos trabalhando com arbitragem, Eliane Cristina Alves, 44, sempre contou com o apoio dos pais, sobretudo da mãe, Raimunda Maria Santiago Alves, 65. Ainda quando era mesária e bandeirava no futebol amador, mais precisamente no campo do mini-estádio do bairro CPA 1, Eliana foi convidada para fazer o curso de arbitragem de futebol e futsal da Federação de Mato Grosso.
A bandeirinha concluiu o curso em 1999, porém só veio a fazer a estreia no profissonal em 2000 no estádio Governanador José Fragelli, o “Verdão”.
Ao longo da carreira, Eliane passou por várias momentos marcantes. A bandeira conta sobre o episódio em um jogo do Campeonato Mato-grossense entre União e Operário-VG.
“Os torcedores arrebentaram o alambrado do lado em que eu estava e invadiram o campo, mas graças a Deus nenhum dos árbitros foram agredidos”, relata.
Eliane relembra com orgulho uma final da Copa Gazeta Master em que escalaram um trio feminino para trabalhar. “Tiveram que fechar os portões do “Dutrinha”, pois estava lotado e não cabia mais ninguém.
Apesar de trabalhar com o futebol profissional, Eliana também exalta os campeonatos amadores do estado.
“Eu amo trabalhar em campeonatos assim, Dom Aquino, Campeonato dos Feirantes, em Santo Antônio, Três Barras, Jardim Vitoria, Vila Arthur, 1º Março, Canelas, Dito Souza, Parque Cuiabá e Jardim Mossoró, sempre com casa cheia", cita.
De tantas histórias, Eliane cita uma inusitada. “Certa vez no Dutrinha, um torcedor subiu o alambrado e quis invadir o campo, conversamos, nos entendemos e hoje somos muito amigos. Inclusive fui convidada para o aniversário de 60 anos dele e, claro, fui com prazer”, relata.
A mãe da assitente de futebol, Raimunda Santiago, revela que a filha não a comunicou sobre o curso de arbitragem da Federação e só foi avisá-la quando já havia finalizado.
“Quando Eliane resolver fazer o curso de arbitragem, simplesmente ela não comunicou nem para mim e nem para o pai dela. Talvez por receio que a gente pudesse não permitir por ser um mundo masculino, só viemos saber quando ela já estava recebendo o certificado.
Dona Raimunda explica que ao contrário do pai que no início não foi muito a favor, ela sempre achou um máximo a filha ter coragem para desbravar um mundo tão diferente naquela época.
“A princípio o pai ficou meio nervoso, mas como ele gostava de futebol acabou relevando. Eu já achei o máximo, era um mundo e um conhecimento novo, pois naquela época não existia assistente e árbitro feminino e ela sempre foi uma pessoa independente, quando ela quer uma coisa ela sempre vai para cima e consegue”, destaca.
Em questão aos xingamentos, Raimunda comenta que tira de letra que e faz parte do esporte. “Geralmente quando insultam os árbitros e os assistentes xingam a mãe e não eles, mas eu tiro de letra, isso faz parte do esporte. O torcedor quando vai ao estádio, principalmente se o time estiver perdendo é a mãe que leva o xingamento mesmo”, pontua.
Em contrapartida, a genitora comenta que se um dia algum torcedor invadir o campo para agredir a filha fisicamente, ela irá intervir. “Se algum jogador ou torcedor, partir para cima dela para agredi-la por algum motivo, ai eu entraria no campo para defende-la e faria meu papel de mãe” explica.
Amor à distancia
Na capital mato-grossense desde 2003, o árbitro paranaense Danillo Alves de Campos, 47, se divide em duas profissões. Apesar de trabalhar como consultor há 21 anos, Danillo também não deixa para trás o amor que ele sente em arbitrar. Danillo ingressou no curso da Federação em 2006, realizou as provas físicas e teóricas em 2007, para só em 2008 fazer a estreia no profissional, na antiga Copa do Governador.
Com o jogo apitado na manhã de sábado (8), entre Operário Várzea-grandense e Nova Mutum Esporte Clube, o paranaense já começa a fazer a contagem regressiva para alcançar 100 jogos na carreira como árbitro de futebol. No total, Danillo já teve a oportunidade de estar presente em 96 partidas, restam 4 para chegar a marca desejada.
O paranaense também enxerga que ao longo do tempo a equipe de arbitragem foi evoluindo e passou a ficar mais unida, tendo um único objetivo, cumprir todas as 17 regras do futebol.
Danillo contou uma experiência bastante inusitada ao
. Certo dia ele estava apitando normalmente, até que uma pessoa começou a insultá-lo reiteradamente. Quando o juiz virou para arquibanca, acabou descobrindo que o homem que estava lhe xingando era um companheiro de igreja que ele frequenta até os dias de hoje.
Passaram se os dias até que Danillo foi ao culto e encontrou o mesmo rapaz do jogo, se dirigiu a ele e proferiu as seguintes palavras: "calma, amigo, eu sei que você só estava desabafando e cololando para fora os seus sentimentos do dia a dia".
Em relação aos xingamentos dos torcedores, Danillo explica que recebe eles com naturalidade e que isso não abala o emocional durante a partida.
"As ofensas são momentâneas, é tudo da boca para fora, os torcedores vão ao estádio e se deixam se levar pelo romantismo e sentimentalismo pelo clube. Com o passar do tempo, eu aprendi que a árbitragem é uma dádiva, um vício e eu acho isso encantador", explica o árbitro.
Nem os 1.260,4 km que dividem Maringá-PR e Cuiabá, faz a mãe, Marineide Alves de Campos, 72, deixar de acompanhar Danillo. Ela faz questão de assistir os jogos arbitrados pelo filho. No final de cada partida, trocam mensagens e fotos via celular e comentam sobre o jogo.
A mãe de Danillo comenta que os esportes correm pelas veias da família, além de Danillo sempre estar envolvido no meio esportivo, o neto "Danillinho" também pratica basquete na capital, assim como a neta Carol Campos, que é tenista. Os sobrinhos de Danillo, Pedro Campos joga basquete no Arizona-EUA e Lucas Campos joga futebol em Chicago-EUA, ambos têm o tio como fonte de inspiração.
A genitora chega a brincar com os moradores da cidade em que reside, dizendo que é muito famosa no estado em que o filho mora, justamente pelo fato de ser bastante lembrada pelos torcedores ao xingarem o filho nos jogos. Marineide acha o máximo ser reconhecida e leva os insultos na brincadeira.
Para Marineide, ver Danillo arbitrar é uma felicidade sem fim e vê o filho como uma inspiração para o resto da família.
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Eliane - 09/05/2021
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