LANÇAMENTO MUNDIAL 15.02.2026 | 08h30
Divulgação/Cia. das Letras
Às vésperas de seu lançamento mundial, que ocorre no próximo dia 17, inclusive aqui no Brasil, o livro Et la Joie de Vivre (Um Hino à Vida, na versão em português) teve seus primeiros trechos divulgados na última semana pelo jornal francês Le Monde.
A autora, Gisèle Pelicot, ganhou notoriedade internacional em 2024, ao optar que fosse aberto ao público o julgamento de seu ex-marido, Dominique Pelicot, 72 anos, e de mais de 50 homens que a violentaram — convidados por ele após dopar sistematicamente a mulher.
“Quando penso no momento em que tomei minha decisão, digo a mim mesma que, se tivesse 20 anos a menos, talvez não tivesse ousado recusar o julgamento fechado. Eu temeria os olhares, esses olhares malditos com os quais uma mulher da minha geração sempre teve de lidar”, afirma Gisèle, em um dos trechos.
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“Talvez a vergonha vá embora mais facilmente quando se tem 70 anos e já não chamamos a atenção de ninguém. Não sei. Eu não tinha medo das minhas rugas, nem do meu corpo”, completa ela na obra, escrita em parceria com a jornalista Judith Perrignon.
Há uma grande expectativa em torno do livro. Não só editorial, mas do público e das mulheres que viveram traumas semelhantes.
A atitude de renunciar ao direito do anonimato comoveu o mundo e alçou Gisèle ao posto de ícone da luta feminina.
Tornou-se uma das mulheres mais influentes do ano, segundo ranking da prestigiosa revista Times, que a descreveu como “líder extraordinária”.
Isso porque sua mensagem, ao narrar suas memórias, é simples e não por isso menos brutal: toda e qualquer vergonha, constrangimento ou embaraço deve ser exclusivamente dos autores e nunca, jamais, da vítima.
Parece ser óvio. Mas não é assim que funciona quando se é mulher.
‘Isso é montagem’
No livro, Gisèle fala do momento em que o delegado lhe mostrou os vídeos dos estupros sofridos por ela, quando estava inconsciente em sua própria cama.
Foi um choque.
“Eu não reconhecia aqueles indivíduos. Nem aquela mulher. A bochecha tão flácida. A boca tão mole. Era uma boneca de pano. [...] Não sou eu, inerte nesse leito. Isso é uma montagem. Obra de alguém que quer prejudicar Dominique”, disse, incrédula.
O delegado, então, a ajudou a reconhecer a mobília, a roupa de cama, os detalhes de sua casa. Sim, o horror era real.
E ocorreu por dez anos.
Ao todo, 53 homens foram convidados pelo marido para violentá-la.
Às futuras gerações
Na obra, Gisèle também compartilha sua trajetória desde a infância, passando pelo casamento, pela descoberta do crime, pelo processo judicial e chegando à luta para reconstruir a própria vida.
Com coragem e lucidez, ela mostra como transformou o trauma em um manifesto de vida, dignidade e superação.
Ao escancar a banalidade do mal, Gisèle fez a vergonha mudar de lado. E agora eterniza seu gesto da melhor maneira com que poderia: registrando-o em palavras, garantindo que seu recado chegará às futuras gerações.
Homens comuns estupram.
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