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narrativa atravessa século 18.10.2026 | 10h56

Alvo de acusação em 1982, agora Júlio é quem reclama de resultado de eleição

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Walter Machado/Arquivo A Gazeta

Walter Machado/Arquivo A Gazeta

O ex-governador e deputado estadual Júlio Campos (União), que não conseguiu se reeleger em Mato Grosso, voltou a colocar em dúvida a legitimidade de uma eleição sem apresentar provas. Durante o lançamento da Casa 22, espaço de apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência da República no segundo turno, Júlio afirmou que a eleição presidencial de 2022 teria sido “roubada” pelo atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e apontou um suposto complô para impedir a vitória de Flávio.  

 

A fala ganha um contorno histórico particular quando confrontada com a trajetória do próprio Júlio. Em 1982, ao vencer a disputa pelo governo de Mato Grosso contra o candidato do PMDB, Padre Raimundo Pombo, ele se tornou alvo de acusações de fraude eleitoral feitas pela oposição.  

 

As denúncias foram registradas em documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de inteligência da ditadura militar, posteriormente divulgados por veículos de imprensa. Quatro décadas depois, o político que teve sua vitória questionada reproduz um discurso semelhante ao de seus adversários daquele período: o de que o resultado de uma eleição teria sido comprometido por irregularidades.  

 

A diferença está nos personagens e nas instituições envolvidas. Em 1982, as acusações eram dirigidas contra o grupo político de Júlio; agora, ele questiona a eleição presidencial que levou Lula ao Palácio do Planalto.

 

Relatórios do SNI registraram denúncias   

A eleição de 1982 foi uma das mais controversas da história política mato-grossense. Júlio Campos, então filiado ao PDS, venceu Padre Pombo por 203.605 votos a 188.878, uma diferença de 14.727 votos. O pleito marcou o retorno das eleições diretas para governador nos estados após anos de escolha indireta durante o regime militar. 

 

A oposição não aceitou o resultado sem contestação. O PMDB pediu a anulação da votação e apresentou acusações de irregularidades, incluindo suspeitas de títulos eleitorais falsificados, participação de menores e eleitores que teriam votado mais de uma vez. Em uma das alegações reproduzidas nos documentos da época, o partido sustentava que havia mais de 31 mil votos falsos somente na 1ª Zona Eleitoral de Cuiabá.  

 

Documentos sigilosos produzidos no início da década de 1980 que registravam as acusações da oposição e outras suspeitas envolvendo integrantes da família Campos e empresas relacionadas ao grupo político. Os relatórios, porém, documentam o que foi denunciado e informado à inteligência do regime, não constituindo, por si só, prova judicial de que as fraudes alegadas tenham ocorrido. A Justiça Eleitoral manteve o resultado que confirmou a vitória de Júlio.  

 

Na ocasião, Júlio rejeitou as acusações e atribuiu a contestação ao inconformismo dos adversários. Em declarações recuperadas pela imprensa, sustentou que as denúncias eram fruto do desespero do PMDB diante da derrota. Anos depois, ao comentar os relatos sobre seu governo, afirmou que nada havia sido constatado contra ele.    

 

A história das urnas no Rio Cuiabá 

A eleição de 1982 também alimentou uma das histórias mais conhecidas do folclore político de Mato Grosso: a de urnas eleitorais que teriam sido encontradas boiando no Rio Cuiabá. Na época, a apuração era manual, feita a partir de cédulas de papel, e podia se estender por semanas. Em Cuiabá, parte da contagem ocorreu no ginásio da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em meio à expectativa pelo resultado e às suspeitas levantadas pelos dois lados da disputa.

 

A narrativa das urnas que teriam aparecido no rio atravessou gerações e se incorporou à memória política estadual. A história ilustra o ambiente de desconfiança que marcou aquela apuração, mas não comprova fraude eleitoral. O contraste com as declarações atuais de Júlio é evidente: em 1982, ele dizia que as acusações contra sua eleição eram motivadas pelo desespero do PMDB; em 2026, afirma, sem apresentar provas, que a eleição presidencial de 2022 foi roubada e que existe uma articulação contra Flávio Bolsonaro.

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