cenário mutável 26.07.2026 | 08h19

fred.moraes@gazetadigital.com.br
© Rovena Rosa/Agência Brasil
Os termos “direita” e “esquerda” passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano dos brasileiros na última década, especialmente durante períodos eleitorais. Apesar da frequência com que aparecem em discursos de políticos e nas redes sociais, ainda são conceitos que geram dúvidas entre parte do eleitorado.
Para explicar as principais diferenças entre esses campos ideológicos e como eles se manifestam na política brasileira, o
conversou com o analista político Vinicius de Carvalho. O também professor universitário pontuou os princípios de cada lado e os ideais defendidos pelos políticos pertencentes.
O analista lembra que a divisão entre direita e esquerda surgiu durante a Revolução Francesa, no fim do século XVIII. Na Assembleia Nacional, os parlamentares favoráveis à preservação da ordem existente se posicionavam à direita da mesa diretora, enquanto aqueles que defendiam mudanças profundas e rápidas ocupavam os assentos à esquerda. Os mais moderados permaneciam ao centro.
“A direita, de forma geral, aceita as mudanças, mas de forma lenta, muito discutida e debatida. Já a esquerda defende mudanças em direção a uma sociedade que ainda não existiu, com transformações mais rápidas e estruturais”, explica.
Vinicius de Carvalho ressalta que essas definições não são absolutas e podem mudar conforme o contexto histórico e o país.
“Direita e esquerda são termos que mudam no tempo e no espaço. O que representa cada campo político na Europa, nos Estados Unidos ou no Brasil não é exatamente a mesma coisa”, frisa.
Apesar dessas diferenças, o professor afirma que classificar partidos e candidatos apenas entre direita e esquerda se tornou insuficiente para explicar a política contemporânea. Segundo ele, atualmente existem outros fatores importantes para a distinção.
“O conjunto de características que identifica cada campo político varia muito. Para cada sociedade e em cada época diferente, em cada lugar diferente, eles têm significados diferentes. Então, a esquerda em Mato Grosso é diferente da esquerda, por exemplo, no centro-sul do Brasil. Então, isso varia de uma época para outra também, né? Depende de cada ideal e necessidade”, pontua.
O analista também destaca que o cenário político brasileiro passou por mudanças importantes nas últimas décadas. Após um período de predominância de governos identificados com a esquerda entre 2003 e 2016, o país viveu um movimento de fortalecimento da direita, consolidado com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018.
Para ele, esse processo deu origem a uma “nova direita”, marcada pela forte presença nas redes sociais e pela aproximação com segmentos como empresários, evangélicos e integrantes das forças de segurança.
“É interessante olhar a história de cada sociedade para poder se distanciar melhor. Nós tivemos um ciclo mais à esquerda a partir de 2002. Em 2010, que foi o auge disso, na eleição do Dilma 1, foi o auge desse perfil mais à esquerda. Com a crise econômica do governo Dilma, a partir de 2014, misturada com a crise política, tivemos esse giro para a direita, que foi muito bem expresso em 2018, com a eleição do Bolsonaro, que foi se agravando”, emenda.
Carvalho ainda pontua que o que diferencia os pensamentos dos dois lados é atrelado a outras áreas específicas, como economia, segurança e costumes.
Na economia, Vinicius afirma que, tradicionalmente, a direita defende menor intervenção do Estado e maior liberdade para a iniciativa privada. Já a esquerda costuma atribuir ao Estado um papel mais ativo na economia, tanto na regulação quanto na promoção de políticas públicas.
Na segurança pública, as diferenças também aparecem. Enquanto setores identificados com a direita defendem maior rigor nas punições, ampliação das forças de segurança e endurecimento das leis penais, a esquerda costuma enxergar a criminalidade como resultado de fatores sociais mais amplos, defendendo políticas integradas de educação, saúde, emprego e inclusão social como forma de reduzir a violência.
Nos costumes, a direita tende a adotar posições mais conservadoras, especialmente em temas ligados à família e aos valores tradicionais. Já a esquerda costuma apoiar pautas relacionadas à diversidade, aos direitos das minorias e a novos modelos de organização familiar.
"Toda sociedade tem grupos que querem mudanças rápidas, outros que preferem manter tudo como está e aqueles que buscam conciliar essas duas posições, que são os de centro. Na economia, a esquerda é associada a uma maior intervenção do Estado, enquanto a direita defende um modelo mais liberal, com mais liberdade para a iniciativa privada e menos regulamentação. Essa divisão tem origem nas ideias de capitalismo e socialismo e, até hoje, continua influenciando a forma como os campos políticos são identificados."
Na avaliação do especialista, a dificuldade de muitos eleitores em identificar o posicionamento ideológico dos partidos está relacionada à baixa formação política da população e à própria dinâmica do sistema partidário, que reúne dezenas de legendas e frequentes mudanças de alianças.
Para quem deseja compreender melhor o posicionamento de um candidato antes de votar, Vinicius de Carvalho recomenda observar mais do que o discurso. Segundo ele, é importante analisar o histórico de votações, a atuação prática ao longo do mandato e a coerência entre o que o político promete e o que efetivamente realiza.
“O discurso tem importância na política, mas o comportamento nas votações, as decisões tomadas e a atuação concreta costumam revelar com mais clareza o posicionamento ideológico de cada representante”, conclui.
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